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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sobre a arte de dar sentido à vida


A fumaça do vigésimo cigarro sobe pelo ar. Densa, assim como meus pensamentos. Turvos, como águas profundas de um oceano que não conheço. Uma pergunta não cala - Porque viver? Qual o sentido da vida?

Acompanhada de minhas úlceras, reflito mais um pouco, como se fosse a primeira vez que tais pensamentos se apresentassem a mim. Penso em minha vida e nos anos em que carrego comigo um projeto que não é apenas meu, mas de nossa classe. E portanto, transcende a mim e ao meu desprezível tempo de indivíduo.

Subverter a ordem! Transformar a sociedade por inteira!

Olho para fora e vejo gente, bicho, planta, carros, asfalto. Gente atomizada como bicho, desumanizada, reificada. Gente que se mistura com asfalto - cinza. E torno a me perguntar: Qual mesmo o sentido da vida neste mar de merda?

Deus, religiões, livros de auto-ajuda, compras, comidas, drogas, todos os tipos de fugas e muletas (nunca os tivemos tantos!) arranjamos para esboçar qualquer resposta. Lembro-me das palavras de um querido amigo: "a vida por si só não possui sentido algum." A existência não se justifica em si mesma. Não precisamos propagar a espécie: o mundo já o está cheio dela. Viver apenas para reproduzir essa sociabilidade torna-se um despropósito à humanidade. O mais nobre sentido da nossa existência só pode ser o de buscar tomar nossa história pelas mãos. Temos o direito de assumir o protagonismo de nossas vidas e de nossos destinos.

Imagino um dia em que a vida possa ser realmente vivida e não apenas miseravelmente sobrevivida. Imagino todas as necessidades e potencialidades humanas que poderão ser desenvolvidas sobre outro patamar de relações entre os seres humanos: sequer consigo mensurar... a filósofa faxineira, o pedreiro arquiteto, o lixeiro compositor de música clássica,...
Qual melhor sentido da vida, senão a luta para que a vida um dia seja plena de sentidos?

Tábata Gomes, 05/08/2014

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

POR QUE A LUTA FEMINISTA DEVE SER CONTRA A FAMÍLIA MONOGÂMICA?



Bom, ao tratar de assunto tão delicado, devemos iniciar categorizando o que concebemos como monogamia:

Etimologicamente, a palavra se forma a partir do Grego MONOS, “um, único”, mais GAMEIN, “casar”. Porém, infelizmente, não é apenas esse conteúdo que a palavra monogamia carrega consigo.

MONOGAMIA, na sociedade capitalista, diferente do que a ideologia burguesa/patriarcal apresenta, não é a livre vontade de se relacionar afetiva-sexualmente apenas com uma única pessoa, como “naturalmente” acontece, ou deveria acontecer. Se assim fosse, não haveria problema algum!

Para compreendermos o significado que a palavra monogamia traz consigo, desde sua origem, é necessário uma contextualização histórica:

A família monogâmica, isso é, a noção de propriedade de um indivíduo sobre o outro, funda-se na transição para a sociedade de classes, aquela em que uma parte da sociedade, a classe dominante, explora a outra e majoritária parte da sociedade.

A passagem histórica de sociedades comunais para sociedades de classes, traz consigo o surgimento da propriedade privada, do trabalho alienado (explorado), e um instrumento especial criado pela classe dominante para organizar e aplicar cotidianamente a violência, o Estado.

Nesta transição, as relações históricas até então concebidas em carater coletivo, como o cuidado das crianças, passam a adquirir a condição de relações PRIVADAS. Fica, então, restrito ao “lar” o espaço de atuação das mulheres e todas as suas atividades ligadas ao âmbito da reprodução da vida (cozinhar, limpar a casa, cuidar dos filhos, etc).

Com esta conformaçao social, compete aos homens o “provimento” de suas mulheres; e estas devem “servir” aos seus senhores, em uma relação de poder. Aos indivíduos masculinos cabe o poder da propriedade privada, serão eles os maridos. Às mulheres cabem as atividades que não geram a riqueza privada: serão esposas ou prostitutas.

A família, tal como hoje a conhecemos, não surge como resultado do amor entre os indivíduos. Surge historicamente como a propriedade patriarcal de tudo o que é doméstico.

Ao referenciar o poder do homem, e a separação dos espaços públicos X privados, a família monogâmica passa a moldar o que é ser homem e o que é ser mulher (constituindo os gêneros masculino e feminino) em nossa sociedade. Tal fato interfere inclusive no desenvolvimento da sexualidade de ambos: ao homem compete, a todo momento, afirmar sua sexualidade, enquanto a mulher deve negá-la, condicionando o sexo apenas para fins reprodutivos: gerar herdeiros que possam perpetuar a acumulação de riqueza da família. Daí a necessidade da garantia de que o filho será mesmo do marido através da exigência da virgindade da esposa – por isso cabe ao primogênito masculino a herança.

“Para assegurar a fidelidade da mulher e, por conseguinte, a paternidade dos filhos, a mulher é entregue incondicionalmente ao poder do homem. Mesmo que ele a mate, não faz mais do que exercer um direito seu.” (Engels, 1979: 68)

Tão falsa é a ideia de que a monogamia é a relação sexual com apenas uma pessoa que desde sua origem é permitido ao homem o rompimento deste “contrato”. O chamado “heterismo”, aceitação social de que apenas os homens mantenham relações extra-conjugais, traz historicamente a reboque as relações de prostituição em que a existência de jovens e belas cativas que pertencem (mesmo que por um período determinado), de corpo e alma, ao homem, é o que imprime desde a origem um caráter específico à monogamia que é monogamia só para a mulher, e não para o homem. E, na atualidade, conserva-se esse caráter.” (Engels, 1979:67)

"A alienação patriarcal sobre a mulher que a converte em esposa ou prostituta, é a negação de sua potência histórica, o rebaixamento do seu patamar de humanidade." (Lessa)

A FAMÍLIA MONOGÂMICA SE CONSTITUI, PORTANTO, POR UM HOMEM E
UMA OU VÁRIAS MULHERES EM UMA RELAÇÃO DE OPRESSÃO — NEM CONSENSUAL, NEM AUTÔNOMA.

Espero que tenha ficado claro que um relacionamento a dois não é necessariamente uma relação de opressão e ficamos muito felizes com a possibilidade de que ainda que em germe, muitos e muitas lutem para construir relacionamentos afetivos emancipados, livres de qualquer opressão.

Aqui, ao falar da FAMÍLIA MONOGÂMICA, estamos tratando de um complexo social que envolve historicamente uma relação de opressão (inicialmente entre homens e mulheres, mas que pode se refratar em relações homo-afetivas também). Opressão esta que tem como mediadores o Estado, a propriedade privada e o trabalho alienado.

Sendo assim, devemos LUTAR contra a família monogâmica, pois ela representa a dominação do homem sobre a mulher!

Está claro para nós que a família monogâmica não comporta a totalidade das necessidades e possibilidades de desenvolvimento do gênero humano! Por isso, é parte da construção de um projeto contra-hegemônico dxs trabalhadorxs o forjar de novos homens e mulheres que se paute em relações livres no sentido mais pleno desta palavra!

Defender que as relações afetivo-sexuais sejam COMPLETAMENTE LIVRES não significa impôr modelos de relacionamentos (se a duas ou mais pessoas). Pelo contrário, é a defesa de que qualquer tipo de relacionamento (inclusive a dois) não deve ser pautado pela propriedade privada, pelo machismo, ou pelo Estado, incluindo a noção de posse de uma pessoa sobre a outra!

Defendemos uma nova forma de organização da vida social, uma sociedade emancipada das relações de exploração e opressão. E, para que esta sociedade seja possível, é imprescindível superar também a atual forma de família.

Somos favoráveis à liberdade mais completa para que as pessoas possam viver seus amores com a maior intensidade e a maior autenticidade. Superar a família monogâmica é decisivo para a constituição de uma sociedade que possibilite o desenvolvimento universal e pleno dos indivíduos.

E, para que isso seja possível, é imprescindível superar a sociedade capitalista e o machismo.

24 de setembro de 2012
Tábata Melise Gomes

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AOS LUTADORES DO PINHEIRINHO



De pé, resistes,
Pinheirinho!
Armado com o que
resta;
organizado como
pode.

De pé, resistes,
Pinheirinho!
Com o Estado
não te enganas.
Destroçado,
este é teu lema:
"envergas, mas não quebras!"

De pé, resistes,
Pinheirinho!
O futuro não está dado;
as vidas não foram em vão.
O inimigo será derrotado!

De pé, resistes,
Pinheirinho!
Pega teu filho que foi espancado;
junta os cacos;
lambe as feridas.
Agora são muitos que estão ao teu lado!

De pé, resistes,
Pinheirinho!
Entre choro, sangue e
ódio,
levanta-te revoltado;
propaga-te como rizoma.
Ninguém poderá segurá-lo!

De pé, resistes,
Pinheirinho!
Espalha tua semente
até ver o mundo todo tomado
pela única certeza
de que o troco será dado!

Tábata Gomes

31 01 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POESIA DE PINHEIRINHO




"OUTRO PAÍS NO BRASIL"
Antônio Silva (morador do Pinheirinho desalojado violetamente no dia 21 de janeiro)


Uma ninhada de tucano
de uma noite para o dia
veio do mundo afora
pondo o povo em perigo

Em pleno final de semana
enquanto o povo dormia
invadiram o acampamento
numa maior covardia

Todo mundo acordou
chamando seu companheiro
pois já haviam tomado
o acampamento inteiro.

Homem, mulher e criança
gritavam desesperados,
dizendo um para o outro:
"o Pinheirinho está tomado!"

Era o batalhão de choque
veio a cavalaria
para expulsar o povo
numa maior covardia

Jogavam gás de pimenta
sufocando todo mundo
tratando os trabalhadores
como sendo vagabundos.

A juíza e o prefeito
de longe nos assistindo
A comunidade chorando
enquanto os dois estavam rindo.

Depois de nos jogar na rua
segue a perseguição.
Não sei se eles são de pedra
ou gente sem coração.

Parece mais uma guerra
onde isso já se viu?
Ou será que nós somos
outro país no Brasil?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Para as mulheres



   BASTA!
         de sangue derramado
         de vidas submetidas
       de marcas da violência
  de mortes por conta do domínio
                 hipócrita
           sobre teu corpo!

     Estado
                  Igreja
                           Família

    O machismo se alia a tudo
             para lhe dizer:
          “seja submissa!”

                CHEGA!!!
       vai pra luta MULHER!
           teu corpo é teu
        e de mais ninguém.

        É hora de rebeldia.
        É tempo de negar:

    a maternidade imposta
     o trabalho doméstico
                           - naturalmente delegado -
   a subordinação cotidiana
 o capitalismo que te explora
 e te massacra
               nos menores salários
                             nos postos precarizados
                         na dupla jornada de trabalho                                                                                                      
 na naturalização de que és
                               pequena.

 É hora de ser,
                    de gritar
                             e de dizer:

                          Sou GRANDE,
                            Sou MINHA,
                           e não aceito
                    TODA ESSA MERDA!


                                             Tábata Gomes
                                                   08 03 2011

Perguntas da madrugada



A noite apaga o que o dia
                                        vela.
Na vida dividida em classes
                             tudo parece tranquilo.

         …silêncio...

Apenas sabem os que dormem
          que dormem para o amanhã,
                                para mais um dia,
                                          para o trabalho,
                                                      para o pão
                                                                  na mesa.

         Mais-Um-Dia;
            Mais-Valia.

                                      E nada mais é como antes:
                                            segundos contados,
                                           movimentos previstos
                                           [o sistema se mantém]

Através de sangue e suor,
o dia
          p
              a
                   s
                       s
                           a

Será possível um novo dia?
em que a vida humana seja
                                 humanamente
                                                   humanizada;
           em que,
             livres
[produtores associados],
    possamos apenas
           ...ser...

                                            em que,
                          todo o potencial da vida seja
                                      desenvolvido
                                      e não apenas
                                     in-ter-rom-pi-do
                           pelo esmagador cotidiano.

               Sim, novo dia,
            nós te forjaremos!
                                       .


                                                              15/09/2011
                                                         Tábata Gomes