sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O VELHO E O DUENDE II (conto parte II)



O velho tinha passado a usar a túnica negra havia mais de trinta verões, as mangas eram compridas, no entanto não lhe encobriam as mãos. O cinto era de couro de urso e Plershes sabia muito bem como lhe tinha sido custoso ganhar aquele cinto, porque num dia em que se encontrava em apuros fora o velho quem o salvara do perigoso pardo. Seu calçado também era de couro do tal urso e lhe fechava até o meio da perna depois de fechada com as duas fitas afiveladas. Desde quando se mudou para a montanha, morou naquela velha casa. Mas nem sempre teve aquela barba branca e aqueles cabelos longos. Quando ele chegou ali seus cabelos ainda eram negros como a noite e curtos na altura do lóbulo das orelhas, que eram pequenas e sempre andavam escondidas pelos cabelos ondulados. Seus olhos sempre atentos com uma cor que podia ser confundida com as folhagens dos arbustos. Seu nariz meio arredondado podia sentir o odor dos javalis a uma distância de duas léguas, com isso sempre andava precavido e se fosse necessário mudava de trilha para não sofrer como os guerreiros nômades. Sua barba longa quase lhe escondia o rosto, mas não escondia a cicatriz de sua boca. Ele era de estatura alta e se estivesse em seu antigo clã, os Virnores, teria a altura de um homem e meio.  Neste clã só havia arianos de estatura média baixa e quando Grinbow nasceu, seus pais tiveram duas escolhas: sacrificá-lo em um ritual no 21º dia de vida ou abandoná-lo na floresta. Os Virnores acreditavam que com o sacrifício da criança de cabelos negros, os próximos a nascerem seriam mais fortes e assim continuariam com a raça ariana. Para eles Grinbow era amaldiçoado. Assim, seus pais o deixaram com uma curandeira que morava na floresta. O velho teve uma educação dos xamãs de Comblaits. Aprendeu a fazer todos os tipos de poções pra aliviar as dores do corpo e da alma, para curar e para matar. Alguns verões após a morte de sua segunda mãe Grinbow saiu vagando até que um dia encontrou Plershes. Tornaram-se amigos com algumas brincadeiras que o duende pregou naquele que um dia fora desconhecido.
- Onde estão os biscoitos?
- Ora Plershes, até parece que você não sabe onde ficam. O inverno te congelou a memória? – disse dando gargalhadas.
- Estou precisando de férias da montanha. – gargalhou o pequeno. – Será que o chá já está bom? Tenho saudades de quando você colocava gengibre e adoçava com mel. Essas tâmaras estão cada dia piores.
- É fato caro amigo. Há semanas que eu não incomodo as vespas para pegar mel. Elas reclamaram que eu estava pegando muito. Mas as tâmaras continuam doces, até mais que o mel, mas vejo que lhe são amargas como fel. As lembranças ainda lhe traem e as palavras ficam escondidas. Você quer tornar a rosa esquecida.
- Que a brisa me leve como a levou de mim. E que neste brinde não seja na memória o fim. – Plershes toma o chá.
Uma lágrima desce de seus olhos e antes que ela venha tocar o chão o raio de sol entra pela janela iluminando o rosto do duende com as cores da garrafa de chá. O velho sabia como era doloroso para o duende, pois ele presenciara todos os instantes dos dois. Fora o velho quem havia feito o rito de união e ele também fez o rito funeral.  Depois que Querímia se foi, um passou a estar mais presente na vida do outro. Passaram a cuidar da solidão um do outro, pois dois verões antes de Querímia morrer o velho se despedia daquela que tomou seu coração.
Grinbow conheceu muitas mulheres. Muitas passaram pelas montanhas, umas em caravanas, outras caçando, outras ainda viajando. Nicra certo dia lhe acordou pedindo ajuda para que salvasse sua esposa das armadilhas de uma caçadora. Mais rápido do que nunca Grinbow pegou seu arco e sua espada e foi atrás de Nicra aonde sua esposa tinha sido capturada. Chegando ao local, em silêncio total e com seu arco arremeteu um tiro certeiro em uma corda que prendia um lobo, que mais que depressa saiu correndo amedrontado.
- Não. Não... – grita desesperada uma voz doce. – Quem está aí?
Nicra reconhecendo a voz saiu de trás da árvore correndo para os braços de sua amada que estava sentada ao lado de uma dama.
- Mas o que está havendo? – Grinbow também aparece gargalhando.
- Essa adorável dama me salvou do lobo.
- Essas montanhas não são para donzelas. – disse em tom de ironia se aproximando.
Foi quando ela empunhou a espada transferindo-lhe um golpe que cortou seu lábio inferior. A gota de sangue escorreu pelos fios negros de sua barba. Grinbow não tirou o sorriso dos lábios permanecendo com o olhar fixo naqueles olhos azul safira. Seus lábios eram finos e nariz afilado. Seus cabelos eram brancos como a neve e pendia alguns dedos abaixo da cintura. Tinha a mesma estatura que o velho, e era percebido o corpo esbelto pelo vestido azul, sua cintura marcada por um corset de tom mais escuro que do vestido.
“Quem ela pensa que é para empunhar uma espada assim? Ela está na minha montanha!” pensou enquanto desmanchava o sorriso. E de um só relance, puxando sua espada desarmou a adorável donzela, que com um golpe derrubou Grinbow, desmaiado, a cinco corpos de distância. Foi assim que ele conhecera sua amada.



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