quinta-feira, 30 de junho de 2011

POESIA CONCRETA

Respostas do tempo


Ela olhou pro céu e pediu que ele respondesse sobre sua vida
Mas ninguém sabe
Nem mesmo o céu que geralmente tem todas as respostas
Ninguém além dela mesma poderia entender e escolher o que era melhor para sua vida
E a menina se calou
Sentou, ouviu a música que habita seu refúgio e esperou chegar a calmaria
Pelo menos sozinha ela já estava bem

(Isadora Carvalho)

Transcender o meu corpo



e ceder ao teu desejo
Eu tenho sede é de você
E rasgar a seda do teu vestido
e fazer sentido
Eu tô querendo é beber na tua boca
Eu tô querendo entender a
tua forma de esfinge
Decifra-me ou te devoro
Devoro.

(Dine)

Correntes




Estou em busca da liberdade
Presos por essas correntes
que nada me deixam fazer
seguir meu caminho eu quero
mas o peso sobre meu peito é grande
não deixa eu me erguer e ir em frente
tento quebrar essas correntes, me livrar desse peso
toda resistência é inútil!
A força tem que ser grande
pode não ser o suficiente pra me livrar
mas pra seguir em frente, mesmo que aos pouco
usarei todas as minhas energias
e puxarei o peso e as correntes
de um coração, preso a uma pessoa


(Cleisson Vieira)

Costas largas



Ando escrevendo pouco, lendo muito e pensando demais.
Ando com medo de tudo, vergonha do que falo e receio do que quero.
Ando deslizando em cimento, sentando no molhado e deitando no sofá.

Ando pra frente, mas quase parando. 
Quero andar.
Continuar andando, um dia eu pego o passo, eu acerto o compasso, 
Eu faço, eu faço.

Ando que nem tartaruga, querendo ir pro mar.
Ando que nem passarinho, a ciscar.
Ando até como caranguejo, que mesmo pra trás consegue chegar. 
Pra trás não, pro lado, que é onde pode enxergar.

Ando pra frente, mas quase parando. 
Quero andar.
Continuar andando, um dia eu pego o passo, eu acerto o compasso
Eu faço, eu faço.

Ando a um centímetro do chão.
Ando pisando no pão, que o diabo não amassou, mas fez menção.
Ando de pés descalços, no calço quente de 40 graus.
Ando até para cima, sem olhar pros pés, com o rosto na mão.
E a outra mão procurando Tatyar as coisas que sinto.
E a mão sem saber andar.
E a mão calejando nos passos.
Querendo acertar o compasso, 
que um dia pega o passo, 
me dizendo: eu faço, eu faço.

Ando pra frente, mas quase parando. 
Quero andar.
Continuar andando, um dia eu pego o passo, eu acerto o compasso
Eu faço, eu faço


(Taty Guimarães)

Como Uma Flor



Como uma flor que nasce nas intempéries do sertão
Esta nasce das intempéries da vida
Desabrocha sem pedir licença
Contamina o ambiente com sua cor e fragrância
Fura quem atravessa seu caminho com seus espinhos
Quando está com fome
Come sem pedir
Mas ainda assim, é uma flor.

(Victor Augusto)


quarta-feira, 29 de junho de 2011

como se diz?





Ando te xingando pelos cantos...


mas é só a saudade,
que não sabe se dizer de outra forma.

(Fernanda Costa)

Renovação no nascer do sol


balançando numa rede
amiudando o pensamento
vejo o trabalho do vento
balançando a copa das carnaubas
beleza em formas absurdas
por do sol, arte alaranjada
em seguida uma noite deseperada
pra quem reencontra a solidão
escondida por tras de um portão
fingindo alegria abraçando o nada

a flor do mandacaru nasceu
com sua beleza entre espinhos
para vida ha vários caminhos
entre eles sua beleza floreceu
assim observo quem viveu
dos amores, grandes decepções
venenosos os grandes esporões
sequelando uma grande ferida
desilusão com os amores da vida
fugindo das próprias emoções
Renovações com o nascer do sol


todos os dias com beleza o sol nasce
as flores começam a desabrochar
diversos passaros começam a cantar
em um retalho de beleza cobre o dia
so consegue viver essa alegria
quem pelo menos uma janela abrir
permitindo o vento de leve ali passar
o sol nasce todos os dias pra te iluminar
basta só você se permitir

a natureza rege a vida
o sol nasce todo dia
passaros cantam com alegria
as águas continuam a correr
as núvens no céu a se mover
as flores com beleza a brotar
formigas continuam a trabalhar
mesmo avendo a devastação
assim vive o meu coração
que continua batendo a sonhar

Pensamento à légua de distancia
no retorno volto a enchergar
continuo rasteiramente trabalhar
em tudo cato aprendizagem
em fragmentos se espalha uma imagem
do que achei, porém nao tenho
sigo em frente, pois de onde venho
não permite-me muito esperar
renovo-me quando o dia clarear
pois o meu cavalo alado
nao sabe ficar parado
mesmo sozinho, tenho que voar!


(Marcos Foyce)

Pra você




Eu faço uma poesia,
Uma poesia a uma pessoa.

Gosto muito dela,
O seu jeito cativante,
Sorriso belo entre seus lábios.
Tenho um grande sentimento por ela,
O maior de todos já sentido.

De tudo que sinto por você
Amor e amizade são os maiores

Conheci você do acaso
Imaginar nunca eu iria
De que um dia
Amaria você do jeito que amo hoje

Do jeito que escrevo
Eu talvez seja confuso
Mas quero mostrar
Algo que alguns verão
Imaginar será necessário
Se queres saber quem amo


Cleisson Vieira

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ame





Vasta imensidão do vazio da alma
que enche até a tampa minha boca
se vê logo de cara, o escuro alumiar
das vontades e desejos do corpo inerte


Ei, até quando ilusões amorosas?
Ora comparsa, prepara-te para a vida
o ser humano só coexiste com o caos
não é plena sua passagem, ações ou sentimentos
verdadeiros são sim, todos os momentos
mas ideais são as roldanas que movimentam
o nosso barquinho perdido no mar, em busca de um cais
encontrado somente na tez da menina


Sim, mas e daí? eu ainda acredito
Então volta e vive na plenitude
enquanto ela dure, dura não será a vida
e não condene o por vir, pelas surpresas imperfeitas
será desfeita pelo o que você viveu, gozou e cresceu
com o bom e o ruim, deixa assim esse egoísmo
e compreende o outro lado, e imponha-se com leveza e altivez
pois a cada vez que cair, há de surgir, uma outra jornada
amada, levada, doce loucura, o que tu procura, canto de sossego
e vejo com toda força, quem sente a forca, tem como sair
e voar, viver, sentir, em busca do acaso, onde o amor te espreita, mira-te
e atira-te bem no meio do receio e da complicação!
Ame.




(André Café, contribuição ideológica Porra Daniel e Tom Zé)



Ironia




Partindo do princípio de que a ironia é tão delicada quanto o toque sutil de um ferro quente tocando sua pele e deixando a queimar só pelo fato de gostar de lhe ver sentir dor. Essa arma literária chamada ironia é minha forma elegante de ser mal.

Ironia é o sarcasmo, é ferir, é sentir o gosto do sangue escorrendo de sua boca, ironia é o cinismo, é o desapego, é a arte de gozar da raiva do seu próximo, ironia é apenas ironia.

(Porra Daniel)


Mmm Mmm Mmm Mmm - Crash Test Dummies (Leg. PT/BR)

Namastê





Enquanto busco a luz intensa
Meu corpo se esvazia pelo caminho
Não é mais absorver
É deixar fluir a energia
É abrir as portas do medo, da indiferença, do preconceito, da dor
É deixar jorrar a felicidade, a confiança, o amor

Enquanto busco a luz intensa
Ela brota de dentro de mim
sem rumo, sem sentido, sem tamanho
só luz, só intensidade, só uma energia que não sei como
Não sei quando
Não sei onde
Não sei
Só sei que me esvazia o peito
E me transforma em simplesmente, nada.

E por não ser nada é que me intensifico a buscar
Buscar algo pra me preencher
Quem saiba até pra me encher
Que eu espero que seja de muita luz.

Pai, hoje eu te peço, assim
prostrada
Mais uma chance de te ter em meu coração
Em minha alma
Cuidando do meu caminho
Estreito caminho de Luz...

(Taty Guimarães)

Carnaúba





(Mário Lacorrosivo)

Dois lados e uma vontade



Seria tão bom se pudesse transformar em um quebra cabeças
Se pudesse juntar as peças
Se pudesse escolher a melhor parte dos dois lados
E fazer dançar junto nesse mesmo compasso

(Isadora Carvalho)

''Xô!, vida morna.



Eu tenho milhões de vida, eu devo fazer milhões de coisas...O tempo corre como todo o mundo diz. O tempo corre e eu ando vagarosamente.
A lua hoje me disse que era para eu viver.
Eu fiquei chateada com ela. Afinal, eu estou vivendo!
A lua olhou para mim querendo que eu revitalizasse.
Eu gemi de dor. Doeu um mundo em mim.
O dia foi cru.
A noite é ótima.
A noite quer que eu faça os meus deveres.
Deveres bons. Os bons deveres.
Eu regresso no passado, eu durmo acordada.
E eu fico inconsciente. Eu não sinto minhas pernas.
Hoje falei com o meu corpo.
Eu disse: você está aqui, perna.
Você está aqui, mão!
Você está aqui, véu palatino!
Falei comigo, senti meus dedos...Mas a mente procura mentir. A mente procura me afastar da verdade. Eu quero ser consciente. Consciente como antes.
Eu só consigo quando eu quero.
Eu quero.
Eu não consigo.
Eu consigo, mas não quero. Ou quero?
Que 'Eu é esse que quer tanto?
Um 'eu que não existe.
Um 'eu que atravessa meu corpo e fica aí parado, esperando...aguardando. Esperando eu resolver o que eu quero. Que 'eu é esse, meu Deus?
Um 'eu puro, que remexe aqui dentro.
Tranparente e tão translúcido.
Diga-me alguma coisa.
Eu quero tanto a paz!
Eu quero tanto o êxtase.
Aquele êxtase que a gente só tem quando não espera.
Que a gente só tem quando lembra do corpo, mas sem a mente.
E que a gente se sente...
Se sente...
E a gente vive!

(Tassi)

Eu não sei exatamente sobre o que é esse texto.



Estava eu aqui vendo as atualizações do orkut e chegando a algumas divagações...até as pessoas mais livres, mais difíceis, mais duronas, se amolecem um dia. Um amigo meu, que tanto falava de amor livre, de liberdade, de não se prender e tudo mais parece ser o mais novo presidiário do amor. Eu acho isso muito interessante...a gente não pode prever as coisas, pelo menos não essas coisas de amor. Tô falando de amor, amor de verdade e não de caras pra se pegar no final da festa depois que todas as suas amigas estão pegando alguém. 

Eu mesma, tenho essa frescura séria de não pegar caras magros e pequenos, mas é capaz do destino aprontar uma comigo e fazer eu me apaixonar exatamente por um cara branco, baixo, magro e fã de evanescence. (peguei pesado, evanescence nem fodendo eu pegaria.)

De qualquer forma, isso seria na mais otimista das hipóteses, por que na hipótese mais realista, a qual é também compartilhada pelo meu ilustríssimo pai, eu não vou me casar. Vou morar com meus pais e com meu filho o resto da vida, o que não seria de todo ruim, por que eu poderia gastar o dinheiro do aluguel ou da prestação da casa com bolsas, sapatos e doritos.

Falando nisso, ontem saiu o resultado de um concurso que eu fiz pra Assistente Social do Tribunal de Justiça do Piauí, foram 47 classificados, fiquei em 15º, isso, junto com o "não sei de nada" do Lula, o cabelo da Dilma e a gordura do Ronaldo, são coisas que não dá mesmo pra se justificar. Logo por que, dentre as pessoas que ficaram bem abaixo de mim estão professoras da universidade, assistentes sociais recem formadas inteligentissimas e o cara mais inteligente da minha sala. Prova de que, pra fazer concurso não basta ser inteligente, tem que ter perspicácia. (isso e a sorte de sua professora no dia anterior ter dado uma aula que te fez responder no mínimo cinco questões.) Minha mãe ficou feliz, mais que eu, então já cumpriu o seu papel. Mas se me chamarem pra ganhar cinco contos prometo com meu primeiro salário comprar o maior pacote de doritos e dividir com meus irmãos famintos e carentes.

Eu tava falando de que mesmo? ah! do fulano revolucionário do amor que se bandeou pro lado dos encarcerados da paixão (parece nome de banda de forró). Pois é, fico falando essas baboseiras todas, mas o fato é que eu queria encontrar uma delegada (ou delegado) que conseguisse ter poder suficiente pra me prender também.

(Fernanda Costa)

Aula de Português.



Hoje aprendi um verbo novo:
-Vilipendiar-se.
Difícil e feio até no significado

(Laelia Carvalhedo)

Oca



 Observo inerte
 Cegas vibrações
 A nada me atenho...


(Suzianne Santos)

Vagar





(Mário Lacorrosivo)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Frio coração


Uma inquietação surge no instante das lembranças correndo na frente dos olhos. O mesmo momento em que o medo pairava sobre minhas mãos segurando minha insatisfação.
Não quero cobranças e nem joelhos feridos pedindo perdão. Eu não quero doar-me tanto e adotar meu coração. Ele está quieto, seguro e preguiçoso. Queria ter a eternidade como resposta para minha doce solidão. Sem preocupações e invasões, mas o destino impreciso deu-me uma vela derretendo. Já é tempo de mudar a rota do pescoço. Qualquer falha rompe com a estrutura iniciada. Agora é tarde e eu tenho pouca chance de fazer a velocidade do tempo não me levar para um descontentamento. O tempo está em conta gotas que vai e vem...
Há uma cobrança que inebria os pensamentos vagos, destacando a imensidão do perigo que eu tinha aceitado: Experimentar e decidir sobre o incrível. Sobre o destino do tempo que sangra dentro de mim. Pena que não existem rédeas que estanque a vontade de distanciar-se do escuro e dos sons que amedrontam a calmaria dos olhos. Há uma saída, uma covardia que dissipa a veracidade da lógica escondida sob o lençol. Escondo sob a asa da noite o desespero do dia e a ansiedade do incerto: O depois.
Juro como eu queria estar presa em um sonho. Desses que não dá para gritar e nem para correr. Tem que sentir devagarzinho todas as veias e todas as dores. Sentir o arrepio, o foco do olhar e o desespero de rasgar o horizonte e sentar em cima de um penhasco, olhando para baixo e decidindo entre ficar ou sair. Ficar na confusão que as lembranças trazem-me ou sair do impasse nostálgico e improdutivo que a impaciência e a auto-proteção detestam.
Andando em um relógio parado. Era mais um tempo inesgotável que serviria como remédio para minha dor. Ah, como dói mutilar o peito para deixar um espaço vazio que serviria de abrigo para meu próprio peito. Egoísmo? Não! Proteção necessária, mas involuntária. Eu já não queria mais falar desse coração virado. Já esqueci como inicia a conversa ao quadrado. O ciúme exacerbado do meu próprio coração
O tempo volta a funcionar e o desespero da consciência apavora-me com os segundos esquecidos, mas que serão minuciosamente relembrados na vagidão do horizonte. É o nosso tempo. O tempo meu e do que é meu. Estou decidindo sobre esse músculo que só pulsa. Sem danos, sem pecados e sem culpa. Na verdade sem interesse.
Depois que abri os olhos, escolhi entre mais, que apenas não quero a frouxidão de um abraço e nem a distância de um beijo. O resto é repetição! Essas são minhas considerações finais.

(Rosseane Ribeiro)

Confuso





Eu te vi assim de mansinho
chegando como qualquer pessoa
e foi assim devagarinho
carregado de carinho
que a vida ficou boa


No começo só um olá
mais com pouco um tudo bem
e passamos a perguntar
todo o dia o quê que há
de fulano fui pra alguém


Nossa história que beleza
se fez linda amizade
de verdade com certeza
com força e leveza
a pura simplicidade


Te ouvia atentamente
e ligava toda hora
pra sempre te ver sorridente
o que me deixava contente
ter pessoa que me adora


e assim ficando juntinhos
meu coração aqueceu
que depois de descaminhos
por tempos e tempos sozinho
no amor negro se perdeu


mas te via a suspirar
por quem nem te conhecia
que a vida foi desprezar
e apenas com o olhar
te causava uma dor que ardia


mas contrário você que pensa
que isso a deixava em pranto
pra ela era recompensa
sentir desprezo e dispensa
como se fosse encanto


queria ela acreditar
que isso era apenas parte
pois pode ele se esforçar
e logo se deslumbrar
com aquilo que era descarte


eu que ao seu lado estava
sabia que lá bem no fundo
sozinha ela chorava
e nunca ela encontrava
verdade, amor profundo


e eu sôfrego e irritado
olha eu aqui te imploro
pra que deixe logo de lado
amor por rapaz tão mimado
por que por você eu choro


E eis que um dia coragem
levanto-me de sopetão
te encontro e nem peço passagem
declamo o amor em mensagem
exponho o meu coração


E olho bem eu seu olhar
erguida a mão pra você
e segue o desenrolar
você desfaz o sonhar
e pede pra esquecer


Me diz que confundi tudo
que só temos uma amizade
o meu semblante mudo
o que fiz? foi absurdo
momento de insanidade


perdão eu te peço chorando
você diz tudo bem acontece
e os dias seguem andando
e sigo ainda amando
então ela desaparece


vem tempo e assim se faz
que de tanto tentar conseguiu
namorar com aquele rapaz
mas carinho não tem mais
só amor louco e servil


te reencontro como um sonho
abraço apertado e forte
e me diz em tom medonho
que sua dor não há tamanho
no amor nunca tem sorte


e me diz ainda em choro
que confuso é o amor
que a vida canta em coro
que escolhe ao namoro
alguém que lhe traz dor


e quem feliz te quis
o que foi você fazer
lhe deixara infeliz
e a vida contradiz
o lado do sofrer


eu perdido também em pranto
mais uma vez me dispusera
procurava o encanto
mas ali só o recanto
vislumbre se fez quimera


se pudesse ela voltar
pra naquele dia certeiro
ela ía arrebatar
de uma vez com um olhar
meu coração mandingueiro


mas falei que infelizmente
não estar mais ao alcance
porque eu era contente
de amor e bem presente
no passado jaz a chance


ela ri descompassada
"perdão pelo abuso"
e diz ali deitada
volta e meia com a risada
que não era eu confuso


(André Café)







Praças dos Povos e das Poesias



Lembro-me de uma aula que assisti no meu primeiro semestre de universidade. A disciplina era Antropologia Cultural, do curso de História. "Pagava" aquela matéria como complementar ao curso de Direito. Por conta disso, muitos conceitos e discussões eram confusos e estranhos a mim, nem sempre conseguia entender os debates como um todo. Um desses conceitos era a idéia de não-lugar. Lembro-me que um exemplo dado de não-lugar era a praça na atualidade. As praças, hoje já construídas sem bancos, sem lugares de sociabilidade, seriam um não-lugar por já não haver relação com as pessoas, as pessoas passariam indiferentes. Não sei se a ideia é bem essa, mas foi assim que ficou na minha cabeça.

Essa idéia da praça como não-lugar me voltou à tona nos últimos tempos. Felizmente, só me veio à tona com as manifestações nos países árabes e nos países europeus. As ruas sendo tomadas pelo povo, reivindicando novos governos, novas políticas, novos jeitos de viver contrapondo-se à velha política elitista, ao velho sistema capitalista, à velha forma deturpada e falsa de democracia. Sendo as ruas esse canal de manifestação, a praça (re)aparece como o lugar, por excelência, de encontro dos povos, de discussão, de decisão, de luta por direitos.



Mas essa retomada da praça como símbolo de luta por democracia não se restringiu ao Velho Mundo. Não precisamos ir longe: as movimentações do #SosUESPI, mais do que a internet, procuraram as ruas e as praças. Praça da Liberdade(!), Praça Pedro II, foram alguns dos locais em que estudantes, professores e técnicos comprometidos com a educação, se encontraram para unir forças em suas lutas. Pelo Brasil afora, as Marchas da Liberdade, da Maconha e das Vadias, os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, em um momento ou outro, se encontravam nas praças, físicas e virtuais. Exigindo, discutindo e construindo Direitos. Nada mais poético do que isso. Direito ao teto, ao pão, à liberdade e, também à poesia.



Já diriam os titãs, a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. E saída pra qualquer parte, bebida, balé, a vida, como a vida quer. E se estamos sendo privados de comer, de beber, de nos manifestarmos, o que diremos do direito à arte, cultura? Não que os governos sejam os produtores, por excelência, de cultura. Pelo contrário, quem faz cultura é o povo, de diversos jeitos e diversas formas. Ocorre que os governos e as imposições individualistas, mercantilistas e competitivas restringem e cortam, cotidianamente, nossas possibilidades e nossos estímulos para produção cultural.



Entretanto, felizmente, sempre há braços! E dessa forma, ainda que com todo o descaso do poder público com a cultura, pessoas, grupos, fazem arte - da forma mais artesanal possível. Da forma mais sofisticada, sem forma alguma, ou de todas as formas – independentemente, autonomamente, produzindo e dando o exemplo e o convite. E mais uma vez não precisamos ir muito longe. Basta nos lembrarmos, novamente, da Praça Pedro II, aqui, em Teresina. Não sei bem porque aquele professor usou a praça como exemplo de não-lugar, mas certamente se ele tivesse aparecido por aquela praça, sexta-feira, dia 17 de junho, ele não mais usaria esse exemplo.


A Sociedade dos Poetas por Vir, grupo sem estatutos, sem leis, sem restrições, aberto, realizou o I Sarau dos Poetas Porvir naquela praça. Sem intencionar lucro, auto-promoção, ou qualquer outro motivo que não fosse a socialização e a produção coletiva de cultura, o Sarau foi divulgado apenas de boca-a-boca (e tecla-a-tecla, principalmente) e foi interessantíssimo.


Mesclando música e poesia, as pessoas, voluntariamente, levavam, liam e declamavam seus escritos, ou de outros . Alguns até faziam poesia ali, na hora. Parabéns a todos que construíram esse espaço. A cultura se faz assim, sem precisar esperar por governo, patrocínio, ou ingressos vendidos. Importante, claro, que todos sejam valorizados, financeiramente, mas quando o financiamento vira objetivo principal, não se faz mais cultura e sim, mercadorias.


Por fim, essa postagem é pra reconhecer e registrar a esperança de que muitos saraus estejam por vir. E que todas as praças sejam locais de encontro, pra lutarmos não só pelo pão, mas pela poesia - já dizia aquele revolucionário.


E pra terminar, uma poesia de Castro Alves, poeta que lutou pela liberdade (nada mais significativo), cujo nome também batizou uma praça em Salvador, Bahia – praça essa, palco de várias manifestações.


O POVO AO PODER
“A praça! A praça é do povo
Como o céu do condor
É o antro a liberdade
Cria águias em seu calor
Senhor! pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...”
Castro Alves