quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Meu fuá


Já teve feira cantada, já quis versar a feira,
mas sentir sua levada, até de madrugada,
é a melhor maneira

Na cidade que respiro, viajo sem sair do chão,
é tamanha saudade, que sacode e invade,
os átrios do coração

Mas por que falar dela, tão famosa no mundo,
de Gonzaga a Sapucaia, nem me atrevo a ser da laia
de poetas tão profundos

Mas só o que sinto e quero dizer contente,
estando longe ou perto, errado ou certo
tu não sai da minha mente

Dos fim de festas,chegando junto com o raiar
pra um caldinho, café com bolinho,
ou panelada pra devorar

Ver as barracas e quitandas surgindo bem cedo
carne pra comer, maria isabel por fazer
fazem parte do enredo

Ou acompanhar a vó pelas bancas coloridas,
ver e ouvir o povo, do mais ao velho ao novo,
lutadoras e lutadores da vida

E minha velhinha que passa com alegria,
entre alho, carneiro e alface; feijão sempre verde e tomate
faz do mercado uma terapia

Vou, pra seguir aprendendo com seu arejado,
a papear e rever, pra comprar e viver,
as maravilhas de um mercado

André Café
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Olho nu


Pelo tortuoso passo, tracejo malfeito
entre anos de suor e exploração,
cada pegada doída, ardendo até o peito,
queimando temprano plano e solução

Catadores, engraxates, errantes,
professores da vida e do mundo,
praças de casa, abrigos sufocantes
calejados num baque profundo

Cada pedaço de história, memória perdida,
madrugada de medo, amanheço o dia?
na vitrine a promoção; pelo chão, a cegueira

O 'invisível' sistema, ceifador "cauto" de vidas,
pela dor, fome, traumas,entre as noites frias
celebra a evolução, em eiras e beiras

André Café



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Embora


Já se foram mais de trinta eternidades,
para alguns, segundos e estalos,
mas nem o tempo de um pensamento
é menor que o meu despedaço

Homem do futuro passado,
na década perdida, esquecido
preso nos erros e estigmas,
daquilo que não deveria ter sido

Tão só na imensa solidão,
e mesmo entre tantas possibilidades,
pra todo caminho que se segue
só ganha força o da saudade

Meu despedaçado passo inseguro
um muro para mim, de dentro pra fora
há um mundo em fantasia no devir
onde nunca irei, de onde sempre fui embora

André Café

Por todo coração


Os versos que não me lembro,
a frase de uma refrão perdido
seria alento, seriam o alivio
para dizer melhor o que eu não digo

Em tantas palavras por minuto
eu não pude ser entendido
o meu verso calou-se
por um indeterminado sentido

Canta, que a poesia é explosiva
de pouco em pouco, afeta a todos
dando cor, em cada esquina da vida
minando toda barreira de sufoco

Ela que versa, me traduza
forma a cantiga que é salvação,
pela melodia, vai e lambuza
dos átrios aos ventrículos do teu coração

André Café

"Platonia"


Para que minha voz grite baixinho
eu queria apenas um caminho
mais leve ao seu coração

E leve-me de vez, sem limites e sem tempo,
tal fim de revoada da passarada
que encontra abrigo num lugar comum, mas único

Eu queria apenas encontrar uma canção
que por mim explodisse, em cada nota, em cada verso
o que, perdido em debilidades, não falo

Para que até meu sussurro seja cantado
no rumo de te fazer sorriso
e sem dizer, eu te digo
tudo do meu amor calado

André Café

Barulho




Faço do meu corpo, da minha vida e do meu tempo, cacos;
fragmentos feitos, untados sobre a fragilidade do meu sou

As vozes normativas, ao fadado e imputável estereótipo,
da fraqueza, do não saber lidar, do não saber viver

É no suspiro em riso, que a obviedade me abarcar,
pós concebimento "éter"de dizer o que já sei, prum mundo que não sabe

Deslizam sobre a tez não somente lamúrias de um momento,
mas sobre a certeza de um tempo, que tem como combustível o sufoco

E do corpo quebradiço feito no inconsciente, pede-se o contínuo perambulo
sem tato para o mergulho, no entulho dos bem sucedidos,
no resíduo do bem não nascido,
no estilhaço do ódio guardado

André Café