terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O IPÊ E O ASFALTO



A cidade. Multidão. Rostos anônimos. Correria.
Sozinha caminhava após um dia entediante. Um dia citadino.
Em dias assim, o olhar custa fixar-se. O olhar corre e não vê.
Em dias assim, a gente não vive. Luta pra sobreviver.
Mas lá estava ele. No meio do meu caminho. O ipê.
O ipê florido no meio do asfalto. Suave, tranqüilo.
Desde pequena sempre me senti atraída pelos ipês.
Sempre me questionei “Como pode árvores de flores?”
Então, por mais enfadada que viesse correndo pra chegar logo e deitar, meu olhar não se desviou dele. Do ipê amarelo.
Parei. Simplesmente parei a contemplá-lo.
E aquilo me trouxe calma. A calma que a cidade me leva embora.
E aquilo me fez pensar, pensar coisas aparentemente sem nexo.
(Adoro pensar coisas assim, há quanto tempo não o fazia! Não tinha tempo!)
A cidade nos rouba o tempo de pensar.
Mas ele estava lá. No meio do asfalto. Que bom que estava lá.
Levou-me de volta a minha infância. Às manhãs de domingo a caminho da casa do vovô.
E me fez refletir sobre a vida.
Sobre como somos impacientes e não aproveitamos o momento porque nos prendemos ao depois.
Aquelas flores enfeitam o ipê e a cidade em tempos de aridez.
Mas depois as flores caem. E demoram um ano todo pra voltar.
Mas o ipê estará lá. Sereno. Paciente.
É o ciclo da vida.
O ciclo que a agonia da cidade cega nossos olhos e nos faz desperceber.

(Tuyná Fontenele)

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