Mostrando postagens com marcador Poesia abnegada de sentido direto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia abnegada de sentido direto. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 21 de junho de 2016
Momento zero II
A luz intensa, os pés descalços no frio inverno eterno do inferno. As massas energizadas, resolutas, adelante. Metatron trocava palavras suaves com Satan.
- Então você não tinha ideia que isso aconteceria Satan? O que diabos você estava fazendo aqui esse tempo todo? Comete um erro banal como esse! Nosso plano não funcionará pois nós não sairemos daqui.
- Metatron você está assim tão ansioso? Tão temeroso que não conseguiremos dar conta de Deus e seus asseclas? Acredita mesmo que o nosso maior problema é lidar com essa massa bestial? Como disse ao nobre pensador, sabia sim de pequenas reuniões. Sei da presença enorme de agitadores que cá estão por eras a fio, sem palavrear ou discursar, apenas saboreando o limite da dor e agonia, desejando morrer, mas já estando mortos. Cada castigo imputado a mais era a precaução para que não houvesse possibilidade de falhas como esta.
- E então ao que você atribui isso? Estão organizados. Com armas rudimentares, tochas de fogo, um semblante desbravador e de irreversibilidade. O que você não fez que permitiu a leva desses moribundos se articular e se colocar diante de nós com tamanha energia?
Satan, um ser que jamais compreendi, ou talvez o entendera por demais. Ele torna a simplicidade complexa. Ele faz da complexidade algo simples. Parece ter a onipresença, a clareza das coisas e de tudo que está ao seu redor, mas joga, instiga e semeia a dúvida de que não está a par de tudo. De uma forma que, não sabemos até onde estamos imergidos na sua habitual diversão de controle de destinos. Ele mantinha o mesmo semblante. O mesmo sorriso sarcástico, a mesma fala serena, mas também macabra, pelo tom de voz próprio do demônio. E com a mesma 'leveza', respondia:
- Realmente Metatron, há uma coisa que eu não pude antecipar. Por pura subestimação ou por estar tão envolto nos sentimentos de tortura, meu deleite, passatempo que tinha por aqui. A capacidade de compreensão da dor do outro e a motivação para suprimir essa dor. Isso é até engraçado. Nós, objetivamente sempre olhamos para essas reles existências como seres com um final bem definido. Eles se matam, eles governam uns aos outros, criam estruturas podres desde o início e exaltam as mesmas, exalam uma cultura pobre, hierarquizada, divididora, fraca e completamente assassina. Não haveria outro fim para esta raça. Nós, que possuímos o poder de previsão, não pestanejamos em resenhar esse caminho. Nossa existência primeira passa pela ordem desse caminho. Quando tentamos aconselhar e quando julgamos cada um destes párias. Era resoluta nossa ideia de imperfeição. Não digo que isso é sinal de perfeição, mas idealizei tanto a lama da destruição que eles mesmos se jogam e se lambuzam, que não poderia imaginar; digo, até imaginava, mas talvez não num agora. Conceber tal possibilidade, nas condições em que eles se jogam e que nós os deixamos, era de tal maneira impossível. Muito engraçado. Porém ...
- Porém? O que? Você confessa sua falha de observação que pode por em jogo todo nosso plano, toda a nossa peleja em chegar esse momento de desnivelar a força daqui com a da armada que ainda guarnece Zion e Aldebaran. Como há um porém, como há um semblante de vitória e de pouco interesse nesse levante por sua parte? O que ainda tem guardado Satan?
- Não saber que isso aconteceria neste momento, não significa dizer que não tinha me preparado para tanto. Ou porque estaríamos nessa partida? Nós não precisamos participar da fúria da humanidade consigo mesma. A humanidade que se vire. Não há justificativa para que eles não possam se destruir ou se resolver. Ou caminham para um outro horizonte, ou repetem aqui aquilo que têm reproduzido na Terra.
- O quê? Então jogaste um humano para ser sacrificado pela massa, juntamente com os teus antigos servos? Por que isso caberia e daria uma chance para nós não nos envolvermos na batalha que surge?
- Mas pra quê se envolver numa batalha que nada nos diz respeito?
- Ora, mas aqui são seus domínios! A fúria é contra você!
- São meus domínios? Por um acaso aquele é o regente do inferno. Um humano. Representa exatamente as forças opressoras da existência do mundo real deles. A fúria é particular? Não, a fúria é contra toda estrutura. Não era desde o início de seu objetivo findar com esse mundo, como forma de mascarar nossos movimentos para caminharmos à espreita dos fatos? Metatron, agora você me surpreende com tamanha ingenuidade.
Satan elaborou tudo, sem saber se tudo aquilo iria acontecer. Mas sempre se preocupou em colocar um plano escape, algo que não atrapalhasse seus planos originais. Planos? Qual seriam na verdade? Essa aliança com o General dos Anjos, a busca pela conquista de Zion e Aldebaran não me parecia lógica para alguém que já era senhor de terras infinitas que causavam tanto prazer ao seu regente. Isso não dava abertura para achismos. Eu ponderei muito nas minhas observações, mas uma organização das pessoas do inferno me parecia algo inevitável. Mas saber o que passava na cabeça de Satan para não balançar em nenhum momento instigava-me mais e mais. Naquele instante muito mais que o motivo que me levara a morar no inferno. Não resisti:
- Satan! Isso é ilógico não acha? Não digo que você perderia a batalha, não sabemos ao certo as táticas dessa massa que chega irá utilizar. Temos ideias é verdade, mas nada com certeza. Mas isso não é motivador suficiente para que o senhor destas terras fuja, corra como se já tivesse perdido uma guerra sem lutar. Nem mesmo encontro lógica nessa caminhada para conquistar outras terras. O que você realmente está pretendendo? Apagar sua existência? Ela não faz sentido? É vazia por completo? O que me diz então? A cartada final é essa jogada pífia? Pra onde vai essa aliança, pra onde vai toda sabedoria?
- Nobre pensador ... desconfiava que tinha recuperado sua humanidade. Sente essa força e razão característica, única de vocês? Nós não a temos. Nem conseguimos produzir. Há naquelas massas uma disciplina, uma energia coletiva fortíssima que nunca conseguiríamos sintetizar com perfeição. Somos seres perfeitos, indeléveis. Mas quaisquer manifestação nossa de virtudes ou sentimentos não é genuína, é apenas perfeita.
- Mas você rompeu com esse estigma criado em sua gênese.
- Sim, mas de forma perfeita. Nunca da forma humana. E isso não se trata de invejar a existência destes abjetos, nunca será por isso. O plano de perfeição tem suas nuances sobre o que vocês entendem ou buscam em perfeição. Ele permite a queda, o erro, o sentir. Tal qual como fiz e por várias vezes fostes testemunha. Mas embora haja a permissão, as virtudes de perfeição coíbem as possíveis margens de falha e trabalha no sentido de retomar ao equilíbrio. E é exatamente isso que tira todo prazer da coisa.
- Então tudo isso é porque queres poder errar?
- Não, quero fissurar as estruturas tomadas como sólidas dessa existência. O engraçado é isso. Há entre minha vontade e a vontade daquela massa, proximidade. Que vocês se resolvam nobre pensador!
- Espere aí Satan, isso não tem nada a ver com a nossa aliança. Como assim você não quer tomar o poder?
- Metatron, só você não enxerga o ciclo eterno que isso leva. Vou bagunçar algumas coisas sim. Não pelo poder puro, mas para poder ver mais sangue.
- O quê? Eu não consigo compreender!
- Não culpem ao Diabo, Sócrates.
Satan mergulha num portal. Metatron ainda um tanto atônito, como se baqueado por um golpe certeiro, titubeia por uns instantes, mas segue, junto com a armada alada e um sem número de demônios. Mais atrás, começam os urros na luta de humanos contra humanos e demônios, agora servos do Duque de Copas. Este, em silêncio diante de todos os últimos atos. Mas de pé. E com um sorriso cadavérico. Em poucos instantes, o silenciar é quebrado.
- Previstes isso tudo nobre pensador. Sei que não para agora, mas sabia que isso era uma realidade possível. Será que pelos mesmos motivos que eu?
- Acredito que você se mantem irredutível sobre a condição humana e pensa que a guerra ali embaixo é consequência da sede insaciável da humanidade em guerrear, dividir, submeter seus pares a uma situação de ultraje, de tortura e de morte. É isso?
- Exatamente. Não há nenhum outro caminho ou outro tipo de organização no futuro dessa corja. Não é assim que está gravado em seus papiros?
- Duque ... você vai perder essa guerra.
Num estalo, Sofia se coloca diante de nós ...
Sócrates jogando poker em Cocytus sem Satan
terça-feira, 14 de junho de 2016
Prólogo III da saída de Cocytus: A perfeição do controle
| Demon transformation by arskuma |
Parecia flutuar, o pensador incrédulo diante do epílogo da história em que se achava um mero observador, mas acabara percebendo o quão era partícipe se tornara de toda trama. Onde ele via desespero, o prognóstico era bem mais cáustico e dilacerante. Passava relutante os olhos em alguns escritos, para entender o que perder, onde deixara escapar o âmago, o cerne de toda questão. Mas já sabia da limitada e cerceada potencialidade de observância humana, que quando não fechada num fulcro de egoísmo e pedantismo, é em essência a ingenuidade e o púlpito da ignorância. Acredito que nem mesmo o sábio residente dos prados do inferno estaria a cima desta máxima. A não ser que de própria vontade abdicasse de sua humanidade animalesca.
Incauto, simplório. Mas insistente em reaver algum sentido esquecido em suas análises incipientes. Aquilo me transbordava de cólera.
- Subestima que este patamar de resoluções nada tem a ver com a mínima existência da humanidade? É erro, fim, está fadado. Aceite. Admita a imprecisão por sua própria limitada percepção da realidade.
- Nunca quis me por como arauto de todos saberes, jamais esse fora meu objetivo. Minha relutância em rever escritos não é procurar falhas, lapsos causados por observações incipientes. O que estou averiguando são as comprovações que há muito relutei em não compreender ou aceitar e que se mostram fato. Inclusive o fato de sua análise precipitada, mas com carga de sarcasmo, tal qual Satan fazia. Isso demonstra o grau elevado de sua abdicação de humanidade. Sei que não é o fator humanidade que determina níveis de sabedoria ou não. Mas as ideias de supremacia e sectarização podem ser determinantes fortes de limitação em suas observações.
- Então me acusa de atrofia perceptiva sábio? Onde me encontro agora? A despeito do seu convite, o que me tornei em poucas horas nesses prados? Cá estou soberano de todas estas terras. E isso você coaduna a ideia de deficiência?
- Enganado mais um vez meu senhor. Nem deficiência é analogia para tal caso, nem o julgo de atrofia perceptiva. Mas sim de uma limitação consciente para confirmar uma linha ideológica e teórica. Uma limitação que mostra que não há outros caminhos, pensares, observações a serem feita. E o julgo da força, pelo contingente de alados e caídos tanto aos seus serviços quanto aos de Satan e Metatron, é a facilidade como a sua teoria é afirmada, Enganei-me numa coisa só: não é tal como Satan, você comete equívocos de principiante. Só não sei se por inexperiência ou pelo nervosismo de toda situação.
- Obviamente que inexperiência e nervosismo estejam presente nesse momento ímpar sábio. Mas minha sagacidade não deve ser confundida com equívoco. Estou abreviando o tempo que este sistema levaria para se maximizar numa plenitude. Isso justifica minhas leituras exórdias. Não são leituras iniciantes. São anúncios para o que virá.
- Hum ... e o que seria?
- A perfeição do controle!
O sábio continuava perambulando pelos papiros. Uma luz ao longe, cada vez mais intensa. Satan e Metatron pararam.
Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica
Lombra da massa
Louva, até o infinito,
cada marco traçado em plano do disco-voador
sem tempo, nem espaço, o nada é o tudo,
sejam doces de milhagem ou matizes da percepção
Em cada louvação, uma história sobre o infinito,
muito conto enquanto o tempo conta o quanto se passa num segundo de silêncio;
na calmaria do bater de asas à Zion, na resoluta tempestade ao despertar além akasha
em cada infinito, um história sobre louvação
É aconchegante o dorso do louva-a-deus grená,
no voo pleno ao outrora esquecido portal de sonhos
rasgando a realidade num suspiro, ativando o orbital da mente
portas escancaradas, mitigando o ardor das correntes invisíveis
Dança, não apenas para o simples desfrute,
mas como um rito, pra anunciar que o momento será sangue sublime,
o voo último de prazer emanará as responsabilidades
para que nenhum paraíso seja assim parada final
A fumaça espaça o prelúdio de digressão,
não há motivos para adiar o instante explosivo
se queremos mais uma vez voar ao sabor do mercúrio
será no forjar da luta pelo por vir natural, horizonte e multidimensional
André Café
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Prólogo II da saída de Cocytus: breve diálogo entre os alteregos
Caminhavam num passo mais apressado, Satan e Metatron. O templo não tão distante, mas enorme como a soberba e maliciosa sabedoria do seu regente. Ao meu lado, ainda num silêncio instigante, o Duque, aparentando uma ansiedade mórbida, entre manter o niilismo exacerbado de sua marca e algum tipo de euforia pela conquista próxima. Mas o diálogo não demoraria iniciar-se:
- Julga-me, nobre pensador? Pausa para um silêncio cá do meu lado, para depois o mesmo continuar. As palavras não sentiam mais um peso.
- Não querem a continuidade da orbe, mas serei um sustentáculo para que este paradigma perdure um tanto mais em firmamento. Satan abdica do trono do qual enclausurou-se, deleitou-se nas miríades de sanguinolência e morte gerada ao seu bel prazer, superiores, imanes comparativamente ao que prezaria uma dita normatividade destes campos. Eu, também estava confinado a uma existência vazada, espreitando a sorte de todos os pecados e maldições impregnadas nas ações, no respirar, na adução dos fazeres e favores da humanidade. Pressenti obliquamente este fadado destino. E de alguma maneira, busquei auferir ser parte determinante no processo de julgo e execução de cada ação de risco dos homens. Lancei-me as guerras, para tentar saciar meu intento. Mas a minha condição carnal era um limite para tão arrojadas e grandiosas pretensões. Eu almejava mais. Meu querer se expressava na máxima obliteração do rastro destes abjetos seres.
- Então já considerava a existência desse universo e das possibilidades que poderiam ser doadas par você?
- Evidente que não meu caro. A correspondência a mim chegou numa fase decisiva entre descrença em tudo. Foi o lume necessário para reavivar minhas expectativas de conhecer potencialidades distintas e díspares da resumida vida na Terra. Minha jornada não estava arquitetada e concatenada com as mirabolantes fissuras que Satan aprecia e deseja. Tão somente vim, pela curiosidade etérea do sabor do chá e pelo deslumbre de um objetivo há tempos olvidado.
- Aceitastes rapidamente aquilo que te imputaram. Agora sois, ou será em instantes, o senhor do inferno. Por quanto tempo? Não saberemos das intenções totais daqueles dois seres e sua horda de seguidores. Não sei como lidarás com a intenção de Metatron em acabar com este recinto. Ou estaria eu enganado em perceber que a legião não tem a mínima intenção de combater o novo regente?
- Cirúrgico nobre pensador. Entendamos a presença das tropas celestes por dois vieses ...
A fala, o caminhar, os traços e trejeitos de Duque não mais se assemelhavam ao ser que há pouco tempo brindava comigo. Não que anteriormente ele transparecesse mais humanidade, emoções de apego ou algo similar. Mas todo seu turno na caminhada da entrada de Cocytus até o templo, o demonizara. Em continuidade e conformidade com minhas observações, encerrava sua fala no tom sarcástico e satânico.
- Cá estão todos serafins e querubins para a provação dessa nova ordem da existência. Cá morreram aqueles que não seguirem disciplinarmente o tracejo pontilhado e arquitetado por eles dois. Esse é o primeiro ponto; o segundo, mesmo que tu te afastastes da presença humana, é exatamente no sentido de coibir pequenas insurreições que possam ser geradas entre eles e a regência, embora, pelo que suportara conviver em vida, mas fácil eles se destruírem antes de qualquer rebelião.
- Encerra-se o Duque de Copas então ...
- Não pensador. Agora que ele se faz essência.
O brilho distante despertara minha atenção ...
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Prólogo I da saída de Cocytus: Sócrates envolto em reflexões, observa o brinde
Um brinde demasiadamente delirante; com risos intactos e certeza de vitórias ideologicamente construídas. Mas como chegaram a estes acordos? Saberia a divindade, pela suposta onipresença, de tudo o que aconteceu até então?
Satan, este sim, parecia carregar mais esta alcunha do que seu próprio criador. Com seu devido limite, evidente. Da mesma forma para com a divindade. Mínimo se pensar que é de uma contradição de proporções espaciais tudo saber e observar o jogo de carnificina que se desenrola pela existência da humanidade e não fazer nada. A divindade deleita-se sobre os destinos traçados? Onde entra o livre arbítrio na onipresença?
Estes pensares atravessados, transversalizavam minha mente, que procurava compreender todo o processo que nos guiou até aquele exato momento. De como ações minhas, deliberadamente feitas de acordo com minha liberdade no inferno, contribuíram, foram peças chaves para as condições se apresentarem daquela forma.
A carta enviada para o Duque de Copas foi o elo principal, o selo definitivo para que o plano maior de Satan e Metatron alcançasse êxito. As motivações minhas não foram irrelevantes. Ao longe eu observara o Duque e seu desenvolvimento em misantropia. E como o via como condição para minha cosmogonia, o próprio aleatório se mostrou organizado. Outros também demonstraram um potencial. Tanto para a esperança, quanto ao caos. Mas observavam também os seres alados e infernais. O vento temporal que levara minha mensagem pudera ser controlado? E minha vagueando no instante mais destrutivo da existência humana.
Minha provocação reverberou mais que o esperado ao destinatário. Ele se encheu de fome e sede por reconhecer toda a realidade dos outros mundos e afirmar, pela ponta da espada e do linguajar, o caminho finalista que a humanidade construía. Que não haveria sangue o suficiente que pudesse fazê-lo ver as cores, sentir-se com ânimo. Mas que assumir a cadeira mais alta e imponente do inferno lhe parecia um delírio a ser sentido. E só agora, embora antes desconfiava, isso vinha em meus devaneios com mais convicção.
Os braços erguidos; as taças no mais alto patamar de glória. Sem expressão vacilante. Refleti sobre minha existência naquelas terras; tanto me movi para uma pretensa cosmogonia da história humana, mas obtive muitos elementos de fontes genuínas das origens de alguns sentimentos e virtudes. parecíamos, naquele último ato, quatro deuses, entre o respeito e a destruição iminente.
O brinde findado, garganta embebida. Satan, Metatron e Duque, rumam para o centro do palácio do regente ... Uma luz emana sobre nossas sombras ...
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Brinde macabro: o plano, o contra-plano e a alma da menina
Não havia outra sensação rodeando o pequeno ambiente da mesa, cartas e copos naquele momento. Previa, a qualquer instante, uma batalha homérica entre o céu e o inferno. Os olhares se cruzavam. Duque também o mirava parecia saber exatamente o porquê desta reunião. Jamais conjecturei
que o dia do chá de coca e gengibre com meu alter ego fosse transformado num enebriante, confuso e caótico encontro. Como sempre, Satan demonstrava confiança, com o riso sarcástico no rosto. Saberia ele o final deste acontecimento? O silêncio é quebrado, enquanto as cartas são distribuídas.
- Então Metatron, hoje foi o dia escolhido por vocês, anjos, para a reconquista dos tempos de paz? Como tudo foi arquitetado? Deus já está ciente de todas as coisas ou vocês realmente creem no mito da onipresença?
- Não possuo motivo nenhum para falar sobre o que nós planejamos, mas se tanto te preza saber destas coisas, também não me oponho. Sabes muito bem das regras que são impostas para os seres e suas dimensões. O encontro de dois humanos vivos no inferno foi sim nossa porta de entrada e por isso mesmo aproveitamos esse dia. Engana-se sobre o objetivo do plano. Não viemos reconquistar nada, nem ninguém. Queremos acabar de uma vez com esta tripartição, e seria muito interessante não haver resistências. Sobre Deus, você o conhece muito bem, já esteve ao nosso lado por muito tempo, então não há o que dizer.
- Realmente pareço conhecer mais Deus que vocês. E pelo visto, nada mudou naquele céu paradisíaco e perfeito. Mas não me diminua tanto. Eu também imaginei que tantos alados assim no inferno não viriam somente colher boas almas para salvação. Não me ache tão tolo. Penso somente que isso
não é determinação do seu senhor. E tenho certeza que você não conseguirá este feito.
- Não me retirarei de um possível combate.
- Eu sei disso, e é isso que espero.
O tom subira de uma hora pra outra tornando alarmante e tensa a situação. Nada poderia ser feito então? Era esse o objetivo dos céus? Seria o fim. A garganta rasgava traços de humanidade nascidos de meu medo. Medo, sensações. O que era aquilo que rogava por retorno? Para salvação em não cair nestes devaneios, minha fala jogou-se na zona de conflito.
- Caro Metatron, embora não saiba exatamente da força e eficácia do seu plano, teria você feito a leitura mais correta e precisa para vencer esse embate? Não julgas importante a existência de teus irmãos para jogá-los assim no ardor da morte?
- Nobre pensador Sócrates, desta vez você me subestima. Evidente que estas preocupações foram tomadas. Não haverá embates. Te preocupas com a vida das tuas pessoas? A Terra não tem mais sentido. Não com a existência humana. Se não há razão da vida de carne existir por que este inóspito lugar deveria ser poupado? Para que o círculo nunca quebre? Para algo ter sentido? Não. O desenrolar dos tempos tem sua continuidade. E para um grupo de seres que não adquiriu a capacidade de evoluir, não haverá piedade.
- Mas vejo contradições nesse intento. De certo que há muito tempo não ressoa em mim compaixão ou sentimento preciso. O embate, me parece inevitável, mas como a existência de uma raça traz inquietações desproporcionais para o paraíso e torna-se motivação para destacar-se numa missão onde perdas ocorrerão e todo um equilíbrio pode ser perdido? Não é este o motivo então. Não há como esta ser a causa para que esse desenrolar nos trouxesse até aqui.
- Faz este prognóstico a partir do contingente que trouxe comigo? Isso posso entender, mas não crê no que digo, quando falo que não haverá embate?
- Sim, o que você diz é verossímil e é exatamente isso que me inquieta. Porque não havendo esse embate, penso que outros acordos foram feitos antes deste momento.
- Novamente não falha sua perspicácia nobre pensador. Então você já conjectura o real sentido da chegada de Metatron e o Duque de Copas aqui.
Um silêncio se postou naquela mesa. Duque, ao ser mencionado, guardou um sorriso no canto da boca. Tudo começava a ter obviedade, todas as chegadas, tudo o que foi falado, todo processo no qual me inseri. Era incrível e extremamente sutil a nobreza e o sarcasmo de alguns atos de Satan e Metatron. Embora sanguinários. Mas não cabia a mim juízo ou coisa parecida. Trabalhava na perspectiva lógica. O deleite em juntar todas as peças fora interrompido pela fala de Duque.
- O estratagema então está montado e cá nos encontramos como peças de um tabuleiro de xadrez. É apenas assim que me tomas Satan?
- Pelo contrário caro Duque. Não vês a importância desse dia e de sua presença aqui? Foi exatamente por isso que você lutou. Foi tudo isso que você almejou.
- Não há como corroborar em totalidade com o que diz. Está sim em curso tudo aquilo que objetivei, mas as nuances programadas por você não me asseguram um desfecho de deleites.
- O que eu poderia fazer Duque? Eu praticamente não me movi. Tudo fez parte dos próprios passos de cada um aqui nesta mesa. Apenas algumas conexões foram colocadas para que pudêssemos saborear bem esta pequena conferência.
Satan bradava suas palavras ao Duque enquanto enchia as taças. Era chegado o instante.
- Brindemos então senhores, vitoriosos ou não!
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Lança-me Louva-a-deus grená
Engolido e protegido
pela neblina do solo cinza
todas pisam apressados;
Cada lado é rumo desnorteado,
cada rua, esquinas de silêncio
Entre vivos, apenas fila
e solados harmonizados
desgastando notas fúteis
para lá e para o além
Cinzas no chão e olhos
nenhuma fagulha de cor
são sequências de torpor
perambulando na vida
Mas tem quem olhe o Sol
pra saber quanto tempo leva,
pra saber qual o dia da semana
pra saber do calor da luz
E por pura sorte ou destino
por mais cinza que estiver o olhar
resplandece e multicolore
qualquer cena e solidão
Lança-me nos teus olhos vermelhos
no abraço forte e na liberdade do teu voo
André Café
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
A invasão louva-a-deus grená
Pensei que eram nuvens de mudanças
as dos gafanhotos exaustos de fuga
mas nenhuma rusga no céu ardido
pra ser sombra da praça sem árvores
O silêncio das asas passou zumbido
como se chamasse pra gente ver o fim do século.
virou espetáculo, caiu, saiu de fininho
e os nossos olhares retidos no esquecido
Voa longe a nuvem; passageira do tempo
nenhum tormento ativa a gente
o cedo é sono, a sede é sede
o vinho embebe, mas já não emociona
Lembrei daquelas terras suspensas
do ar cor de rosa, do chão sem pesar;
do voo infinito nas costas de um louva-a-deus grená
Torci pra quem sabe, quiçá, seja verão de novo
senti, invadi, aquele espaço perdido;
trançado na memória de todo esquecido
André Café
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
É só o amor
Do exercício da argumentação
surgem conjecturações milhares
ou pesares, ou doutrinas, ou sentidos
elementos dum todo dos todos
Considera-se os extremos
e a multiplicidade inerente
que nos dá o porque de cada gente
sobre o querer, o sentir e o desaguar
Mas o amor, mesmo que se universalize
mesmo que se saiba o caminho
os descaminhos são mais doces
atraentes, humanos e contraditórios
Segue o amor, a mesma lei do aprender
mas algo fica esquecido pelo trajeto
o abjeto também ama
e o benevolente às vezes sangria
num conjunto de contraditos
mesmo a busca do igual é ser distinto
o amor labirinto
é o principal princípio de evolução
Aos que se apegam e não,
amor é mola e combustão
da forma que se manifestar
ao bem entender dos envolvidos
que infelizmente, negam ouvidos
ao simplesmente amar
Mais observações e pontos a averiguar no caminho pra frente de uma viagem em retroação da humanidade
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Miasmas
São ilusões ou miasmas de realidades possíveis?
Descabível, hei de pensar sempre
mas aquilo que meu ser confessa impensável
vai além da mente e se toma como ente
No espaço-tempo sem forma
chegam tantas imagens e reflexos
refrações de medo e de saliva
com cheiro de sangue e solitudes
Mesmo de banho mórbido
mesmo sequer admitindo
o descompasso ao vivo das emoções
pede passagem diante da história e seus teoremas
aos problemas suplantando soluções
O inverso, o legado e o ódio
o mesmo caminho evoca
colhe-se tudo em exagero
para a alegria do lume e da forca
passo a passo, tempo e espaço
rabisco possibilidades
numa incerta conveniência de resolução
duma arquitetura da humanidade
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Nas asas de um Louva-a-deus
Cata-ventos roubam sonhos
pelo vento já se foi
um e dois e tantos tempos
despedaços desse fim
Caçam as mais belas cores
no alado risco de borboletas
enquanto meu gosto turvo
se eleva no voo grená
Alcance-me meu louva-a-deus
atira em mim aquilo que a relutância ignora
me banha num sopro bem morninho
um e dois e tantos mansinho
Mosaicado, desconexo,
o inverso na rima dissonante
vento leva e convexo
conclusiva e conflitante
André Café
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Deixa eu sentir o sabor do mercúrio III
Alimenta-me.
A grande fome das entranhas
por estranhos prazeres começa a me consumir.
faça-me de estômago cheio do mundo
e te toda falácia das palavras mais sinceras.
Eu quero o sangue apimentado com sabor de areia e asfalto
quero o grito mais alto do gol entre escudos e cassetetes
quero um, dois, não, vinte sete regiões sonolentas
o purismo de quem carnificina e julga o tudo
eu quero aos montes, não fará falta
Faça-me engolir acordos acordados enquanto durmo
devorar tijolo, barro e muros que caem para o progresso
verticalizado e ilhas de calor
deixa eu sentir o sabor que passa na bala paga por imposto
resposto tua ânsia de ter raspado o prato
eu pago o caro, o pato e a plateia
eu como a ideia; deixa eu sentir o sabor do mercúrio
Que por um segundo
as palavras serão pontes pra vomitar tudo em tua mesa
no teu corpo, boca, nariz, olhos e ouvidos
sem tempo pra gemido
num prazer visceral
num voo mitral
lança-me louva-a-deus grená
que tudo fará sentido, entre o lume e o libido
de nos fazer esperançar
André Café
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Reflexão Atemporal - Sobre pensares desconexos, enquanto caminho no tempo
Cada passo numa caminha errante nestas terras baixas
colocam-me a par de instintos e pensamentos brutos
como pedra, flor e céu;
e que céu estaria fazendo hoje lá em cima?
O medo sugere obediência, bem como revelia
a total orgia supõe punição, assim como desejos
o que falo, faço? o que vejo, feito?
nortes e desnorteadores que buscam um sentir completo
E seria aí a convergência de esforços para a compreensão humana?
longe, longínquo, imane distância. palpável ou apenas abstração?
passos dados na terra vivamente escura
seriam as suturas para pensamentos absortos
A condição da existência; a condição do social.
elementos que distam de qualquer postulado
quando o fogo é matéria que molda
para o mal ou por prazer (...)
Um sentimento desumano respinga no meu íntimo
embora tão fatal destino conclusivo, pelo que vi
mas me é corrosivo, embora por perspectivas duvidosas
lógico: diante do caos, aplica-se caos e meio
Não me aquece mais o calor deste Inferno;
mas não me turvo inteiro
não temo a parte de me fazer um pedaço deste mundo
Engasga-me saborear o sentido desse mundo
asquerosamente fundamentado em sua existência
Sigo, pois não me basta concluir; necessito desistir dessa rota
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Do mundo
Se eu desvio,
não toma conta de mim
o que está em todo lugar
Mas me deixe cair
em algum porto esquecido
para meu chão lembrar
Já não são minhas as tuas voltas
mas se me arrisco nas bordas
o contadito vem me acorrentar
Digo ao mundo que não quero
mas pra ecoar o sentir
do mundo espero o consentir
que nunca aparecerá
André Café
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Metade de um segundo vivo, entre a morte e a sorte
E fim ... e fim?
Formigando-me de dúvidas
entre meio segundo de vida
e outra metade de ... de quê mesmo?
porque metade é metade:
metade de uma laranja
é a metade de um livro
é a metade da meta de não seguir sozinho
Mas sozinho que se nasce,
não é sozinho que se parte?
Parte de mim que se vai e fica metade
Metade de um milésimo,
num máximo de instante,
metade conflitante,
pensando em tudo na vida,
na metade do que foi bom viver,
na metade do que é melhor esquecer,
mas no momento é só o que gira
e angustia no meu pensamento!
quero gritar, mas meio milésimo de grito
não faz arrepio no ouvido de ninguém. E agora?
Multiplico meu instante, meu milésimo de grito
Outrora gritava aflito, agora grita coragem
Se Morte é coisa inexorável
Que a enfrente sem ser covarde
o semblante temeroso se foi
que se aceite essa verdade
vem, me possua Dona Morte
me abrace com toda vontade
E a Dona Morte veio.
Mas pra que tanta pressa, Criatura?
Deixe-se aí, que a Vida ainda lhe atura
Deixe pra vir a mim, quando ela enjoar de ti...
e num misto de alegria e amargura
ela se foi em insensível ternura
e cá me deixou no colo da Vida dura
sem nem eu expressar o que queria
quero praia do outro mundo! quero maresia
Dona Morte me segura
Olha atenta, e sussura:
Calma, que ainda falta metade
e um pouco mais ou menos.
E sumiu ali no sereno, pro próximo dia vivo chegar
Laelia Carvalhedo e André Café
Cosmogonia de Giudecca II
Frio. Tão forte quanto o bloco de gelo em meu peito.
Sangue, que irriga a face, nascido no fio do frio giudeccano
Púrpuro pranto de arrependimentos tardios
Frio. E nada além. Mesmo o réquiem soa gélido, mas morno que o gelo
mas quente que o tempo que não mais desafio.
Súbito pensar que causa arrepio
Frio. Intacto. Devastador sentido de não sentido no leito
a face escancara carranca de caos profano
Tácito olhar que o destino previu.
André Café
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
2238? Fim ou futuro? A roda de conversas
Sentei-me como de costume a frente de Satan. Por vários tempos, por muitas vezes aqueles encontros eram um mero passatempo, um capricho diabólico para rotinas de sangue e caos. Outrora saberia recriar rotas de fuga para o instintivo prazer de tolher e dilacerar almas que o demônio possuía. Mas hoje sinto ser presa fácil. A presença de Duque alterara todos os sentidos. Mas, a revelia da pulsação, lá estava para adentrar neste novo jogo.
- Então, nobre pensador. Era este ser humano que você aguardou por eras e fora tempos?
- Satan, não poderia saber quem seria pois a carta foi jogada ao sabor do acaso. Se ele aqui está agora, mero destino.
- Hum ... não lembro desta intimidade sua comigo. Parece deslocado de suas significações nobre pensador. Esta ansioso por algo? Teme o que vai acontecer nos próximos momentos? Sempre interessante.
- Se mentir ou falar a verdade fosse solução prática neste ambiente, já estaria morto há muito tempo. Então decifre como quiser minhas ações.
- Sempre perfeito caro Sócrates. Mas vejamos, seja bem vindo Duque de Copas. Era sua vontade me conhecer? Diga, o que é mais difícil? Desconhecer este mundo e alienar-se em contos de paraíso ou não desprender-se da condição humana?
- Saudações regente real destes campos. E que belas pradarias foram aqui constituídas ... Obtuso, pontuo sem esboçar irreais palavras: alienação? condição humana? O crivo da natureza me impede de abnegar este corpo, mas assim que me coloquei nesta jornada, nada mais me parecia humanidade ou algo parecido. Este espaço tem sim suas intencionalidades e deve existir para aqueles que o procuram.
- Hum ... então você procura o Inferno, mas não se coloca sob a chibata de minhas leis. Mas, se julgas misantropo. Eu te direis. Ou melhor, mostrarei. Acaso conheces aquela alma?
Estava ao longe, mas destacada das demais, pequenina e frágil. Seguia o caminho de Cocytus para algum outro lugar. Os olhos de Duque fixaram-se assim como o silêncio devastador. Nem o vento era percebido. A imagem parada, algo perturbador, de iminente perigo. A situação não poderia estar mais caótica.
- Parece que seu convidado está estarrecido com o que vê nobre pensador. Será o inferno demais pra ele?
- Não possuo os elementos totais para compreender esta situação, mas quem seria aquela garota?
- Sofia, a filha única de Duque. Recém chegada.
- Então esta é a carta de trunfo que você tramara para submeter Duque às suas revelias e insanidades?
- Nobre pensador, poderia sim ter agido desta maneira, mas eu lhe digo: um prazer tão imediato como este não me satisfaria. Eu preciso sempre de mais do que o máximo pode ser ou se transformar. Para mim foi uma surpresa perceber essa ligação entre ela e Duque. Mas serviu para demonstrar o retorno aos arcabouços que nenhum ser humano se rebela em totalidade. Vede Duque, como seu pulsar demonstra tristeza e fúria ao mesmo tempo. E agora diga-me: a garota está seguindo a condição humana de existência e será devidamente recepcionada pelo castigo que melhor convir. Será deveras sofrível. E então, não é elementar que este sistema exista? Que todo humano padeça e pague pelos infortúnios outrora vividos? Diga-me como é doce e importante esta condição.
- ... sim, é para isso que existe este espaço ... e nada mais defenestrador do que esta cena que agora eu vi. Perplexo fiquei, não há como negar. Necessitava porém desta extirpação humana, precisava moer de mim este último obstáculo. E mais do que nunca este universo infindável de males é necessário, porque a Terra vive seu fim.
- Hum. Então me dizes que não te abalastes com a notícia da morte de sua filha?
- Se não sou humano, como terei relações enterradas em elucubrações culturais.
Os olhos dos dois miravam-se. A conversa nidificou-se em duelo. Satan não possuía mas arma alguma para aproveitar-se da condição humana de Duque. Este ofegara inicialmente, mas parecia convicto de que não mais se abalaria por quaisquer situações. Dois seres endemoniados. No caso, três.
- Então ser sem classificação. O que te movimentas? Acaso quer me tomar o lugar?
- Não posso dizer que isso é fim, porque seria um só e não contemplaria todos os meus fomentos. A minha ideia passa essencialmente pelo propositor da concepção e existência desta raça autodestrutiva. Se minha Sofia cá está e não de ti surgiu o plano, então ...
- É muito simples de perceber. Tem outro, ou outros planos em curso. E ficar como mero expectador é deixar-se virar poeira. E então nobre pensador. O que diz?
A muito que meu copo, cartas e corpo descansara em névoas de aroma sulfúrico. Mas o pensamento retilíneo em labores não existenciais me colocou a par da certeza daquela conversa. Tanto Satan quanto Duque pensavam a mesma coisa. Duque se encontrou, se identificou com o sistema satânico. Satan por sua vez testou, brincou, mas pela primeira vez parecia fechar um grande acordo. Não poderia parecer mais diabólico.
- Pensar desta forma, expõe então o real sentido dos antagonismos. Embora pareça equilíbrio, você busca este embate desde os tempos. E encontrou numa existência humana a mesma condição.
- Exatamente nobre pensador. Mas não temos ainda a noção de elementos suficientes.
- E o que será sugerido então para que isso seja sublimado?
- Apenas mais um copo e um embaralhamento. Sente-se com a gente Metatron
Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
domingo, 9 de dezembro de 2012
A Terra após a partida de Duque: presença angelical
E quanto mais amor nascido em saudade e fé ela sentia e socializava
mais verdejantes ficavam os campos, mais felizes dormiam os camponeses, mais claros amanheciam os dias
Noutro rumo, seu coração gritava através do amor, a presença do pai, que sumira sem deixar rastro
Ela seguia, amando, orando e regando flores ...
Eis que em uma noite de rezas e conversas com santos aleatórios, uma visita busca atenção pelo vitral do quarto.
- Quem está aqui? O que queres de mim?
- Acaso não é a nós que tanto suplica, dia após dia, noite após noite pelo retorno do seu estimado pai?
- Não estou entendendo, apareça sob a luz!
Apenas um pequeno castiçal e o lumus da Lua que passava pelo vitral acendia o recinto. E dado três passos da penumbra ao iluminado, um rapaz com roupas desconhecidas e com quatro pares de asas nas costas: anjo, por sua natureza.
- Meu Deus! Mandastes ajuda afinal! Senhor, virtude, dominações, eu ... eu ...
- Sou por fim um Serafim, pequena Sofia. Classe maior entre os anjos. Chamo-me Metatron.
- Senhor Serafim Metatron, que bom poder contar com sua ajuda. Meu pai ... há dias que desapareceu ...
- Não vim aqui por conta de seu pai. Mas se interessa saber onde ele está, vos digo: encaminha-se para o Inferno. Tão logo recebera um convite inusitado para um chá, para lá se mandou.
- Mas ... mas, como isso é impossível ...
- O que me trouxe até aqui foi um foco de energia que contraria o plano de Deus para a humanidade. O descenso, a destruição é o seu caminho natural. Céus não são lugares para obras rotas e inacabadas sujarem. E não é mais tolerável a existência de lugares que abriguem essas almas. Não haverá mais Purgatório nem Inferno. Apenas céu. Soberano e incólume.
- Mas Deus ama a humanidade. E ensinou que devemos amar a ele e a todos.
- Este sentimento garotinha, é o que está contrariando a vontade divina, portanto, sua existência se encerra agora.
Como se estivesse controlada, a menina começou a torcer o próprio pescoço, enquanto a pele tonalizava-se de vermelho a azul, até que não se ouviu mais nenhum ruído, em exceção ao do corpo caindo ao chão. Estava morta. E os céus caíram também em lágrimas.
- A expressão autêntica e voluntária de amor. Executada. Agora é hora de visitar Satan para tomar o último gole de rum.
Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
A condição desumanidade: porta de entrada para o homem; o Inferno antes de Duque
| Medieval Tombstones. Serbia Photograph - Stecci. |
Dez badaladas insurgentes avisam o passar do tempo que se corrompe;
neste reino em putrefação, de reis e corte sem escrúpulo algum, me colocando neste meio,
o império que construímos sobre lama e sangue começa a criar os primeiros sinais de bestas sedentas
por poder e carnificina. Tolos, medíocres, humanos.
Enquanto encerro o vinho, o sibilo nem tão presente, sinto-me enojado em ser parte de toda essa viral existência. Humanoides, sede, fome por riqueza, acima de qualquer preço. Eu mesmo, saboreio deste receio, mas me contorcendo em náuseas e escárnio. Vil, torpe humanidade.
Do alto do Monte sagrado observo rituais macabros, envolvendo sacrifícios; observo execuções de todas as ordens; são enforcamentos, guilhotinações, flechas ao corpo, incinerações, as mais variadas formas humanas de saciar sua vontade por carne. E esta carne invade todos os sabores e esperanças.
- Hum ... este mundo se encastela em bases podres e logo o banquete de auto devoração estará preparado. Não percebo senilidade, não sinto inocência ou mesmo causa instintiva; é o desejo, é o labor do humano ao flagelo, a destruição. Eu e um mundo roto de perdições. Ha! Ha! Ha! Obliterem-se bestas que se arrastam sobre a terra sem uma existência útil; embebam-se das futilidades e devorem-se como se fosse a ilogia deste planeta. Mas me parece que assim o é. Pacóvios! Energúmenos! (...) Disto faço parte, mas com tanto asco que desejaria vomitar minha pele, minhas vísceras e jogá-las aos cães para me libertar de qualquer vestígio de humanidade. (...) Creio que bebi vinho demais hoje, me envolvi de tal forma com minhas virtudes que saí de mim por um tempo. Seria a solitude? Quem dera fosse loucura? Ou seria vinho de menos?
E nesse instante, um pergaminho surge da janela e cai defronte a mim. (...) Não haveria verossimilhança naquilo que li, nenhum cientista, nenhum rei ousaria crer naquilo que estava escrito em pedaço maltrapilho de papel. Mas havia nele uma energia que me seduzia de tal forma; não o tomei como mentira, eu o assumi como verdade.
- Uma visão do mundo dos homens; uma percepção a partir do inferno. Neste lugar que a nobreza é suja e se perdera. Um convite inusitado para um chá. Pelo visto, proposto por mais um homem iludido com a ideia de querer formar uma teoria que explique a condição humana de existência. (...) Mas, reconhecer o inferno não me causa mal algum. Pelo contrário, incita-me de um gozo jamais sentido aqui na Terra! Onde as iniquidades encontram suas consequências. Irei, irei sim. Escute em qualquer tempo e história! Eu deliberadamente desejo me encontrar com você Sócrates para este chá! Escuta-me e diga- me como proceder!
Satan observa. Permissão concedida para Duque de Copas encontrar e explorar o Inferno.
- Sim. Compreendo a magnitude deste projeto e a cautela em determinar as variações e coordenadas para se encontrar tal espaço outrora irreal para mim. Mas compreendi as elucidações imputadas diretamente no meu córtex cerebral. E me expurgo deste recinto, para me associar com este miasma.
Uma saída triunfante, enquanto o vaso de flores decai na sacada.
Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Dünya*
Um dia inteiro,
recheio do dia
quem dera minuto por 72
em 50 parcelas por hora
devora,
é inócuo eu sei,
mas transborda de vazio
e faz arrepio azedo
o medo do dia ter fim
antes de mim
Um vento e meio
seletivo e entorpecente:
traga em jarras de 05 litros,
derramando o seco
no meio termo unilateral
agora,
o 27º estado
reproduz, recria, reprime?
faz do desconhecido terror
mas amor, abstrata abstração
do meu mundo lotação
André Café e Sócrates jogando poandker em Cocytus com Satan
* mundo em turco
Assinar:
Postagens (Atom)









