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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Amor subterrâneo


Encontrei-me perdido em uma tarde, sentado em algum desses cafés burguês da zona leste da cidade, apreciando a pobreza e o vazio dessa gente hipócrita, meditei. Enquanto isso, bebericava meu vermute, em súbito, flagrava-me rindo as alturas, diante da solidão em branco, foi quando então vi alguém chamar meu nome. Virei-me e dei com os olhos em Fabrício, frisei a vista, para então poder ter certeza daquela aparição inusitada. Cumprimente-o com um forte abraço e longo também. Há quanto tempo não o via, aqueles olhos verdes, pareciam ser a visão que nunca mais teria em vida, mas fui contemplado com tal graça plena. Nem acreditava naquele vão encontro. Tínhamos sidos grandes amigos na adolescência, compartilhávamos gostos estranhos e grotescos. Anos a fio e ele ali, diante dos meus olhos, como era bom tê-lo de volta. Mas havia uma angústia em seus olhos, uma angústia que gritava em agonia. O que havia ali, que gritava por socorro? Indaguei-o sobre tal tormento. Ele que quase em sussurro falou: “Aqui não”. Compreendi de imediato que a nossa conversa tinha de ser em particular, em um acordo sonoro entre a minha voz e a dele. Fugimos dali. Passeávamos de carro, por aquela avenida com nome de santo. Senti o peso entre o silêncio de nós dois, ainda sim continuei calado. Conduzi o veículo até o destino final. O chofer levou o carro embora. Ao entrarmos no elevador, vi que suas mãos estavam suadas. Parecia um sufoco, nosso silêncio nos deixava em asfixia. Estávamos então na cobertura daquele hotel de burgos, a vista era esplêndida, a avenida frei serafim fazia então alusão ao corpo humano, ela era então a veia e nela circulava os carros e seus faróis vermelhos, era tão automático aquele fluxo contínuo. Foi quando assustei-me ao ver Fabrício, seus olhos era lágrimas que percorria toda a sua pele e desaguava aflita. Hesitei ao querer tocar seu rosto, ainda sim o fiz. Minha mão era então navalha, ele sangrava por dentro, meu carinho era um corte lento, sem cicatriz. Sua voz me saiu como melodia, eu já distante de tudo o que houvera conduzi sua mão ao desejo mortal. Ele disse que me amava na língua húngara e aceitou o convite. Diante de nós havia um mundo, um abismo sem freio, ao qual nos atiramos. Fez-se dois corpos, uma só alma. Tudo parou, o trânsito, a veia e só!

Ítalo Lima (04/11/13)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha 7º caminhada - Ele?









Eu que sempre imaginava o dia que em fosse morrer, hoje evaporo junto com a certeza de que por mais que eu procure não sumirei assim tão fácil e o hoje o relógio, o vento e o destino são os meus únicos aliados nessa busca incessante pela eternidade .
Lembrava minuciosamente daquelas palavras profetizadas em meu ouvido, palavras doces e seguras, as frases com os cafunés que se perdiam entre as fechadas das minhas coxas e o que mais me martelava era de onde surgira tanta certeza de uma pessoa que eu nunca vira , de um amor que me oferecia de longe e mesmo estando eu, de olhos vendados conseguia sentir esse corpo distante, um rosto rompante ,uma voz inebriante, e um olhar expressante .
Estou querendo acordar, mas além da misteriosa estrada que entorpece minhas entranhas tenho esse homem, um amor, que não terei como temer em parar e em nome desse ultimo irei lutar pela felicidade que me consome mesmo sem conhece-lo ou amá-lo .
Não me prendi ao acaso de sempre me encontrar perdida em uma estrada que não é minha, mas de alguma forma em outrora deva ter me pertencido . Tenho certas vontades de quebrar o tempo, me apegar ao vento e sair voando, mas temo esse querer que entorpece meus olhos de lagrimas por não conseguir decifrar certos enigmas. Encontro-me em outra duvida, algum tempo atrás assisti um filme sobre sonhos que alguma parte dele destacava que “ você nunca se lembra quando começa um sonho e quando se percebe as vezes já é tarde de mais para viver ele ou nele “ . Achava isso uma bobagem, pois priva qualquer ser humano de buscar outra verdade diferente desta meia, cheguei nessa parte da vida em que me encontro em não saber mais se esse contraponto é o suficiente pra mim, hoje não preciso mais das verdades elas me fartam de uma forma a sangrar e muito menos importa sonhar, depois que me encontrei perdida em um deles, não sei se já estou acordada ou se estou dentro de mais um falando agora, vivendo perdida e quando tudo isso começou? Na verdade não sei . Da mesma forma, não lembro de nada a partir dos primeiros segundos de vida no mundo, nem a emoção de colocar a primeira vez os pés no chão e como arranquei o ''então sorriso'' de meus pais ao me verem caminhando, tudo soa bem estranho mas é uma da forma que me concentro e isso me deixa menos triste da realidade que me assola.
O sorriso realmente é a porta da alma , ele que engana, ama, o que chora, o que sangra, é triste e alegre uma verdadeira contradição.
O jardim estava claro, as flores pareciam que estavam dançando ao som das vozes de crianças brincando nas ruas, todas vestidas com um perfume que cortava a alma de alegria ao senti-lo, rodeadas com o babado de lagrimas feliz que caia torrencialmente regando as outras como se fosse a mais linda chuva que já vira, tudo era tão lindo, tão perfeito que meus olhos não aguentava ao menos piscar, de repente apenas eu no meio e todas elas dançando como se estivesse fazendo um ritual, as vozes pararam e ao fundo só o som das pegadas, que cada vez ficavam mais altas como se tivesse bem perto de mim, em um segundo a respiração ofegante, o toque em minhas mãos o suspiro em meus ouvidos , o arrepio de pele o perfume no pescoço , o corpo no corpo , faíscas na roupa . A velocidade da dança aumentara, pisquei os olhos e o mundo congelou, naquele momento vira um rosto pálido, iluminado tão como o lugar que estava e em segundos a então a voz sucumbia meus ouvidos, aliás todos os nítidos sentidos do meu corpo não se controlavam dentro de mim, eles queriam ser extravasados, dançar como as flores , a voz aveludada e cálida fazia festa em meu ser , além dela apenas as palavras que não escutava à tempos com tanta certeza e o sorriso doce ? Esse me deixava psicodélica, sentia todas as emoções e mais ainda quando o lábio inferior dele tocava no superior trazendo um baile à tona de pura ternura, serenamente elas escorriam entra a boca dele.
– Meu amor, enfim te encontrei, meu corpo não aguentava mais querendo o seu, meu sangue estava congelado, minha saliva enojada, minha vida não era vida sem que eu pudesse verificar entre os meus o seu pequeno olhar . Porque foges tanto, tive que atravessar o meu inverso para te ver novamente, porque negas esse amor?
Diante dessas perguntas ,minha mente inundara e logo então as lagrimas começara a dedilhar entre meu rosto a conhecida emoção que se estabeleceu entre meu frágil corpo sumira, partira e de contramão as dúvidas voltaram, a tristeza que era minha válvula de escape nesse momento me enclausurou não querendo soltar-me para poder ao menos sentir esse corpo de sobre aviso ao meu, não conseguia entender o motivo dessas cobranças. As temíveis lembranças voltaram com força total, e entre um turbilhão de segundos lembrei-me desse límpido rosto, ele tinha o rosto semelhante do homem da voz que já aparecera em alguns sonhos, só que dessa vez estou com ele face em face estando no meio de uma história que ficou parada, o começo desconhecido como nos meus devaneios e o futuro jogado a uma sorte que não mais me pertence.
Ele não me soltava, me dizia que tínhamos muitas coisas para conversar, brincar, amar, planejar um futuro, mas para que isso chegasse a dar certo precisávamos dormir, sonhar.  A palavra sonho me permitindo a escutá-la mais uma vez nesses últimos dias. Chegamos à ultima casa da rua , a casa de cor branca que havia visto uma senhora parecida comigo há um tempo atrás que de fato era a minha casa ,entramos e nos envolvemos com as gotas que caiam do orvalho, elas criavam uma atmosfera de perfeita serenidade, nada igual como a do bosque que presenciara mais cedo aonde ele me tocara. Senti alguns toques, o frenesi na minha espinha, cercava este homem como um animal faminto com fome a deriva por meses. Deitamos e do nada quando levanto meu rosto procurando a boca dele me deparo apenas com o vagão o mesmo que aparece refletido em minha retina. O amor sem afago que pairava em meu coração sumira mais uma vez. Levantei-me cambaleando de tristeza deslizando entre as minhas lagrimas ,sugando o ultimo ar que me restava, esvaindo passos para chegar ate a cozinha. Fiquei parada analisando a área em que estava, cheguei aonde meu corpo tramava em chegar, enxerguei tremulo vários remédios e sem nenhuma piedade despejei todos em minha boca, comecei a definhar no chão e no lapso de tempo aquele ceticismo que já me pertencera voltara e me cobria com o seu manto da morte.
Cheguei nesse momento da vida que não confiava mais nem no meu sorriso, pois as digitais que o preenchiam espelhava os lábios dele. A morte voltara e me entorpeceu com o seu excêntrico perfume, as duvidas que oscilava dentro de mim jazia em meu peito como se estivesse em um holocausto, o genocídio entre todos os meus sentimentos acontecia enfraquecendo meu corpo ,sangue, dores, desgraças e trevas me resume a um lugar que não imaginara expor nem nos meus livres versos . E se algumas horas atrás eu vivia no olimpo por tanta felicidade, nesses novos segundos habito no caos de insegurança. Sobre o amor, só a dor que me restou e hoje emano uma vontade de não querer saber de mais nada incluindo ele.
“Ele me trouxera a morte que não a desejava mais, hoje conspiro em uma luta que não foi travada pelas minhas convicções, se antes já não sabia, hoje nem um pouco mais“

- Línia você pode me escutar, pode me sentir e ainda consegue me amar?
Consegui lhe trazer a um lugar que sempre quis que você pudesse estar
Sente e deixe que eu possa lhe explicar.
Você esta morta como pode notar
Eu, aquela senhora e todas as imagens que já vira também estão
Mantenha-se acordada para que nada possa lhe maltratar
cuidarei da sua estadia aqui .
Porque tenho que passar por isso? Pensei que morta poderia está livre de tudo, não vou respondê-lo, me nego a ter que fazer isso, sempre que essas palavras voltam pra minha vida eu volto a sangrar, começara tudo de novo, as síncopes, as tremidas no cílio direito, a arranhada com a mão esquerda torturando minha coxa, já me encontrava sentada com a face languida balançando as pernas feita louca, percebi nesses segundos que um pouco da minha insanidade nervosa reinava em meu corpo fazendo com que eu me encontra-se a deriva discutindo comigo mesmo sobre a intriga dessas frases que esse homem derrama sobre meu ser, ele fez questão em aparecer onde estou, é isso? Sem respostas não consigo esvaziar ele por total do meu coração, deva ser algum tipo de jogo. A minha mente esta sendo ameaçada por este sentimento doentio e onde estou não sei se conseguirei fugir de mim. Meu nome és o meu único legado que tinha se perdido por um tempo que me fizera esquecê-lo, apagado da minha vida, tudo me fazia ocupada, retificando tudo estava preso nas mãos desses acontecimentos e agora eis que surge tudo sóbrio novamente me fazendo definhar mais por lembrar-se da minha infância, da minha mãe e quão era feliz por estar viva. Esse era o jeito que minha mãe me chamava. E agora onde todos estão? Onde eu estou?
...Onde estou, onde estou?
A voz arrastada arranhava a minha garganta e de repente só o mudo da voz e a escuridão entre o espaço. Um vento catabático me empurrava, flamejando vozes.
- Venha, venha. Essas foram as últimas palavras que consegui ouvir .

Myrla Sales’

quinta-feira, 30 de agosto de 2012




Lembro-me de me deliciar escutando-o balbuciar suas crises existenciais que me deixavam em completo estado de embriaguez sinestésica, era incrível! absolutamente encantador. Eu gostava de confortá-lo e de tentar entender tamanha loucura, tantas lágrimas e tanta inteligência. Lembro que as vezes surgia um imenso medo daquele sentimento e um instinto de proteção ecoava na consciência dizendo pra eu tomar distância, tomar fôlego. Lá no fundo eu sabia e não queria ter noção do estrago, os rasgos, as ranhuras feitas na alma, as mudanças de ideologia, a ruptura com as minhas crenças e com minhas antigas e banais linhas de direcionamento morais.

eu disse adeus com a alma lavada de sangue e as veias molhadas de gozo...!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Minha 5 º Caminhada - Mãe ?




“Nem sempre a palavra felicidade se resume em ser feliz, tem muitas teorias a serem traçadas e tantas pegadas a serem trancafiadas, por em pratica um vasto caminho não traduz que preciso sorrir pra ter alegria em mim como um amigo incomum ''

Essa era a mensagem que martelava em forma de eco dentro da minha cabeça ,não sei de onde as ouvira tão convictas como o som ao fundo salientando a lucidez do meu consciente
… Acordara as seis da manha com o despertador aos berros
fiz de tudo para que levantasse o mais alegre possível
porque vira o sol mais iluminado do que nunca atravessando a fresta da janela do meu quarto
buscando refrescar os meus seios penetrando em todos os órgãos pulsantes do meu corpo.
Precisava sorrir, lavar o meu rosto e criar uma sombra sóbria para todos que iriam me cercar em mais um dia melancólico .
Comecei a contar meus passos lembrando da minha doce infância, fui ao banheiro, do banheiro retornara para o meu quarto, arrumei meu cabelo e depois baguncei,senti um sorriso desbocado fugindo dos meus lábios, então sentei na beira da cama toda desajeitada esperando a minha mãe entrar pela aquela porta marrom ,brilhante brigando como sempre ela fez. As palavras me sucumbiam como uma profecia feliz que rondava, rondava e rodava na minha mente.

... - Como sempre tudo bagunçado,ate mesmo você , não se ajeita, não ajeita nada, não vai tomar um rumo certo nunca nessa vida .


Me lembrei do som da voz dela, do olhar irônico que me acertava, do perfume que inebriava todos os sentidos e o toque suave ao apontar o dedo na minha face . Aquela imagem entorpecia de saúde aquele lugar.
Fiquei parada tentando agarrar a imagem dela pra que a mesma não sumisse como a primeira vez que me abandonara por total com a morte ,aquele rosto pálido encharcado de ternura , subitamente me veio aquela senhora que eu encontrara na rua, me lembrava algo .
Era ela. … Minha mãesinha ...
Conseguira desvendar o primeiro segredo da minha caminhada, não por completo ,pois ainda não identifiquei o motivo dela ser tão triste e esta tão velha
Me surgiram mais perguntas , atormentada nelas não parava de pensar .
Porque andam magoando -a ?
Porque ela chora agressivamente como bebê ?
Porque a razão de me abandonar tão pequenina?
Porque,porque ?
… Três dias depois me vira em cima de uma cama, ao perguntar o que teria acontecido me informaram que tinha tido uma sincope seguida por convulsões ,ficara tão rocha que neste momento percebo as manchas no meu corpo.
Não me lembrava de quase nada ,somente daquelas imagens as mais preciosas da minha vida
E por não saber me comportar acabei perdendo-as mais uma vez .
Não sei porque não sumo no próximo breve que me comrromper ?
tantas indagações e mais um calvário a suportar .
Ao menos sinto que estou no rumo de descobrir tudo de uma vez .
E já sei que preciso dormir para encontrar as respostas dentro do meu sono .

… - Querida precisa descansar , as doses dos remédios são fortes e o seu corpo não ira suportar, é necessário que padeça na cama para que seu sono seja mais suave possível .

Eu queria dizer pra ele que não seria necessário os tais remédios já iria dormir mesmo,pois dormindo consigo respirar a atmosfera legalizada da minha realidade e ser feliz com as pessoas tristes que la estão, ao menos estaria com eles a minha volta . Não se deve narrar tanta felicidade,eles estão todos mortos . Nem se eu por algum motivo me fizer como tal . Mas se conseguisse narrava mesmo assim .

Ao menos as sincopes não me fez falsa pelo resto do dia e muito menos me obrigou a fazer o necessário pra fazer a tal sombra sóbria para aqueles que iriam por alguma circunstância da vida me cercar, nem que fosse por alguns minutos .

Por Myrla Sales – Minhas caminhadas
14/07/2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Amada Ana


Amanda andava apressada, sentia ser perseguida
 E com sentido seu medo crescia.
 Agora a certeza tomava conta, corria com a ponta do vestido em conta.
 O coração acelerava e nenhum caminho seguro surgia
 A floresta parecia estar em uma estranha orgia.
 A escuridão a deixava mais nervosa e ela começava a ouvir coisas…
 As forças indo embora…
 O passo desacelerando…
 O fôlego não mais o mesmo, o medo se alastrando…
 Amanda cai num tropeço violento, rasga a barra do vestido e joga os pertences ao vento.
 Sem muitas perspectivas ela clama:
 - Meu Deus cuide de mim e de minha amada Ana.
 O chão treme.
 Amanda se esconde por trás de um grosso caule, respira fundo e caem lágrimas…
 Na escuridão um corpo masculino tomava forma, de um jeito cretino ele sorria balançando uma corda.
 - Teu homem está aqui Amanda, seja um dia digna e volte para nossa cama. Não percebes que não está certo quem tu amas?
 Amanda não tinha mais forças, via apenas uma saída: mostrar seu esconderijo e entregar seu corpo para a violência ainda em vida.
 Quando sua decisão já estava tomada, ouve um gemido.
 Corre para olhar o marido…
 Morto.
 Ela não se mexia e não entendia nada.
 Ela procurou quem era seu salvador, olhou bem fundo e descobriu ser sua amada.
 -Ana!
 Amanda não sabia como agir, pegou o machado das mãos de Ana jogou no rio e a convidou para irem embora dali.
 O corpo do marido no chão foi sendo devorado aos poucos pelos animais na noturna refeição.
 Amanda e Ana, não tinham nada, apenas as duas…
 No pensamento de Amanda ela tinha tudo e no de Ana não precisava de mais nada.
 Seguiram as duas de cabeça erguida recontando a história sem nenhuma ferida.
 Como se fosse uma grande piada.

Por Mariana Duarte

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cafuné


Já era o nosso terceiro encontro e eu não sabia o que pensar, havia uma inquietação que não poderia definir. Paixão? Amor? Acredito que não. Dois encontros maravilhosos haviam ocorrido, os melhores desde que comecei a conhecer novas pessoas. Papo agradável, momento apreciável e aquele olhar que me prendia.
Beijá-la era um desejo constante, mas faltava algo. Algo dentro de mim falava sem parar que precisava conhecer mais um pouco. As músicas, as perspectivas, mais alguns gostos, a história não contada e diversas outras coisas que ignoramos ao ir direto ao ponto: O tão sonhado beijo. No dia seguinte o beijo seria apenas uma lembrança gostosa e o desconhecido do seu ser algo perturbador.
~~
Não vale muito a pena descrever o local onde estávamos, mas valia muito a pena olhar para seus olhos, mesmo com uma forte marca de olheiras, prendiam minha atenção.

Você pensa na gente? — Interrompi sua fala, os pensamentos estavam inquietos demais para esperar que parasse.
Por que pensaria? — Respondeu parecendo surpresa com minha pergunta do nada.

Por que não pensaria?
Porque não quero sofrer. — A principio a resposta pareceu negativa, mas pensando bem, era justo. Era apenas o terceito encontro, não poderia cobrar tanta confiaça ou exigir de mim que nunca a faria sofrer.
Você já está sofrendo.
Talvez.
Certeza.
De que forma?
Ao se privar tanto.
Certo. Pensei...
E o que pensou? — Sem perceber, praticamente como por reflexo parei sua fala, ler seus pensamentos não era tão simples.
Que nunca iremos dá certo.
Concordo.
Se já sabia isso, por que perguntou?
Não me prendo ao que sei, apenas ao que sinto e ao que posso viver.
E o que você sente?
De concreto? Nada. De abstrato? Em cada momento com você, algo diferente.
E o que predomina?
Já é a terceira vez que estou contigo.

Já era muito tarde, perto das dez da noite e quando não queremos o transporte chega muito rápido. Aproximei-me um pouco mais para lhe dar um abraço singelo, juntamente com um beijo carinhoso no seu rosto, a noite não terminaria com um beijo romântico, com nossos lábios se entrelaçando e isso não era algo ruim. Antes de seguir meu rumo, naquele momento da ultima despedida depois de várias outros, ela olhou fixamente em meus olhos e disse: “Haverá uma quarta”.

~~

Geralmente detesto o final de semana, a ausência de rotina faz tudo sair dos eixos e a sensação de está perdendo tempo é muito ruim, ainda mais, depois de tudo que aconteceu recentemente. Mas nos últimos três finais de semana, não eram chatos como de costume. Pelo contrário, estavam ótimos diante da companhia dela. Se sair com ela for minha rotina do final de semana, sinto que agora ele será esperado como nunca.
~~

Não havia motivos para pensar nela, mas de alguma forma eu pensava. Pensava em várias coisas, nos seus doces preferidos, nos passeios que ela não havia feito, nos desejos simples não realizado, no seu passado, nos meus passeios que eu gostaria de tê-la, desde os repetitivos até os inovadores. De fato não era um novo amor, nem uma paixão, apenas sentia sua presença de forma especial, como se eu pudesse ser algo que ela precisasse e ela sem dúvida é algo, que especialmente preciso.

~~

Depois de tudo que houve, parece estranho querer um novo amor, uma nova pessoas, abdicar todo meu tempo livre para ter alguém, só que, se tem algo que aprendi bem nos últimos meses foi a não fugir daquilo que somos. E eu sou exatamente assim, alguém em uma busca constante por alguém, o que nem sempre é bom, ora ou outra queremos que alguém venha atrás de nós, alguém que possamos corresponder. No entanto, talvez o universo não funcione assim, talvez quando queremos devemos ir, não atrás, mas não permanecer parados. Mesmo tendo diversas outras coisas para me tirar dessa inquietude, eu queria que ela me tirasse e acho que conseguiu, aos poucos vai substituindo o vazio, a frustração, o receio por algo palpável, mesmo que esse sentimento tangível seja o medo.

~~

Era o tão esperado quarto encontro, dessa vez era algo mais casual. Havia uma lanchonete muito boa e resolvemos ir lá a tarde, em um dia de semana mesmo. O lugar era agradavel, pequeno, mas confortavel e por causa do horario não havia ninguém, apenas eu e aquele belo par de olhos que me encantava cada vez mais.

― Aquele dia, no primeiro encontro, por que me levou lá para fora? ― A pergunta dela me pegou de surpresa, talvez a minha resenha sobre o filme não estava sendo boa.

― Não sei, queria me focar mais em você.
― Queria me beijar?
― Talvez, não era o objetivo principal da noite.
― E qual era o objetivo principal?
― Ser alguém capaz de lhe dá uma boa noite.
― Conseguiu. ― Revelou dando um sorriso que me agradou.
― Resultado melhor que um simples beijo.
― Sim, mas eu também queria lhe beijar.
― Então por que não foi lá fora?
― Você podia ter me beijado em qualquer lugar.
― Claro, mas não havia o clima perfeito.
― Não era para esperar, nem sempre precisamos dele.
― Só quando algo é realmente importante.
― Era realmente importante o beijo?
― Não mais que continuar lhe vendo.
― Mas assim o desejo só aumentaria.
― Sim, juntamente com a certeza que a valeu a pena esperar.
― Realmente, acho que teria seria meio atrapalhado e estranho. ― Não pareceu concordar muito, até mesmo por não saber a sua definição de estranho e atrapalhado.

― Teria sido perfeito, sem dúvida, mas não tanto quanto se tivesse sido no segundo encontro ou no terceiro.
― E agora no quarto, não seria?
― Agora, no mínimo um beijo e um quinto encontro.
― E no máximo?
― Seu coração.
― E se não tiver nada de nada?
― Se eu não tivesse nada, você não estaria aqui.
― Eu posso ir embora agora se for o caso. ― Ameaçou sair da mesa. A essa altura já tinhamos terminado o lanche e como se paga antes, em tese já estava livre.

― Claro que pode, assim como eu já poderia ter lhe beijado.
― E porque não irei fazer?
― Justamente porque quer, mas tem dúvidas se é certo.
― Você sempre torna tudo tão profundo?
― É o meu defeito. Já tentei viver de forma superficial, não deu certo.
― Parece simples, por que não deu certo?
― Simplesmente não podemos fugir de quem somos.
― E quem você é?
― Nesse momento?
― Sim...
― Alguém que espera ser algo para você.
― Algo como o que?
― Apenas algo que você sinta feliz de ter por perto.
― Ser qualquer coisa serve?
― Você não é do tipo que mantém qualquer coisa ao seu lado e nem eu do tipo que é qualquer coisa.
― Por que eu?
― Não tem explicação, apenas acontece, mas de alguma forma você me fez sentir algo diferente, algo que ao te olhar me faz pensar que vale a pena tê-la de forma especial.
― E o que seria me ter de forma especial?
― Posso ser um mero contato, um amigo ou alguém especial em sua vida.
― Amigos são especiais.
― Sim, muito especiais, mas nunca da forma que precisamos.
― E qual é?
― A que você quer ser e ter.
― Vamos continuar no mistério?
― Vamos ter o nosso quinto encontro?
― Sim.

Falamos muito, isso é a mais pura verdade. Mas sempre achei muito vazio o beijo por si só, investir energias e momentos em alguém que não pudesse passar de um encontro, o momento preenche o vazio, o beijo mata a vontade, mas a pessoa, o sentimento, a vontade, a perspectiva, a determinação e a certeza de enfrentar o sim faz do beijo algo completamente perfeito.

Na verdade não havia muito tempo desde que havia beijado alguém, algo em torno de seis meses, mas não é o tempo em dias que determina algo, os encontros passados foram o tempo necessário para que um beijo pudesse ser perfeito e único novamente, para que houvesse o medo em beijar novamente de querer fazer tudo da forma correta.

Depois de um tempo caminhando, encontramos uma praça pequena, bonita e atraente, sentamos para conversar mais um pouco.

― Posso lhe dizer uma coisa?
― Sim. ― Respondeu de forma radiante.

Segurei sua mão para que levantasse, aproximee meus lábios dos dela, não houve pedido, mas havia uma confirmação, poderia beijar, por um lado sem medo, por outro com vários medos infantis que tornava tudo mais emocionante.
Uma pausa, uma troca de olhar, um pedido de desculpa pelo deslize e assim o tempo passou. Um beijo, dois corpos, corações onde os cacos estavam voltando ao normal de forma mágica e fisicamente impecável.

O celular já estava tocando há alguns minutos, por incrível que pareça ela o estava ignorando, de alguma forma fiz algo certo.

Quando não dava mais para esperar, atendeu, falou com seu pai. Ao desligar o telefone lhe dei um último beijo singelo que durou o suficiente para deixar claro o quanto queria mais e ela afirmou ao me puxar novamente para a sua despedida. Não foi apenas um beijo. Foi um entrelace de almas. Duas almas que queriam apenas algo especial, mesmo que beijar seja algo banal nos tempos modernos. Banal, mas essencial, é pelo beijo que decidimos.

― Você não disse o que queria.
― Claro que disse, apenas usei uma forma não verbal.

Ela sorriu e o brilho de seus olhos tornou tudo mais perfeito. Peguei em sua mão e seguimos até o ponto, esperamos pouco até seu pai aparecer. Um abraço final seguido de um “Nos falamos daqui a pouco”.

Cada corpo seguiu seu caminho, mas um pouco de ambos permaneceu e muito de ambos ainda chegaria.

domingo, 22 de abril de 2012

ALMOÇO DE SÁBADO


                                                         




ALMOÇO DE SÁBADO




            --- Olha o arroz no fooooogo!!!
            --- Repara se o macarrão tá no ponto!
            E é aquela confusão de gente na cozinha e nos quartos. E passa pano, arruma pratos, lava panela uns afazeres sem fim!
            --- As camas tão arrumadas!?
            E a criançada brincando prá e lá e prá cá, sem nem se importar com nada. Só diversão, pé no chão, canela suja, mão melada de tinta e o cabelo já preguento. A família reunida pais e mães, as tias velhas que só saem de casa nesses dias, a primalhada, a avó que grita com todo mundo...
            --- Num quer uma geladinha não cumpadi........?
            Cheiros deliciosos que vem da cozinha, cheiros de mistérios que só os anos de experiência ao pé do fogareiro no interior podem trazer. Mistérios que a sábia avó e a tia sorridente não revelam por nada nesse mundo. São queijos, quiabos, maxixes, feijão verde, carne de sol, pimenta e todo tipo de guloseima espalhadas pela mesa que nem se pode imaginar no que irão se transformar. A cozinha é o lugar de maior movimento na casa, com tantas mãos trabalhando em maravilhas pra gente se empanturrar ao meio dia. Meio dia...?! Meio dia nada, para tantas delícias ficarem prontas haja tempo!! Lá pela uma da tarde que se come por aqui, enquanto isso a gente fica beliscando o que tá pronto e levando cascudo por conta disso.
            --- Ei menina larga isso! E tome palmada!
            Mas quem diz que se aquetam?! Lá estão elas de novo, fazendo a mesma coisa. A mais velha que comanda a brincadeira, fazendo as coitadas das mais novas de bobas. Todas já descalças e com o pé vermelhos do chão de piçarra, o cabelo desgrenhado e um belo “colar de pérolas negras” no pescoço. A pequetucha, que num prende o emaranhados dos cachos de forma alguma, fica seguindo as outras tentando acompanhar suas estripulias. Mas quase sempre fica para trás. A mais velha com seus longos cabelos negros e sua tez da mesma cor vai ditando as regras, como uma pequena general, enquanto a do meio, galega e gorducha e a novinha morena e magrela vão à seguindo. E lá se vão elas, em fila, o trio parada-dura em busca de mais aventuras. Isso é claro, antes tendo deixado uma pequena zona de guerra no meio da sala.
            --- Abre aqui o portãaaaaaaaaao! Pensei que num tinha era ninguém aqui! Bom dia meu povo. E lá se vem mais um tia velha com seu batom carmim e cabelo tingido e com seu “namorido” acompanhando atrás. Dá beijinho, abracinho e a “bença”. Ela passa logo pra cozinha pra ajudar as outras que lá já estão.
            --- Faltou água! Cozinha sem água não dá certo! Olha o tanto de louça, rum, cuida cuida com essa água! E corre que corre pra ligar bomba, pra puxar água no balde, que sai respingando na casa, que sai melando tudo. Os homens vão lá cuidar disso.
            Bomba ligada, problema resolvido.
            --- Eu vou comprar um desses “negocin” pra mim, um “notebuka”. Pra olhar os “broguis”. E a tia de queixo de duplo e cara rosada não perde a oportunidade de fazer pilheria.
            --- Ver os “broguis”!? Coloca um espelho atrás de ti que tu vê os “broguis”!!!! O teu “brogui”! Todos se riem da brincadeira, com dentes jovens, velhos, branquinhos ou amarelados.
            A movimentação em torno da mesa começa. Tortas, lasanhas, arroz com feijão, cariru,  saladas coloridas, sem falar na galinha caipira no ponto. Muita confusão para se servirem, é gente demais e mesa de menos.
            --- Essa torta é de que?
            --- Ainda tem arroz?
            --- Francisca coloca mais caldo na panela!!
            --- Quem bebeu meu refrigerante?
            --- Mãaaeeeh ela tá mexendo na minha comida!
            --- Eita que esse pirão tá bom demais!
            Só o estalar de línguas e bater de talheres nesse momento, ninguém fala nada. Apenas mastigam.
                                                                       (…) (…) (…)
            --- Tem a sobremesa minha gente!
            --- Qual?
            --- É pavê.
            --- Ouxi! E é só pa vê num é pa cumê não?!
            O velho trocadilho que passam-se os anos mas ao fim todos ainda riem. A muvuca vai diminuindo e todos vão se aquetando em alguma cadeira velha de espaguete, num sofá estampado ou se escorando nas paredes pra jogar uma conversa fora e “sentar” a comida na barriga. Porque segundo a grande matriarca da casa, a vovó, tem que ficar queto depois que come, se não da “fartiu”. Se ela diz, tá dito. Um palito no canto da boca e um dedin de cerveja no ex-copo de extrato de tomate.
                                                                       (…) (…) (…)
            Ao que no fim de uns minutos todos vão se libertando da letargia do pós-almoço e se aprumando para irem para suas casas. Cada um com um depósito de plástico na mão (ou uma lata de manteiga vazia, também serve) levando um pouco do que sobrou do banquete de mais cedo, pra não ter que fazer janta mais tarde. Isso sem antes a mulherada trocar fuxicos na cozinha enquanto lavavam a louça. Beijinhos, despedidas e benção para os mais velhos.
            --- No outro final de semana é lá em casa.
            --- Cumpadi a gente vai assistir aquele joguinho né?
            --- A bença madrinha.
            --- Pega a sacola com os ossos pro cachorro!
            --- Até minha gente.
            E todos vão pegando o caminho de suas devidas casas, devagar e de barrigas cheias. Depois de uma semana chata, cansativa e tediosa, essa foi a hora de esquecer-se de todos os problemas e ter um momento de felicidade simples e plena. Um felicidade que acalma e acalenta. Agora é tirar um cochilinho e tentar não pensar na outra semana chata, cansativa e tediosa que estar por vir.
            Mas agora só quero saber é de um sonhinho... e do resto de pavê que deixei bem escondidinho no fundo da geladeira. Meu resquício de lembrança desse dia.

(Doda Pereira 21/04/2012)

domingo, 15 de abril de 2012

Sobre crescer II



Sobre crescer II




Todos felizes e cantando, pessoas perfeitas iguais e diferentes a sua forma. Juntos de mim. Eu rodeada de todos. E só, era como me sentia. Me despedi de meus amigos com um sorriso. Que no momento seguinte se tornava um rosto triste e envelhecido. A beira das lágrimas. E sempre com aquele amigo à te observar. Aquele que sabe que algo não está bem. E você fingindo descaradamente.
Sorrisos.
Roupas.
Maquiagem.
Sapatos. Tudo máscaras e armaduras que usamos para fingir e esconder seja lá o que estamos sentindo. Armaduras do dia a dia.
Esperava meu ônibus. Tinha um conhecido lá, cumprimentei como manda a etiqueta. Mas na verdade não queria falar com ninguém. Rapidamente seu ônibus chegou. Era o mesmo meu. Mas deixei passar. Não queria companhia. Queria ficar só.
Comprei cigarros para quando chegasse em casa me entregasse a depressão. O chocolate faria o complemento, seria a cereja do bolo, para aquela cena típica de filme água com açúcar da garota no fundo do poço. Só faltou o sorvete.
 Meu ônibus chegou. Havia uma família no fundo do ônibus junto comigo. Perceptivelmente modesta, muitas crianças, roupas simples, cabelos mal-cuidados. Um dos pequenos vinha com um guaraná na mão, e motava-se que aquilo lhe bastava. Todos simples e claramente com pouco dinheiro, mas todos felizes. Sorrisos sinceros e abertos. Sorrisos já amarelados e falhos pela falta de um tratamento dentário que, ao contrário de mim, eles não tiveram oportunidade de desfrutar. A mulher derrubou água em todos com o solavanco do trânsito e todos se riam disso.
E eu ali querendo chorar.
Eles com tão pouco. Eu com tudo. Casa, roupas, comida, estudos, pessoas maravilhosas ao meu lado. Mas ainda assim, me sentindo triste. Uma tristeza que nunca vou saber de onde vem. Sendo incapaz de sorrir verdadeiramente.
Ficava me perguntando o porquê de tudo aquilo, e não achava respostas. Só mais perguntas. Mesmo rodeada por todos e tantos, me sentia só e alheia aquilo tudo.
Lágrimas nos olhos.
Mas porque chorar? Me perguntava incessantemente e não tinha uma sombra de resposta. Não tinha motivos. Estava tudo perfeito, em ordem, em simetria. Trabalho, escola, amigos, tudo ok. Mas mesmo assim. Não me sentia verdadeiramente ali na maioria do tempo. Poucos eram o momentos que realmente me preenchia de mundo e me sentia plena e feliz com deveria ser.
Vinha pensando em tantas coisas. E ao mesmo tempo em nada. Era só uma avalanche de coisas desconexas. A principal coisa era, chorar ou não chorar. E ia adiando a decisão pelo simples fato de não saber o motivo para chorar. Era só uma vontade inexplicável.
Ficava observando as pessoas que vinham no ônibus. Pais, mães, trabalhadores, estudantes. Só para passar o tempo e me concentrar em algo que não fosse eu mesma. Chegou minha hora de descer. Minha vontade era rodar eternamente naquela rota e me perder em algum lugar. Minha vontade era sair correndo desesperadamente para um lugar desconhecido. Mas fiz apenas pegar meu caminho. Lancei um último olhar para a família. O casal se abraçava e se acariciava de uma forma tão simples tão sem pudores, só amor.
Desci. Ruas. Pessoas. Um bêbado e sua bicicleta, sendo equilibrista. Igrejas. Casas. Árvores. E escadas e mais escadas. Lágrimas. Forçadas por não ter mais forças para nada. Cigarros seguidos e finitos que não me traziam conforto. Apenas faziam o tempo passar.
Como posso estar rodeada de pessoas e ainda assim me sentir só. Ter tudo e sentir que na verdade não tenho nada. As vezes era mais simples estar no seu mundo fantasioso de amores, perfeição e castelos, do que tentar sobreviver no caos que se criou a sua volta. Fantasias maleáveis, modificáveis se algo incomodasse. Se algo desse errado era só criar outro mundo. Na realidade de osso, isso não me é possível.
 Não sei mais o que querer ou fazer. Ninguém pode fazer nada por mim. Posso apenas viver e tentar saber o que é isso. Esperar que tudo passe.
E espero que passe.
(Doda Pereira 15/04/2012)

O FILME

Sons de sirenes acordavam a madrugada fria daquele dia.

Ouço ao longe a marcha dos soltados que vinham em batalhão. Mas ainda era um som distante...

As pessoas correm, procuram escapar ao inimigo infalível: a guerra.

O som da marcha está mais próximo. No campo, parecíamos caças a fugir do predador.

Escuro. Não vejo mais meus conhecidos, são todos vultos agitados em busca do melhor caminho para a salvação.

Eles estão chegando! Rápido, corra. Não conseguia, minhas pernas estavam paralisadas. Só tenho reação como mera observadora.

Agora são tiros ecoando no espaço escuro.

Vem-me recordações dessa manhã como uma visão: a cidade é só cinzas. O céu está cinza: é inverno, e faz muito frio e o frio é cinza. As construções são meros montes de concreto cinzas e ainda em chamas - só ficará cinzas. Os corpos carbonizados: cinzas. O futuro: uma nuvem cinza.

Eles chegaram. Procurei agarrar-me ao muro, tentando pular para a outra área ,sendo mais fácil fugir.

As cenas estão em câmera lenta: tudo muito devagar.

São monstros humanos trajando uniformes cinzas e botas coturnos pretas.

Com algum esforço consigo pular o muro, agora e só correr. E corri meio mundo, não sei por quanto tempo. Num esforço de continuar vivendo.

Derrepente, me dei conta que estava indo em direção ao mesmo lugar que havia saído. Mas como? Eu havia saído daquele lugar e agora estou indo em direção ao mesmo? Indaguei comigo mesmo. Não sei o que aconteceu, só sei que aqui estou novamente.

Negro. A cidade em ruínas só era escuridão. Me dei contar que estava sozinha. Onde eles estão? Olhei para cima, para o lado onde estava do que restou de uma construção, estava coberta de uma poeira negra . Olhei novamente e, pareceu-me que havia alguem me olhando. Percebi que eram vultos.

Senti que alguém me tocava: era minha mãe. Estávamos novamente no local do começo da história. Olhei ao redor procurando os soldados. Procurando escutar as sirenes e os tiros. Nada.

Estávamos na sala do cinema, o filme havia acabado.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A mulher da madrugada



Ao me levantar da cama, me olho no espelho e no espelho me perco. Minha barba mal feita, minhas olheiras bem definidas e meu hálito horrível.
            Ao acordar de madrugada, fico a andar pelo quarto, a insônia me persegue, mas para me distrair um pouco, vou a janela ver as pessoas andando na rua da madrugada.
            Do outro lado da calçada tinha uma garota, bonita, cabelos grandes e negros, o seu jeito era meigo e sua feição me encantou. E ao olha-la me lembrei do meu grande amor, que me encantou no primeiro e devassador olhar. As duas eram lindas. A mulher atravessou a rua e foi para minha calçada, até o seu jeito de andar era parecido, rebolava quando andava, encantava os diversos olhos que ali ficavam presos a ela. Era linda. Na calçada cheia de homens, ela não caia no papo deles, era esperta, já se notava pelo seu jeito meio malandro. Da janela me esforcei o máximo possível para ouvir a voz dela, e que voz linda essa que ouvi, seria eu capaz de descer e rouba-la para mim! Mas por ironia do destino o meu novíssimo amor era barato demais, quando parou um carro, ela se vendeu para um rapaz, e foi com ele por alguns trocados. Depois disso foi dormir e esquecer as breves ilusões dessa vida.

Lucas Castelo

terça-feira, 27 de março de 2012

Transmissão


Chorava. Chorava muito. Lágrimas compulsivas e desorientadas, misto de raiva e frustração. Tentava, em vão, golpear o meu corpo, murros de mãos fechadas escapavam ao ar, sem direção. Não fiz esforço em segurar-lhe os pulsos; colei meu corpo junto, num abraço terno. Alisei-lhe os cabelos desgrenhados, mas lindos, que escorriam pelas costas. "Vai ficar tudo bem; se acalme!". Demorava a acreditar. Não era possível: tanta convivência juntos, tantas besteiras compartilhadas, e aquele dia-a-dia passaria a ser o antes. "Temos mais memórias do que perspectivas. Guardemos tudo aquilo que foi bom". E eu colocava nos braços aquela que se fazia de forte, de doida, de durona, mas queria apenas alguém que a reconfortasse por um instante. Cessadas aquelas lágrimas, a tremedeira espásmica de carne em convulsão, o choro caiu automático do meu corpo. Só caiu, por um bom tempo. Em seguida, mãos no rosto, língua passeando pelos lábios salgados e, igualmente, ressequidos, baixei a cabeça, respirei fundo e, ato contínuo, ergui os olhos rentes aos dela e falei: "É o que temos pra hoje; prosseguir". Abracei-a com mais força, afastando-me de súbito, e acenei já de longe. É, sua linda: chegou a hora de passar a bola.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Transfigura



Partir, mudar, crescer. Processo difícil e contínuo de viver a vida todo dia, um após o outro. Pessoas que se vão, pessoas que nunca mais vêm, você que fica. Sorri o sorriso dos outros como se fosse o seu. Encena junto com eles o prazer de estar, o prazer de tentar, uma vez mais, se espalhar entre tod@s. É, velho amigo, permitir-se: ainda resta muito o que-fazer.