segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Transruptivo




De repente remodelo depois da tempestade
remontado, configuro, condiciono, desfiguro
Transformado, maqueado, todo molde
pra de novo insurgir, em novo destemor

e assim vou me arriscando no tenso amor
na dórica idéia de sol maior
se abraçando de vez com o fundo do mar
apagando o turvo terror de outrora

mas vil é a história, que um pouco demora
mas com total nitidez, me põe em nudez
os fatos que somente, da face inocente
o que neguei pra mim, soube no fim

e novamente começa, milhagem que atravessa
o senso de identidade, ao de velocidade
o pranto demora e não passa na hora
e sente o relento, na saga firmamento

remodelo, penso, regorgizo
no limiar da sofreguidão
vivo, transruptivo
inválido coração

(André Café)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Letargia


Tamanho sofrimento este que sinto.
Não há no mundo filosofia que defina
O porquê de padecer desta loucura,
Ou o porquê de ser esta a minha sina.

Ora sou alegre, ora sou triste.
Debalde, sou mais absorto em tristeza.
Como a alegria fosse efêmera,
Sendo esta traiçoeira minha única certeza!


Ora sou bom, ora sou mal.
Decerto, melhor é a indiferença,
Sinônimo de neutralidade
Porque bondade é maldade sem crença.


O meu maior mal é não ter esperança
Não ter algo em que acreditar.
A vida não tem nada de bem-aventurança,
Mais do que tudo, só fatos a lamentar.


Oh, como me soam fastidiosas,
E fúteis as coisas desse mundo.
Nada em que se apegar
Sem que leve ao engano profundo.

O mesmo olhar que encanta
É aquele que julga sua conduta.
A mesma mão que te ergue
É aquela que também te empurra.



De que mais vale um beijo de amor?
Quando essa boca que diz que te ama
É a mesma que vai dar o desprezo
E jogar o seu nome na lama!



De que mais vale um sorriso?
Quando aquele que rir também é infame!
De tantas coisas na vida,
Creia-me! Todas são inconstantes...

O que mais causa inda repúdio, são
Palavras, que ditas sem nenhum pesar,
Trazem ocultas e dissimuladas
As reais intenções de magoar.



Por isso essa grande abstenção
Acerca das cousas da vida.
De tudo o quanto já vivi e passei
Percebo agora que tive a mente iludida.



Busco, portanto, uma verdade permanente,
Um mundo paralelo, como o da loucura.
Que no seu mais profundo existir
Inda mantém a alma pura!



(Kleber Júnior)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Música de Bolso - Thalma de Freitas - Não Foi Em Vão

TERESINI - ME




Teresini-me com teu calor
Teresini-me com tuas arvores
Teresini-me com seu concreto
Teresini-me com sua beleza
Teresini-me com sua pobreza
Teresini-me contigo
Teresini-me ao maximo
Teresini-me com tua opressões
Teresini-me com tua razão
Sua racionalização
Teresine-me com sua burguesia perfumada
Teresine-me com seu progresso?
Sem nexo, permaneço
Anexado
Estagnado
Me mantenha tão perto, para que assim eu esteja mais distante
Descontextualizado
Ali é nada
Teresine-me
Me construa
Me faça quem sou
Bom ou ruim
Me forje
Teresine-me

(Victor Marchel)


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Aqui jaz um sentimento




E aqui jaz! Sepultado em terra molhada
na esquife de gelo do esquecimento
abnegado pela súbita calma
de solver-se a sede do fim do relento

Não só, às cegas do olho nu
ou em pé, com riscos de chão
Enterra na alma os horrores de dor
espreme a silhueta de monção

E aqui jaz! Senil, mas oclumente
Tornado de mil pensamentos
Outrora o ápice sutil
Agora ao fardo contento

E tolhe deveras feroz
Punhado de résquia emoção
e jaz, assim de uma vez
a sete léguas no coração

(André Café)

Conceito




do vivido e o não vivido,
eu sou apenas um detalhe do que sobrou.

(João Ernesto)

Mandala_Krishna




Mandala produzida por Mirna Waquim:

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Aniversário




O mundo está de cabeça pra baixo, hoje é o que se chama de aniversário
num turvo pensamento, penso como esse dia é tão igual ao qualquer um
me movimento vagaroso para velha rotina, como se nada diferente acontecesse
sinto as vezes como se uma vibe me acendesse, mas logo vejo que é só impressão
vinte oito anos de que? há pequenas marcas, vivências e alegrias
mas por que esse vazio, sensação de não existir nada nestes 28 anos passados
me assaltam com abraços, pessoas próximas e distantes, mudam a minha rota errante
o sorriso transfigurado, meio desenhado em meu rosto, e o torpor me consumindo
como se a carne degenerrasse de um jeito prazeroso, acabando minha existência
apagando de mim, eu mesmo e por fim a este transe reflexivo
parabéns! para quem? eu não estou na história
daquela menina que chora pela rua, precisando de um afago
ou daquele senhor que tropeçou e estende a mão pra levantar
eu só sou história para vida me empurrar e dizer que todo mundo passa
mas o que passou foi a hora, de sumir esgueiradamente
pois quando a platéia não ri mais, o palhaço sai de cena
mas nem essa motivação, garanto não ter
podia só resplandecer devagarzinho e apagar de repente
palmas, palmas, muitas felicidades
o som deturpado, ainda insiste em ressoar
acenda-me e me sorva numa só tragada
me deixa ser sua história e começar a acreditar realmente
que hoje é o dia de fazer vinte e oito anos.
SOS

(André Café)

Medo




-Foi o medo que me fez assim, eu tento me controlar, ter paciência,mas não consigo. é o medo que me faz assim.

-Já pensou em não culpar o que você não conhece?

-Eu tenho medo até que você não acredite em mim, é isso que está acontecendo.

-Você não sabe do que stá falando e procura uma saída mais fria para o seu orgulho. Admita que tem algo mais interessante por aí...

-Pára de falar e escuta!

-Admita que você vê mais graça na sua religião e em sorriso de outras pessoas. Você foi feliz até quando se interessou pela minha carne, quando isso acabou você me tratou como idiota!

-Idiota!




E lá se vai o amor quebrando pratos noite à fora...

(João Ernesto)

OITO CAUSAS, MÚLTIPLAS CONSEQUÊNCIAS (2009)


E quando se diz vambora
Simplesmente fala agora?
E se põe altiva à frente
Enlouquecendo permanente
Mas isso seria só e só
Se não houvesse algo melhor
De um pouco contigo estar ‘sozinho’
E deleitar e tocar o céu com teu carinho
E como não se cansar ao tentar seguir
Seu ritmo energizado ao se divertir
Pode até faltar o fôlego um dia
Mas certamente não, nunca alegria
E ao correr assim comigo sem saber lugar
Brincou, pulou, dançou, parou no ar
Com tudo e com todos, um respeito
Sem espaço ou chance de preconceito
E isso tudo não seria permissão?
Viver sempre em alta tensão
Porque vivenciar precisamos
E mais próximos estamos
E ao rir você me acalma
Me alimenta a alma
De sentimentos puros e bons
Minha vida explode em diversos tons
E não podia deixar de dizer
És bela não há o que fazer
Pra apagar da minha mente
Essa imagem tua mágica e reluzente
E não por último, pois oito eu só fiz
Pelo corpo do poema oito eu quis
Mas a pureza toda se traduz
Pois sinceridade é o que te conduz
E tua sabedoria ou sua meiguice
Perdoe-me se nada disse
Mas oito são os motivos colocados
Milhões são os efeitos encontrados

(André Café, em 2009)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arthur Rimbaud - A Eternidade

Vícios e amparos




Ando por aí, meio perdido, meio afastado do que me faz bem. Engraçado que andar é o mais antigo vício dos homens e que muitas vezes não se sabe pra onde se está indo. É entre um pé na lama e outro no chão que a revelação vem: você andou perdendo muito tempo, companheiro. Se martirizou por muita coisa que nem havia necessidade, trouxe a culpa do que não existia e quis dormir com ela até seus olhos não se abrirem mais. Aí então você ficou cego, não enxergou mais caminho algum e se prendeu a sua capacidade de ser domesticado. Ficou calado perante a grosseria do mundo porque és paciente. Nunca se libertou do que você não é...


agora, longe de tudo, anda fumando o que não deve, bebendo além da conta e procurando um caminho, não sabe qual. Se o velho ou outro mais recente. Se ainda tens aquela vontade de arriscar que sempre te faziam perder algumas bolas de gude quando criança, procura algo de novo, diferente e complexo, eu bem sei que esse é teu vício.

(João Ernesto)

Prefiro andar nua por aí




Pra onde devo voltar quando estou com frio
Se não lembro o caminho do tempo da infância,
Onde poderia acreditar nos sonhos e em desenhos animados,
Fazer sol ou chuva no castelo?
Papel em branco.
Fotografia não revelada.
O que fazer quando o mundo das palavras
Significados e significantes
Viram interpretações mil
Aos ouvidos de quem ouve e da alma que interpreta?
Sim. A alma. Não são os olhos ou os signos.
Desvelar. Revelar.
Para onde devo ir?
Escondo-me?
Brinquei de esconde-esconde algum dia?
Esconder palavras é me vestir
Prefiro andar nua por aí
Mesmo que o frio sopre palavras duras
E eu tente voltar para a infância que não tive.
Vivo sempre presente no tempo futuro
Não consigo escrever sob as linhas do caderno
E aprendi a ler nas entrelinhas.
Não consigo me mover para o que foi...
Sou uma pausa
Que sente frio em carne viva
Sem saber desenhar o sol ou a chuva
Nem casinhas com janelas e portas para voar.

(Sâmia Brito)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Companheira




Como dizer que me faz mal
você que tantas vezes me acolhe
num torpor gostoso me acaso sonolento
ah! o soluço me faz até sorrir
e como o vislumbre do por vir
você mata e revive minha sede
como não pedir pra você repetir
esse tontear descompassado que me orienta
o corpo suave de algodão sem um pingo de dor
a sensação de arrepio, num pio de inocência
ah! como sabor agridoce do seu fim me desperta sonhos
a garganta saltita feliz com sua presença
como dizer que me fazes mal, mas como?
se a ti recorro e sempre te encontro
e como mágica, adeus meu sofrimento
o aroma que nefasta meu sentidos
me afasta do lógico e comum
me arrebata o fulgor do imprevisível
não, não te deixareis
pois com você que me delito
quando o pulsar quer arrancar meu peito
você me sacia, seduz minha alma
e o pouco a pouco de você
ala meus pensamentos
abri minha visão
encoraja a outros amores
curado te tantas dores
me despeço, mas apenas um até breve
pois você não participa só dos prantos
esta e sempre estará nos encantos
do perder o fôlego em se divertir
companheira surreal
meu sincero agradecimento
eu volto depois
(último gole)

(André Café)

A arte de completar vinte anos.




João olhou o calendário e se assustou após notar como o tempo passava rápido. Sentiu o peso de duas décadas no fígado e no olhar cansado. Correu até a cozinha, juntou trigo, ovo, açúcar e margarina numa vasilha, bateu desajeitadamente até criar um calo num dos dedos. Untou uma fôrma e ascendeu o forno. Preparou um bolo com tanta ânsia que esqueceu da irrelevância da data. Sentado, esperava o longo processo de preparo. Aguardava o momento em que completaria 20 anos desde os 7 e agora tinha nas mãos a oportunidade da sua vida de provar que ela valia à pena, essa vida tão vazia que ele levava.
Conseguiu uns trocados com o pai e comprou refrigerantes e pasteizinhos. Arrumou a casa e esperou como um aposentado sentado na sua cadeira de vime. Bolo pronto, refrigerantes gelados à mesa (e ele até se arriscou em roubar umas cervejas do pai). Esperou como um magnata espera o resultado do seu investimento. O telefone tocou e ele correu. Não era ninguém do seu interesse, se irritava com seu irmão apenas pelo fato dele conhecer pessoas inconvenientes. João esperou como um monge preso a sua calma, encolhido na sua causa de ter um dia bom. Esperou com seus gestos impacientes, mexia a toalha da mesa, abria uma latinha de cerveja só pra ouvir o “tsss” característico. Secava o suor da mão e assoviava uma canção sem sentido. Esperava como quem espera a felicidade e o telefone tocou. Era uma voz demasiadamente doce que fez João se colorir de sorrisos e brilho no olhar. Ele desligou o telefone após o “parabéns” do outro lado da linha, e ele dava tanta ênfase ao seu latejar de pulso que sorriu bem alto. Olhou a janela e a rua estava vazia e mal iluminada, devia ser bem tarde pensou João, mas que pra ele mal importava horário e os costumes das pessoas. Saiu de casa porque sentiu vontade de urinar no meio da rua, e o fez com um sorriso sereno, quase infantil. Olhou o céu e uma lua tímida. Se deu conta de que viver extrapola os vinte anos e que, se ele vive é porque há um sentido, sabe lá onde, pra tal fato. Via-se uma criança em seu sorriso e nem se importava em estar sozinho, João era como ele mesmo dizia: calmo e só. Em nenhum momento alguém se atreveu a decifrá-lo, ele era só, tal qual suas vontades, que não possuíam ligação entre si.
Na rua só o som do apito preguiçoso do vigia do bairro, “deve ser bem tarde” pensou mais uma vez João, pra ele o relógio era o de menos, a festa de sua vida ia começar.

(João Ernesto)

PELO SORRISO DA MENINA VERDE, 2009


E meu coração tornou-se uma cerejeira
Que suas folhas anuam árvore inteira
Caem não como lágrimas; sentimento
Que busca no teu ser alimento
E aos poucos a saudade foi surgindo
E aos poucos sensações vindo
Aquelas que pensei um dia
Que nunca mais sentiria
O mínimo seria se comover
Continuar a vida você saber
Mas esse foi o primeiro passo
E agora sei bem o que faço
Contudo tudo depende da permissão
Tudo disposto, mas tudo na sua mão
Apenas externei o carinho que surgiu em mim
E apenas espero o simples sim
Pois o não já está comigo
Mas quero mesmo é estar contigo
E todas as permissões possíveis
Viver mil coisas incríveis
Pelo teu sorriso tudo menina
Verde é o tom que nos acalanta
E minha alma não mais suplanta
Estar longe de ti uma esquina
Pois é, essas coisas imprevisíveis, de repente
Não marcam data ou hora
Mas aconteceu com a gente agora
Coube o desato do nó mudo, a gente
E simples e paciente eu estou aqui
Tranqüilo e inconstante,
Em paz e pulsante
Meu coração parece querer sair
E isso tudo resume a trajetória
Dessa nova, depois de outras histórias
E só quero que serdes
A minha menina verde

(André Café, em 2009)

Carnívoros




nada de lógica
hoje eu quero a história mais bem contada
pela boca mais desnivelada
que entrelace mentiras e verdades
Gritos e sussurros
frases onomatopáicas
Aliterações aceleradas.

Nada de paz
hoje eu quero o caos
o terrorismo poético
o cheiro das crianças selvagens
a pureza de arte sabotador
quero tudo numa fração
quero o quase nada
o pelo menos
quero nem que seja a brisa
de um roda-moinho
Carregar uns sacos plástico
fazendo folhas pairarem no ar empoeirado
quero um luar de sertão numa madrugada metropolitana
quero o cheiro de fumaça depois da ressaca
quero cheiro, quero sal, quero um quase tudo
quero a ressaca do abissal mistério da carne humana.

(João Ernesto)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Retrato - Cecilia Meireles

iLuSãO


Quando á vi, encantei-me,
era fantasia.
Noite
Fria
Escura
Sombria.
Quando avistei o Luar,
Estremeci,
Não era sonho.
No sonho,
Não sentimos o
Sangue pulsar.
(Kleber Júnior-2005)

Pôr-do-sol




Falei a ela que chegaria mais tarde, ia esperar que o sol desse seus últimos lampejos vespertinos e, baseado naquele fim de tarde, ia depurar o que deveria continuar entre eu e ela. Se minha paciência fosse infinita e meus julgamentos não se baseassem em erros alheios não sentiria a necessiadade daquele fim de tarde. Quando a noite trouxer o que deve ser eu vou voltar e acatar a minha decisão, vou ser justo com a única pessoa que mereça minha fidelidade: eu mesmo.


Fui àquele pôr do sol munido de duas pêras e uma dose de amor que me faltava, a graça de sentir-se mal amado é que tudo pode ser engraçado de uma hora pra outra, depende da forma que você busca enxergar a situação.


Na primeira pêra eu já sabia o que dizer a ela, por isso que a comi tão devagar, tava demorando a acreditar. Essas coisas de sentimento... lembrança... não resistem a um fim de tarde.

(João Ernesto)

Frenesi




Como é doce saber e ver o teu arrependimento,
Sentir o gosto do teu sofrimento
E ver que o sangue no torpor do teu seio
No calor do teu leito, gela,
Mas aquenta minh’alma
Enlanguesce a minha fronte
Pulsa, queima, fere, tinge os meus sonhos em negro,
Numa dor que chega a dar prazer!
(Kleber Júnior-2007)


Poesia




"Poesia é o que vejo e sinto quando num acaso qualquer 
estou submersa num mundo que não é de ninguém... 
onde todas as horas são entardecer, com cores e flores brandas... 
onde sinto uma tranquilidade aconchegante, 
como se estivesse sempre nos teus braços e abraços... 
poesia são os carinhos, os cabelos em desalinho, 
são sorrisos serenos... nada de palavras e tudo se entende... 
como se num suspiro, num olhar tudo se despisse... 
corpos, amores, segredos e temores... poesia não é nada!"

(Karen Barrionuevo)

Matei porque era legal



Matei porque era legal... Só pensei em girar a faca na hora em que eu senti o sangue na minha mão, eu posso lhe jurar que não foi premeditado. Aquele rapaz bacana, como um cara daquele podia ser tão legal comigo? Eu negro, feio e viciado. Ele era bonito, tinha casa e quando passava pela gente ainda dava boa noite... eu não entendia muito aquilo não. Eu vivo com raiva dessas injustiças, sinhô e posso lhe dizer que eu não entendi o que eu fiz não. Eu já vi na televisão homem rico que matou gente por besteira, o que eu fiz só se explica porque era legal... anteontem mesmo ele sentou comigo e enrolou um baseado pra mim, a gente fumou junto e conversou sobre muita coisa, ele falou umas coisa que não via em canto nenhum, nem presidente, nem padre, ninguém... aquelas coisas, que eu não vou falar aqui porque eu quero guardar isso pra mim, mas posso dizer denovo que não tem motivo, eu só matei porque gostava dele. Esse povo que veio atrás de mim pra fazer justiça com as mãos tavam até certo, eu não tiro a razão deles não... eu matei por causa de uma força estranha, que nem uma força que ele tentou me explicar, mas não conseguiu.

(João Ernesto)

Apenas lembranças



"Deixe aqui sua marca, sua arte, seu retrato, 
deixa também um pouco de alma, 
sem esquecer da carne um pedaço molhado de vinho, 
quente como o teu íntimo... transpareça aqui,
teus olhos ainda sonolentos, teu hálito morno,
teu perfume, aquela tua blusa que arranquei outo dia... 
deixe aqui teu passado, já tenho o presente... 
um incenso, uma palavra,
uma gota qualquer de lágrima ou café pr'eu beber... 
Quanto a mim fica aqui,
a lembrança que eu tenho do teu cheiro que nunca esta do meu lado sólido... 
apenas lembranças..."

(Karen Barrionuevo)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O sorriso da menina verde, 2009




Outrora engraçado para uns, ou insuspeito de acontecer
Que importa é o fato de resplandecer ao anoitecer
Um riso de criptônita que enfraquece de assalto
E saltam aos suspiros, o estado de inconsciência alto
É ... que tiro surdo esse que me tolheu
E não antes de assumir tal Romeu
As flores exalavam a cerveja doce e gelada
Pois o nosso castelo erguia-se numa balada
E eu ali tão vívido e a curtir
Sem medida fiquei pra medir
O baque do interesse, o golpe da sedução
Tua sem querer, minha por avião
No momento antes, nada se passava
Mas a noite assim realçava
E o sorriso outrora desapercebido
Se mostra assim explodido
Num boom de mistura verde menina
O conjunto de sensações ah... alucina
A tênue linha entre o suspiro e o beijar
Rompe o silencio ao se anunciar
E por mais que as perguntas sedentas de soluções
Não encontrem justificativas pelas emoções
Assim pode-se listar
O que é você ao encantar
Não há mentiras, pra convencimento
Assim sincero o sorriso desenhado em tua tez
Muito ele foi que quase tudo fez
Me colocar neste estado ao vento
Mas me propus a dizer
O que tu foi a fazer
Pra sua verde alma
Sugar a minha calma


(André Café, poesia de 2009)

Lágrimas de Sangue


O futuro é uma interrogação,
De tumulto em tumulto
Escarneço nas sombras e vejo
Um vulto! A cada dia uma aflição.
É o negro estonteante essa visão,
O pálido temor, mistério da alma,
Essa nuvem cinzenta da razão
Que chama Morte e dança a valsa.
Dança que alivia minha chaga
Mata e ao mesmo tempo me afaga;
O inesperado e uma dor súbita,
Sonhei esta noite que havia morrido...
O olhar no horizonte, braços abertos, pulsos feridos,
Lágrimas de sangue, uma expressão de súplica!
(Kleber Júnior)

"Bom amor"




saiu de casa balançando os braços e a preguiça que quis o deixar dormindo mais um pouco estava em seus passos lentos. Menino magrelo, face apática. Parou no carrinho e comprou uma tapioca, "com queijo por favor", ainda por cima um café e dois copinhos, ele esfriou colocando o conteúdo de um copinho para outro repetidas vezes. Café morno e a boca do menino branca de leite de coco, apressou o passo por causa do café, engoliu a tapioca sem muita dificuldade, passou a mão na boca, no cabelo, repuxou a camisa sem estampa para baixo e bateu a porta daquela casa no início daquela rua. Como de praxe naquele ano, o menino, exatamente as 17:15, escolhia uma rua aleatória para entregar seus cartões coloridos para quem atender a porta. Como o garoto sabia que não podia melhorar a vida de todos e também por ter consciência de seu escasso dinheiro, o menino produzia cartões suficientes para cada pessoa que atender a porta de cada casa em cada rua que ele escolhesse, com mais algumas palavras o menino desejava "bom amor" ao seu ouvinte que as vezes vinha de mau humor. Nada como um bom desejo pra melhorar o dia de alguém, e o menino tinha esse costume de querer melhorar o dia das pessoas a sua maneira e fazia disso seu prazer de fim de tarde.

(João Ernesto)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Maria balbina - Babaia*




Uma mulher
Um homem embriagado
Abuso, covardia
mas o destemor venceu com uma mão de pilão
Mulher brejeira
Mulher trabalhadeira
Mulher gaiata e compenetrada; como?
Assim se fez respeitar
Assim fez o que deu na telha logo após a Proclamação da República
Eta "nega" arretada
Ama, lavadeira, criadora de galinha
Uma suavidade
Uma gentileza
Uma estraga neta
Uma mulher atemporal, cantadeira que só...
Uma mulher que só amou, não se prejudicou e nem a ninguém
Viveu de bem com a vida



* Bisavó de Conceição de Maria, tataravó de André Café

(Prof.ª Conceição de Maria da Silva Oliveira)

Anoitece


Adicionar imagem

Subindo as escadas côncavas pela cerveja vespertina, se fosse deixar de viver meus momentos com amigos por causa de lembrança mau resolvida já teria virado tapete de asfalto. Essa tarde veio me dar uns anos a mais de vida. Vim cantando do bar até em casa, ainda tive sobriedade para dar boa noite a vizinha que sempre me cumprimenta com seu sorriso amarelo, esses tipos de lembranças recentes são úteis ao meu estado de espírito e enquanto subo as escadas que parecem de borracha, ocupo minha mente pra não pensar naquela pessoa.
Essa noite terei sonhos ou terei pesadelos? Se é para haver noites, que elas aconteçam com toda sua essência de mistério. Que eu veja o pôr-do-sol com pesar, que eu me sinta uma caça e me veja como alguns milhões de anos atrás, onde o instinto fazia o humano temer a noite que viria e que em minhas reflexões só quem teme e respeita a noite pode estar vivo. Eu aqui me ponho por inteiro distraído e mal amado. Pouco apreensivo ascendo um cigarro e penso na pessoa, a fumaça escreve na penumbra o que eu queria ser, fugaz... o cheiro de cigarro e o sal do meu olho fazendo o ar em suspensão, sem cor, dentro desse quarto escuro, minha noite será.

(João Ernesto)

Os Mutantes - Panis Et Circenses

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POESIA, REBELDIA E ARTE, em 2009




ATO 1: AMARGO
Eis que um todo tomado por sensações estranhas
Busca saída em muros tão perpétuos e altos
Impossível superá-los em vão saltos
Amarga é a cor da tez das entranhas
Mas o que é isso, prisão tamanha
Encarregada de dar um sumiço
Encastelados muros edifícios
O que poderia fazer tal façanha
Mas meus amigos, não é tão cruel
A morbidez da língua na ponta
Lágrima aqui não se conta
Num milésimo da terra ao céu
E triste assim, infeliz descontente
Vaga leve pela imensidão
Isso nada mais é que coração
Encarcerado em cela inexistente

DOIS ATOS: SUPLICO SUPLÍCIO, SUMIÇO

Em que contexto está o remédio
Que cura o não sangue de dor
O que mais de humano, senão o amor?
Sem ele, chuva, fechados, tédio
Mas o humano sem amor não há
Porque sentir o amor a cada instante
Enaltece, constrói, incinerante
Aos olhos o invisível quer saltar
A mente vibra em felicidade
Tudo é todos os gostos sons e cores
Amor é bom, devia ser amores
Sem limite, volume ou capacidade
Mas eis que as estranhas sensações
Revelam o que não queria vir á tona
A solidão só de falar já emociona
Tudo se foge aos lampiões

TRÍADE: POR QUE? EM QUE? DE QUE?

Por que as perdas nos recaem em tons de culpa e medo?
Em que esse medo nos oblitera as relações?
De que servem estas vazias antes fortes emoções?
O coração parece querer parar mais cedo
E o ser que amava não entende a questão
Em que sobressaiu a queda ao chão vil
E a culpa é sua cor de anil
É o sangue desbotado que jorra do porão
Não há mais como ser feliz na vida
Pois o amor entorpeceu-me de fantasias
E a noite em branco, escuros os dias
Buscando iniciar de volta da subida
Mas culpa mesmo não tem ninguém
Amores em um dia mil se acaba
E quem muito entrelaçado desaba
É impossível envolver-se com alguém

SUPERAÇÃO, APRENDIZAGEM, AUTO-ESTIMA, PERMISSÃO

E difere a fera que entorna cada um
Mas a vida insiste em seguir
E superar é nos redimir
Do mal que não fizemos algum
Aprende-se a valorizar a metade que foi boa
Ta no coração e na lembrança
O que machuca joga na dança
Da roda das coisas à toa
E nessa escalada acredita-se em amar
E por seqüência se reanima
A quase gélida auto-estima
Amar a si e festejar
Isso não é de uma outra pra hora
Mas se permitir lhe dá graça em viver
E no fim conhecer pessoas e saber
Que feliz é quem projeta e vive o agora

QUINTO TEMPO CADA UM TEM O SEU

É certo que tudo há seu tempo
Cada um tem sua estrutura
E às vezes demora a auto-procura
Para chegar num nível contento
Por vezes surgem as (in) desejadas recaídas
Que nutrem o semi-morto sentimento
E turva outrora encaminhamento
De se buscar tão difícil saída
E mais uma vez a pessoa em rumo doloso
Cai, e daí pode refazer todo um caminho
Mas não quer mais se sentir sozinho
Segue na rota de um som prazeroso
Som que canta através de sinais
Que as pessoas vem e vão
Algumas sim outras nem consideração
E sofrer a míngua nunca mais

“FIM DO PRELÚDIO”

Eis que então aos amigos festeja
Está só, mas com tudo e todos
Agradece a felicidade! Esquece engodos
Ficar em paz e tranqüilidade alma almeja
E a vida que segue a vivenciar
Brincar, ficar, curtir, sorrir
Sem culpa, dor, nem mentir
O coração permite sonhar
Não busca outra pessoa no instante
Na há relógios de paixão
O acaso toca a ocasião
O sentimento é de ir avante
E eis que um dia desapercebido
Imbuído de vida e felicidade
A cor de toda a cidade
Enverdece, ao passo tingido

(André Café, poesia de 2009)

O por vir




[Temem o por vir, polvorificam suas possibilidades e as queimam com cigarros equilibrados em suas mãos errantes, com movimentos descambalidos tentam esconder, mas não conseguem.]

Ela vem com um resfriar de pedras que me dá calafrios, vem aguda e fria, come alguns biscoitos sem tocá-los e esconde seu olhar cansado. Em seu encalço vem a lua, elas não se tocam, trazem consigo metade do significado das coisas, de nossas tristezas que dá por esses horários. Enxuga algumas lágrimas, deita na minha cama, se inquieta e sai correndo de casa, "para o bar mais próximo, por favor". Estica as pernas, olha pra cima, senta na mesa e decide que não vai acender nada que lhe dê nos nervos. Espera regenerar sua angústia, seu orgulho nada vale agora e com um ar de sorriso ela ver passar a aurora. Se esconde atrás do horizonte, do esguio horizonte que condena seus erros, seus maus modos de lidar com seus problemas. Estirada em seu divã-auroradecoresvivas ela saudadifica o ambiente, em suspensão, parte das coisas ao seu redor amadurecem, cai do pé e se encontram trêmulas em suas cadeiras, sem respostas para metade de suas perguntas. Ao redor dela tudo se desfaz em falta, em pré-ausência, inclusive aquelas pessoas que falam alto na outra mesa sabem do que estou falando: ela nos deixa um ar contemplativo e uma beleza estranha, difícil de explicar, sem resposta até para uma simples saudação. "Boa tarde ou boa noite?", dera todo mundo buscasse a resposta através dEla.

(João Ernesto)

O Poeta Aprendiz

Foi um crime de amor




Pálida, á pouca luz sombria,
Que luta com a imensa escuridão.
É mais bela a noite que á luz do dia
Meus suspiros de agonia é por ti coração!
E bate e treme e clama por ti
O meu peito por um beijo seu!
Ao menos donzela olha pra mim,
E reacende a esperança que já morreu.
Se te gosto e em lágrimas suspiro
E me perco em sonhos que se espedaçou
É de tristeza meu Deus que nas trevas vivo.
A face gelou e a corda desceu?
E a tua imagem meus olhos guardou;
Foi contigo donzela que o meu amor padeceu!


(Kleber Júnior)

Engasgo



Gostaria de cantar as dores e declamar clamores, mas não posso...
Os arrepios constantes no meu corpo disforme travam-me
Mostre-se, Ó! Vil e indelével sabor da dor do deixar ir
O deixar partir, de um amor sem coexistir
Sofro por ti e com tu te farias sofrer
Então, parta amor sem dor
Que eu suporto a tormenta e as tempestades

(Pedro Victor Modesto Batista)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Permissão




Como dizer que me permito a isso? Como dizer que não permito?
Por que existe essa permissão aqui e não acolá? Deveras conspirador e lancinante!
A permissão diminui a distância dos muros e máscaras dos indivíduos,
Permitir-se não significa ser permissível ou permissividade
Permissão é um processo contínuo, inacabado,
Construído a cada momento da vida das pessoas;
A permissão não é instrumento utilizado para se aproveitar de situações ou de pessoas,
É um conceito para vida; permissão não significa exatamente consenso,
Muitas vezes provoca litígios, contribuindo para amadurecimento;
Dito isso, a que me permito?
Onde consigo chegar, o que realmente devo enfrentar
Pra vivenciar, pra poder compartilhar todo esse carinho em latência?
Eu não tenho a resposta. Eu tenho como agir. Por mim e por você:
Complicação não seria de certo um problema
As pessoas, todas elas são indecifráveis;
Só que certas pessoas
Sempre surgem diante de nós
Imaginamos quase sempre que o melhor é deixar pra lá
Às vezes perdemos oportunidades incríveis
Conhecer realmente pessoas de tão simples, inesquecíveis.
Aprender a admirá-las, considerá-las
Resistir, porém, por experiências passadas, ou por não querer complicar
Vivendo loucuras quase nunca, com diversos receios
Acreditando em não prosseguir para não perder o que já conquistou
Logo se observa e lacrimeja pelo que poderia ter sido
Hoje, ou amanhã, já foi tudo ficou no ontem
O suspiro ensurdece, ao passo lento, torto e resignificado
Não é um poema apenas, era o Café de antes, sem estima
Sem força, sem energia, sem tentar, sem viver
Eu gosto e respeito de você, mas dentro de mim já tenho uma resposta
Não mais dar as costas para as virtudes e vicissitudes da vida
E hoje é você o meu norte
E apenas a vontade de rumar até ele
E várias são as causas e milhões foram efeitos
E o que fazer então? Permissão
Café, bobo, feliz, lutador, focado, que gosta mesmo de você...

(André Café)

Recortes de fim de tarde




e de tarde
e benfica
e cai a tarde
no benfica.
meu bem
quem bem fica
não precisa ir embora
na melhor hora,
essa em que
choram homens
mulheres e meninos,
eu bem vou ficar
pra esperar o sol se
posicionar
entre mim e o horizonte
e esse pesar gigante
que faz a gente quase parar
pode cair, ir embora
quando a gente pensar
que a hora é de amor.
é agora
quando o sol alaranjar.
vou falar ao padeiro
que ele tem que cortar aquele bigode
e o futuro é pra quem pode
em nada pensar
quando a aurora virar
minha cabeça
dentro de mim
eu sempre vou pensar
nas respostas que nem estão por vir
e que inquieta
quem se diz poeta
numa completa
quebra
do turbilhão
do pensar difícil
do meu sifílico modo de enxergar,


a minha saudade...


vem com aquele sol se pondo...



.


Eu sempre me pergunto...



e nunca me respondo.



Sei que erro o erro dos humanos, mas nunca me sinto parte deles...


nessa hora, que a terra cora e Caetano canta pra não morrer de tristeza

é na sutileza que eu escorrego.


Se eu erro e não nego


é porque me entrego


ao alaranjado daquele sol,
à distância entre mim e o horizonte,


ao findar a tarde
vou ter esperança nas noites frias e solitárias
fazendo do clichê um detalhe,
da vida uma incerteza


vou depurar o tempo,
pra que ele nunca me pese sobre as costas.

(João Ernesto)

Homicida



Este meu instinto
Obscuro
Violento,sedento
Desejo
Ânsia
Consome,destrói
A impalpável existência.
Quando ele aparece
Desperta
Céu, inferno
Vagueia na noite
Atormenta, alivia
Queima
Pulsa intensamente
Como a Lua
Seduz
Com o brilho
Luz...
Mistério.

(Kleber Júnior)

A preto e branco



Olho em frente e vejo-me. Tenho o cabelo solto e os olhos vagos. O coração leve. As mãos estendidas a agarrarem uma fotografia em preto e branco. As fotografias em preto e branco captam bem os estados de alma. Roubam as cores do futuro e pincelam as feições de uma soturnidade bela. Dentro de mim vivem perguntas e certezas. Dentro de mim vivem crianças e disparates. Gosto do teu sorriso e da possibilidade de um dia saber o teu nome. Gosto do teu rosto na minha almofada a esquecer os dias em que fui doutro. Gosto particularmente do teu rosto. Tens umas mãos grandes. Nelas abarcas a miséria de uma vida perdida e lançada aos monstros que engolem crianças inocentes e namorados apaixonados. Tens uma sombra que vive atrás do teu peito e se alimenta da rouquidão da tua voz. Ninguém sabe das tuas dores e das tuas loucuras. Nem mesmo eu. Gosto da tua solidão. Trazemos em nós os mistérios dos anos que passaram e apagaram a credulidade de sermos nós. Sem sermos mais nada. Trazemos em nós as palavras não ditas, noites não dormidas, os braços nus, e uma imensidão de enganos. Quero que venhas e me abraces e esqueças os espaços que construímos entre nós. Quero que venhas e me tomes e me tornes tua. Quero que me escondas dentro do teu peito nu, que me desenhes na tua pele, que me deixes sonhar. Gosto de ser eu dentro de ti. Assim, simples e cru. Complicadamente inevitável. Inevitavelmente em preto e branco.

(Deyne Caroline)

O escritório (Crônica do ato premeditado)



Haveria eu cometido um erro ou puro deleite? Foi esta, a dúvida que me deixara inquieto por um dia inteiro. Embora, dentro daquilo que denominamos consciência ou alto-ego (chame como queira) durara toda uma eternidade.
Fato é que aconteceu e agora relato. Há quem dirá erro grave; há os que ainda dirão coisa à toa (errinho besta, para a maioria) - estes são desprovidos de opinião. Existe aqueles acharem uma experiência excitante. Mas, há também os mais apregoados a princípios arcaicos, herdados e que certamente vão resmungar: coisa feia!
Crescemos ouvindo os mais velhos dizerem o que devemos fazer ou não. Na maioria das vezes nem sabemos o porquê. E isso influencia o caráter e nos persegue a vida inteira. Já imaginou se pudéssemos ter nossas próprias experiências e traçar nosso próprio caráter sem diretrizes pré-estabelecidas? Não sei se seria bom ou ruim. Seria diferente. E assim sou. Todos na família afirmavam: - “Esse garoto saiu ás avessas”. As experiências que tive me tornaram, digamos, não convencional. Sempre fui. E, agora mais ainda depois do que aconteceu. Só quero dizer de antemão antes de iniciar os fatos deste ocorrido, que sempre observei, espreitando de longe a tudo e a todos. Gosto de inovar, de agir diferente, com os meus métodos.
Estórias de mistérios sempre me fascinaram desde criança. Queria ser um investigador, detetive, advogado, juiz. Juiz... julgar a mim mesmo pelos meus atos. Pensando bem, foi o que fiz há instantes atrás. É o que farei daqui em diante.
Dirão que sou louco. Que estou certo ou errado. Que sou esquisito ou uma exceção entre muitos (quem sabe até igual a você – o que me conforta, porque não serei o único).
Engana-se quem pensa que não tirei conclusões. As minhas eu tenho. Há ainda os que dirão... Ah! Chega de especulação. Irei logo à descrição dos fatos. Julgue você.
Foi na manhã de ontem no escritório do advogado. Amigo do meu pai. Chegamos juntos, numa manhã agitada. Eu era apenas visita. Havia já uma mulher – devia ser cliente, porque falava com ar de quem aguarda uma solução para um problema. Ouvi também falarem do “andamento de um processo”, foi aí que constatei. E tudo isso porque a porta estava entreaberta. Era inevitável não notar.
À nossa chegada – a mulher e o advogado – encerraram o assunto e nos deram atenção.
- Entrem! Sintam-se a vontade. – disse o advogado olhando de revés, depois, voltando-se para a cliente.
Nenhum constrangimento. O assunto parecia estar no fim. Meu pai apresentou-me a mulher (o advogado eu já conhecia) com aquele jeito de pai coruja. Cumprimentei os dois. Trocaram ainda duas ou três palavras para acabar o assunto de vez. Nada que não pudéssemos ouvir. O meu pai trabalhava com o advogado e era casualmente normal que eu presenciasse tais situações
Então, interagimos os quatro. Escritório pequeno, modesto, mas aconchegante. Tagarelamos. Nem lembro o quê. Apenas lembro ter sido elogiado por ter conseguido bolsa de estudos na faculdade (e quem não gostaria de lembrar isso!).
- Parabéns! - disseram a mulher e advogado em uníssono. Ela mais entusiasmada que ele. Os olhos de meu pai brilhavam como se os elogios fossem para ele.
- Obrigado. – eu disse com aquele jeito um tanto envergonhado, mas feliz por dentro.
Ademais, tomamos café, comemos bolo. A televisão ligada ao fundo dava mais dinâmica ao local, ninguém prestava atenção no que transmitia no momento. O papo ficou chato. Debandou para assuntos que não me interessavam. E lentamente eu ia me distraindo. Olhava os volumes de livros jurídicos bem dispostos na estante. Os quadros, as fotografias de família, a cor neutra e bem suave das paredes.
Havia um retrato que me tomou alguns segundos a mais de atenção. Era de um rapaz, jovem, sorridente. O filho falecido do advogado.
Voltei então, a olhar para a parede, fixei-me, a mente vazia, distante. Fiquei assim por tempo até ouvir algo. Ouvia uns rumores aos trechos, e entendi que a conversa continuava enfadonha. Localizei-me. Ainda estava no escritório.
De repente tive um pensamento estranho, um lapso apenas. Desprezo. Senti-me excluído. Mesmo que voluntariamente deixaste perder-me na distração, senti ausência de afabilidade. Nenhuma insistência ou chamado ou toque para que voltasse ao plano real e deixasse o das idéias.
De todos, o que mais demonstrou esse indiferentismo quanto a mim foi o advogado. Não o culpo, parecia estar atarefado. Falava agora de umas pendências que meu pai teria de resolver. Este ao menos vez ou outra ainda direcionava-me uns gestos. A mulher sorria-me agraciada, disfarçada.
Idéias! Falei de idéias e foi então num vislumbre que voltei a este plano. Lembrei-me de outra visita semanas atrás. Essa lembrança me fez subir a espinha um calafrio. Uma sensação de ansiedade tomava conta de mim. Meu estômago franzia num movimento de contração adentro e encontrava-me em contradição justamente no dia “D”.
Na salinha ao lado, na entrada que dá para o escritório tinha uma estante com os mais variados volumes de livros. Desde literatura clássica ate best-sellers, todos velhos, mas um tanto conservados. Logo abaixo duas caixas recheadas de mais livros, aparentemente os menos seletos, porque ainda estavam encaixotados, e também não havia mais espaço na estante.
Pois bem, esta salinha continha um tesouro que a modernidade entorpecida faz questão de ignorar. Mas não um tesouro qualquer. O mais valioso deles: conhecimento. Um Carolíngio, um bibliotecário e até um colecionador acharia o mesmo. Mas o que era esse presente do acaso? O que significava a minha presença naquele lugar, mera coincidência, ou não? Verdade é que eu queria aquele tesouro e isso não me saía da cabeça.
Era chegado o dia “D”.
Premeditei tudo. Não haveria o que temer. Era o meu desejo e ali estava eu, intencionalmente, como visita (não mais casualmente!). E então aquela sensação estranha e o aperto no estômago continuavam. Eu estava aflito.
Por que as pessoas têm o hábito de não se acharem capaz de cometer um pecado? O contrário do acerto é o erro. São duas variáveis. Ou é um ou outro. E nem sempre cometer um erro significa errar, e vice-versa. Vai da concepção de cada um, de quem julga... de quem faz.
Dias antes havia me certificado de que não estaria cometendo nenhum mal. Existem causas que requerem medidas extremas. Causas maiores em que os métodos se justificam quando em prol de um bem maior: Conhecimento! Não que seja adepto do clichê em questão, mas em certos casos a exceção é incontestavelmente aceita. E neste, em particular, isso se aplicava.
Minha biblioteca particular abrange humildemente cerca de duas vintenas de livros – todos conseguidos á custo e cada qual com uma estória diferente - mas, ainda assim variada e rica, com os maiores autores clássicos, da qual tanto me orgulho. Falta-lhe ainda alguns volumes, mas nem por isso tenho o desejo mórbido de um colecionador. Contento-me com os que são do meu agrado e neles busco o meu conforto e conhecimento. – “Idiotice daqueles que lêem qualquer coisa e se atropelam no saber”!
A coleção do advogado contém um grande acervo de livros e dentre eles havia um em particular que me despertava interesse. Ambicionei-o como nunca desejara algo em toda minha vida.
Era um livro de capa dura e vermelha com bordas douradas, revestido em couro - tipicamente uma relíquia que já não fabricam mais: “O Vermelho e o Negro” do autor Stendhal em versão completa. – “Porque há de se convir que, as edições de hoje (cuspidas e filhas de uma produção capitalista), são um insulto tanto aos autores como ao pequeno grupo que ler”.
Encantei-me simplesmente e caí em profunda reflexão. - “O que era a falta de um em meio á centenas deles? Que falta faria se a possibilidade dele ser lido novamente (se é que o foi) era tão remota”? Inda mais, estava ali apenas por estar, o que pressupõe afirmar que até a ostentação nesse caso seria menos indigno, se o estivesse bem exposto, conservado e distribuído com outros de honroso respaldo. – Não assim, como que uma peça que apenas preenche um espaço!
O que o torna especial, e que no fim vem a ser minha maior premissa, era a condição e o tamanho descaso em que se encontrava, como uma criança abandonada e deixada a mercê do tempo e da indiferença, necessitando apenas de um tanto de cuidado.
Certo é que, de uma reflexão cresceu em mim como um germe venenoso no solo fértil da idiossincrasia a mais nobre e tortuosa contradição.
Pois bem é chegada a hora. Planejara tudo. Mas ainda assim estava atônito. O coração a saltar fora. As mãos trêmulas. O olhar distante, resignado. Todos os valores escrupulosamente considerados. Uma inquietude que pede clemência. Uma idéia. Um ponto de vista. Pulsando. Existindo. Num segundo. Num impulso.
Essa inesperada e coincidente eventualidade proporcionou um prazer sem igual e um aprendizado que guardo a sete chaves na minha caixinha de Pandora.
Por ora, aqui me despeço leitor impaciente, aqui estou, na salinha ao lado frente à estante... o mesmo pesar, a mesma sensação, avulso, inerte, intenso, olhando, e então?
Julgue. Pondere. Repense. Viva. Sinta... Faça.

(Kleber Júnior)