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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Brisa

Robert Frank - A garota ruiva sente a brisa no outono


A moça passava
Como quem passeia no pomar
Em busca de frutos
Com um olhar de brilho reticente
Daqueles que refletem estrelas apagadas
Mas que cismam em aparentar-se vivas
Sim, ela andava...
Parecendo correr por entre buzinas apressadas
Quando na verdade, arrastava sonhos
Com o peso da juventude em si.
Linda, ostentava o piscar de cílios longos
Postiços. Falsos.
Reflexo do cenário cotidiano
Que peça a peça monta-se real.
A moça passava...
E com ela, sonhos, cílios, olhos.
Passado transitando em presente
E travestindo-se em futuro
Que corre lentamente sem chegar.

Tuyná Fontenele

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Palavras comuns




Juventude. Insatisfações. Vontades. Anseios...

Em meio a multidão cotidiana, com preocupações individualistas, surgem vozes que proferem palavras inquietantes.

Que “desafinam o coro dos contentes”. Que possuem preocupações COMUNS, que se unem em torno de causas COMUNS, que agem em prol de um coletivo.

São jovens cheios de sonhos. Utópicos? Talvez, até que sim.

Estudantes que sonham com o impossível e travam brigas para que o possível se faça realidade.

Brigentos, diplomáticos, birrentos, apaziguadores, falantes, calados, idealistas...

Pessoas diferentes, que brigam, que riem, que choram, que comemoram, que caem, que são perseguidas, que vencem juntas!

E que perdem também , mas que levantam, repensam as estratégias e pautas e voltam a luta. Foi só uma batalha perdida.

Apenas um acontecimento pontual, que torna-se motivador para o alcance de grandes vitórias ao longo dessa guerra sem final, renovável.

Assim, como o movimento estudantil, que perpassa diferentes épocas, contextos, conceitos.

Correr riscos. Permitir-se. Viver. Conviver.

Estudantes que enxergam na união um modo de experimentar sensações, de sentir o amargo sabor dos dissabores que adoçam a vida, e de gritar aos quatro cantos (às vezes bem alto, às vezes em silêncio) que basta de desigualdades, de falcatruas e que agora ( como toda hora!) é hora de buscar a diferença, de entender que “um outro mundo se faz possível”.

São sonhadores. Revolucionários anônimos, com idéias conhecidas. Alguns nem tão desconhecidos, mártires dos “anos de chumbo”.

Velhos anos, novos tempos. E o chumbo, ainda permanece? Talvez não tão às claras, nem tão literal. Talvez hoje ainda se morra por ideais. Se morre de raiva de gestores incompetentes. Se morre de tédio por um ensino sem qualidade. Se morre de gritar sem ser ouvido. Se morre por querer viver dignamente.

Mas vale morrer, que perder a vida. Mais vale viver que morrer de medo. Mais vale lutar que desistir dos sonhos. Mais vale acreditar que juntos somos mais.

(Tuyná Fontenele)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

FOLHINHAS




Tem dias em que eu acordo. E outros em que durmo.
Tem ainda aqueles que eu acordo com vontade de dormir - Quase todos!
Tem dias em que os lábios se fazem riso. Outros em que se fazem beijo.
E alguns que o sorriso se faz lágrima e a gente chora de felicidade - Que bom que são muitos!
Tem dias que torço para acabar logo. E outros que rezo para que o dia não termine.
E há aqueles que passam como querem. E que algo nos faz duvidar que sigam as horas.
Dia de trabalhar. De ir ao cinema com o namorado. De sair com as amigas. De fazer qualquer coisa (ou nada) sozinha.
Ai... dia de fazer nada! Pena, que quase nunca existam e que quando existem, muitas vezes não seja por decisão própria da criatura que o protagoniza.
Dia de aniversário. De churrasco. De porre – meu Deus, que dia inesquecível!
Dia de ver os pais. De levar bronca. De bater uns papos sérios com Deus.
E todos eles estão lá sobre a mesa, na parede, riscados em algum canto da casa, no celular ou absortos em nossos pensamentos.
O calendário tem dias. Muitos deles. Ou será apenas mais uma criação humana para não enlouquecermos?
Ou será que somos loucos e vivemos fantasiando em devaneios diários a obrigatória existência deles?
Cotidianamente.
Todos os dias.

(Tuyná Fontenele)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O IPÊ E O ASFALTO



A cidade. Multidão. Rostos anônimos. Correria.
Sozinha caminhava após um dia entediante. Um dia citadino.
Em dias assim, o olhar custa fixar-se. O olhar corre e não vê.
Em dias assim, a gente não vive. Luta pra sobreviver.
Mas lá estava ele. No meio do meu caminho. O ipê.
O ipê florido no meio do asfalto. Suave, tranqüilo.
Desde pequena sempre me senti atraída pelos ipês.
Sempre me questionei “Como pode árvores de flores?”
Então, por mais enfadada que viesse correndo pra chegar logo e deitar, meu olhar não se desviou dele. Do ipê amarelo.
Parei. Simplesmente parei a contemplá-lo.
E aquilo me trouxe calma. A calma que a cidade me leva embora.
E aquilo me fez pensar, pensar coisas aparentemente sem nexo.
(Adoro pensar coisas assim, há quanto tempo não o fazia! Não tinha tempo!)
A cidade nos rouba o tempo de pensar.
Mas ele estava lá. No meio do asfalto. Que bom que estava lá.
Levou-me de volta a minha infância. Às manhãs de domingo a caminho da casa do vovô.
E me fez refletir sobre a vida.
Sobre como somos impacientes e não aproveitamos o momento porque nos prendemos ao depois.
Aquelas flores enfeitam o ipê e a cidade em tempos de aridez.
Mas depois as flores caem. E demoram um ano todo pra voltar.
Mas o ipê estará lá. Sereno. Paciente.
É o ciclo da vida.
O ciclo que a agonia da cidade cega nossos olhos e nos faz desperceber.

(Tuyná Fontenele)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

"Sobre o tempo"

Tic-tac... tic-tac....primprimprimprim!!!!
Hora de acordar
Hora de comer
Hora de trabalhar
Hora de correr
(Chegou atrasada, o ônibus acabou de passar)
Hora de pegar bronca do professor
Minutos, segundos
Horas...

Oras, pra que tantas horas? Se no final são tão poucas pra tanta coisa?
Mas, afinal, o que é o tempo?


Será que é o dia de sol que faz lá fora?
Ou será que é mesmo uma invenção capitalista?
Será que ele existe?
Ou será apenas mais uma utopia de sonhadores deslocados?

Muitas vezes já quis tê-lo
Queria eu poder conhecê-lo
“Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda,
eu sei, pra você correr macio”
E quando será que o tempo corre macio...
E onde será que não há percalços em seu caminho?

Preciso de tempo pra relaxar
Preciso de tempo pra terminar
Preciso de tempo:
Pra escrever
Pra dormir
Tempo pra dormir... tempo!
Para conversar com meu amigo des-conhecido
Sobre sonhos e devaneios
Sobre coisas “desnecessárias”
Que pessoas ocupadas não tem tempo a perder
Mas, que me fazem bem
E pra isso sempre arrumo o tempo que não existe.

(Tuyná Fontenele)

(Cres)cimento



Cresci lá bem longe
de onde hoje cresço.
Cresci ouvindo os pássaros
acordando de manhã cedo (eles, os pássaros).
Cresci querendo ter uma borboleta
e achando que tinha duas.
Cresci correndo na rua,
Brincando de pega,
dançando quadrilha.
Cresci sendo pequena
e sonhando em ser grande.
Cresci fazendo poemas,
lendo cartas,
vendo desenhos (na tela e nas nuvens).
Cresci ouvindo conselhos,
seguindo regras
e pensando em romper amarras.
Cresci querendo ir pra longe,
Correr em outras ruas e crescer.
E agora me pergunto, enquanto ainda sou pequena:
Será que crescer vale a pena?
E que pena será não crescer?

(Tuyná Fontenele)