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quinta-feira, 19 de julho de 2012

JÁ FUI MARIA, AGORA SOU MADALENA




 

Ainda as lágrimas desembestam ante o destino dos rebentos. Ainda os pés calejados, sobe morro, desce morro. Ainda um césar subtrai minha solidez. Ainda uma roma me queima a pele com sua cobiça. Ainda um jesus petulante, também um mateus, um tiago, um joão. Ainda a estranha resignação de manter-me viva, e ardendo.
meus joelhos já se curvaram em vãs orações
hoje me curvo à libido de quantos josés umedecem meus insanto cálice
no ventre pálido, não apenas os frutos das entranhas
também as marcas das noites bem acordadas
ecos dos gritos abafados
as ancas não mais apenas carregam os melequentos meninos
também dançam conforme as notas da volúpia
acavalam-se em tantas coxas quantas forem os fios do desejo
noites a fio, velei os pesadelos de quem cuspia minha esteira ao raiar do dia
agora, põe-se o sol
um gole vem à boca
uma meia-arrastão
lábios carmim
agonizo os desejos mais vadios
As mãos que atemorizada beijava
levo a peregrinar as sagazes curvas da paixão
uma boca
dois mamilos
dois lábios
duas línguas
dois orifícios
Antes, somente ele
hoje, encontro de fluidos
tremores
arquejos
 
Já fui Maria, agora sou Madalena
Agora, a reincidente ferocidade de ser minha, e ser tantas.

terça-feira, 17 de julho de 2012

DO POÇO ESCURO DE NÓS DOIS

 


Dói e escurece as olheiras
Encucada que amor e ter andam juntos, tão antônimos são
Querendo-te meu. Sendo – eu - somente minha
Vazam-me as exigências
sobra o punho fechado e os olhos  úmidos
o olhar absorto e as pernas fechadas.

Clamando que (alg)um ame bem mais e melhor que você
Bem sabendo: hálito nenhum aquece tanto estes ouvidos
e falo nenhum tão bem alimenta estas papilas.

Fera acuada
Vendo-te outras cinturas rodar,
outros líquidos verter
n’outros pelos respirar.

Na esperança, apenas, que de pernas bambas volte
coma ainda o doce predileto
os mesmos arranhões receba
mame o mesmo leite cortado
no mesmo prato sujo, cuspa.

(Gisele Morais)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Entra(nha)

 


 Janelas abertas, das milhões de janelas que a solidão habita
Dais para os areais do mundo onde os cegos jamais estiveram
Voz firme assanha o peito quente
Alva a pele, não carece do tutano das Marias
És, sem querer, a Deusa Coroada
A própria Vênus em termos de luta
Na luta, a arma mais nobre, teu arco-íris em meu olho

Há que se tirar todas as coisas do lugar
Há que se cravar rosas onde pedem asfalto
Adubar a dúvida, inquirir quando se consente
Serás sempre a que não se enquadra

Há que se acolher, ainda que de espanto
Fazer semente, vê-la brotar
Uma fera por dia, fibra por fibra do coração de nossas entranhas
Não haverá futuramente, quem sabe, apenas ciscos de tantos vendavais arenosos?

  Que ensinas a mim, a mim que me conhecem pelo que visto ser?
A dor que se faz presente, da dor de ser autêntica
Que existe crise onde a humanidade é mais apurada
Dar, dar até sangrar
Ser, ser até que seja, em si, Plena.

Gisele Morais,
Para
Fernanda Costa.