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domingo, 13 de março de 2011

A imagem de nós




Sai do banho, passa por uns móveis velhos de um quarto que nunca mudou, abre a porta, como um ato involuntário tateia a parede a direita, a procura da luz, passa pelo espelho, vai direto ao guarda-roupa, volta ao espelho.

Percebe depois de muitos anos, o espelho. Embaçado pelas coisas que traz o vento, o espelho perdia sua utilidade, tinha alguma coisa nele que parecia implorar para refletir algo.

Passa a mão molhada como num gesto de limpeza misturado com carinho e afago. Aos poucos aparece um cabelo, uma cicatriz, sobrancelhas, olhos, nariz e uma boca (nada muito bonito, nem harmonioso, mas para o simples espelho, era belo ter que refletir algo novamente).

Seria um rosto qualquer, não fosse a tristeza expressiva.

Sou eu?

Passa a mão pelo cabelo, cicatriz, sobrancelhas, olhos, nariz e boca. Até o sinal do lado direito da boca continua o mesmo. Mas, mesmo assim, falta algo. Cabelo, cicatriz, sobrancelhas, olhos, nariz e boca, tudo como tem que ser, mas falta algo.

Resolve fazer a última conferência: passa mais uma vez a mão pelo cabelo, toca a cicatriz que adquiriu quando menina na rua e até hoje continua lá. Falta algo.

Chega a achar que o espelho tenha lhe tomado algo. Encara-o como numa disputa de olhares furiosos, o avisando que devolva senão a confusão está armada. Concentra-se mais ainda no espelho. Até que num desatino, numa revelação, percebe.

São meus olhos! São meus olhos!
Descobri! Descobri!

Faz uma coreografia boba, como se erguesse troféus no ar. Descobri! Falta a alegria que perdi há um tempo atrás e que era vista através de meus olhos. Desejou não mais ser vista. Desejou nem ser alegre novamente. Desejou que o espelho se quebrasse. Desejou não ter descoberto isso. Só desejou, desejou e desejou. E saiu da frente do espelho, calada e triste, como realmente costuma ser agora.

(Iúna Gabriela)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dando vida ao que bebemos




Era a cachaça pura.
Se soprássemos,
seria um vento de conhaque quente.
Era um corpo bêbado na lama,
enxaguado de éter e álcool,
estendido como um copo quebrado.
Fez do seu corpo uma garrafa.
Nele não nascia nem a flor feia de Drummond.
Ah! E nem o tédio.

(Iúna Gabriela)

POEMA ALCOÓLICO




Mais uma vez está escuro.
Estou bêbada,
dormente,
cheia de fumaça,
inalando fumaça,
soltando fumaça.
Essa fumaça branquinha
que depois enegrecerá meu peito,
meus pulmões.
Me matará,
Me relaxará.
As luzes piscam no quarto escuro,
os carros descem a rua e os faróis iluminam meu quarto,
e não me iluminam,
me cegam.
Estou bêbada,
dormente.
E as luzes se apagam e se acendem
ao meu toque.
Toquei.
Apagou-se tudo.

(Iúna Gabriela)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma história de ida




Um homem joga as frutas que possui
pela porta de trás do ônibus
cheio de almas meio-vivas.
Ninguém o ajuda.
Aos olhos dos demais o homem parece invisível.
Com força de homem trabalhador,
finge não notar isso e nem tão pouco se sente mal.
Vai ao fundo do ônibus , transporte de almas meio-vivas,
e com todo o carinho de homem recolhe as suas filhas frutas.
Logo depois do homem invisível
adentra no meio das almas meio-vivas,
uma mulher:
-Sou surda de nascença!
Pede socorro de 25, 50,1,2,3 reais num papel desbotado.
Estende a mão pelas almas meio-vivas quase iguais a ela.
Um senhor quase nada meio - vivo ignora-a como a um bicho qualquer.
O ônibus prossegue seu percurso que leva ao meu destino.
Encontro um amigo.
Falamos de vida,
de coisas legais,
de pessoas que não são mais as mesmas,
da maneira como vemos a vida agora,
das coisas que fazemos,
e de pessoas ,
e de como gostamos das pessoas.
O pouco tempo que tinha pra conversar se esgotou.
Saí caminhando contra o tempo,
contra o vento,
contra as outras pessoas com destinos contrários ao meu.
O tempo contra mim.
E fui tocar as coisas da vida que muitas vezes são totalmente sem ritmo.

(Iúna Gabriela)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dando o céu ao vício




O ato de intercalar o cigarro,entre a mão e a boca.
Entre o pulmão e o nariz.
A fumaça cobrindo o meu rosto cansado.
Aliviando meus pés descalços.
Respiro suave.
Baixo o cigarro,
solto a fumaça.
Subo o cigarro,
prendo a fumaça.
Solto a fumaça,
vejo fumaça,
e a fumaça se confunde com a nuvem que admiro.
A fumaça vira ar e vira nuvem.
O cigarro em chamas,
acaba virando o meio mais rápido de chegar ao céu.

(Iúna Gabriela)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Como refrão de um bolero




No exato momento em que me olho, através de um fundo brilhante de um cd qualquer, vejo nele cores fortes deformando meu rosto, penso em mim como se não fosse meu aquele rosto, aquela expressão triste e sonolenta.

Giro o cd que está entre os dedos meus, como se não quisesse ver-me e o ponho a admirar outro lugar que não seja minha cara.

Tento pensar num próximo filme a baixar de um daqueles "escritores" que enchem meu ser de poesia em seus filminhos, ou, penso mais ainda, e não sei porquê, numa música do grande poeta Belchior, aquela música que fala da divina comédia humana que é a vida.

E o cd entre meus dedos, girando lentamente a procurar-me, até onde eu mesmo não espero. E quando ele dá vida ao dedo que me pertence, que faz parte do mesmo objeto chamado: "meu corpo", um corpo intacto, imóvel, fascinado e a espera de algo que não seja apenas o seu reflexo, como naquele momento.

Estou cansada de reflexões acerca do que não entendo(acerca de mim).

(Iúna Gabriella)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Para querermos nós




Queiramos todos nós, que os homens ejaculem de suas cabeças, idéias que engravidem o mundo de coisas boas.

Queiramos todos nós, não poder sentir o cheiro de podridão da carne humana, assando no sol ao esperar um ônibus.

Queiramos todos nós, não ter que ver o cancêr nascendo no trabalhador de porta em porta.

Queiramos todos nós, ver a piedade do Deus de nossas mães.


Queira eu
Queiras tu
Queira ele/ela
Queiramos nós
Queirais vós
Queiram eles/elas


Homens, escutei a nossa prece.

(Iúna Gabriella)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Questões sobre o céu que tenho preguiça de olhar




Ouvindo o "na na na na na" dos Beatles em Hey Jude, tive vontade de sair de casa e abrir a porta que dá à rua. Pensei só em olhar a lua(isso se fosse mesmo noite de luar), porque ultimamente não tenho olhado o céu, talvez medo de olhar-lo e deitar-me no chão em pleno público só para admirá-lo.

E olhando o céu me pergunto: se aquele lugar seria a morada de um Deus - criador dessa terra e dono desse céu -, um Deus dos homens, que os criou à sua imagem e semelhança?

Acho que não. Acho que o céu, só é habitado por nuvens. Se pessoas vão para o céu, também acho que não.

Se não regressamos ao pó, vamos para uma natureza em algum lugar, mas não para o céu de nuvens.

E se as nuvens que vemos e damos cores e formas, são efeitos da lotação de pessoas no céu?


(Iúna Gabriella)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

À luz da lua




Naquele exato momento, a lua estava escondida, e eu a procurava. E sentindo a minha presença e ânsia da procura, a lua passou a procurar-me também. Ficamos frente a frente. Ela iluminando-me com uma luz mágica e eu a iluminando com o copo de cerveja que tinha às mãos.

Disputava comigo mesmo, o olhar à lua e o olhar ao copo de cerveja. Tentava não ser favorável a nenhum dos lados, queria só ficar ali e assim, por toda a vida. Sentia a paz de ser o que sou. Conversava sobre a inquietude do progredir da vida: ter que nos tornar o que não somos.

Ao fundo, vozes cheias de notas musicais, a equilibrar-se sobre o ritmo de Surfando Karmas&DNA. Presenciei abraços e declarações de amor.

A vida é grande, é mais, é bem maior do que pensamos. A vida é sentir. Viver é viver sentindo. As cadeiras vazias ao redor, no meu pensamento se associaram às pessoas que sentia falta em minha vida. É como se a vida fosse um conjunto de mesas e cadeiras. Era como se eu fosse a mesa, e sentisse falta daquelas "cadeiras", que na verdade são pessoas.

E cheguei a uma revelação: Estou em busca do ser interior. Estou a um pulo do precipício de não aguentar mais tudo ao redor. Estou em busca de mim.

E as pessoas nunca saem da minha mente, se não consigo dormir muitas vezes, talvez seja minha mente buscando-as, farejando-as, ressuscitando-as, renascendo-as, implorando-as.

A minha mente quer equilibrio. Quero calmaria.

(Iúna Gabriela)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Momentos que perdemos a " razão"(que já não temos)...




É um momento tão intenso, quanto o vento de um ventilador. É um maracatu de sensações, de cores, formas e sons desbaratinados. Tão desbaratinados quanto nosso cabelos, nossas roupas rotas, nossas mãos e pés empulseirados.É um dar de ombros no céu e sair flutuando, como se estivesse na nuvem.Aquela mesma nuvem que nos cobre a cabeça cheia de mudanças, cheia de sonhos, cheia de amor,cheia de liberdade.

Mas, liberdade porquê andaste apenas nas nossas cabeças e não no meio de nós?


(Iúna Gabriella Paiva)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ponto de ...





Consigo
Respiro
Vivo
Sobrevivo
Contribuo
Me afasto
Retorno
Abraço
Beijo
Danço
Bebo
Enrolo
Fumo
Como
Banho
Penso
Leio
Ando
Pego
Escrevo
Espero
Corro


Tudo interrogação....



(Iúna Gabriella Paiva)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Na chuva




Sinto um cheiro de terra molhada, olho a janela do quarto, é mesmo, confirmo: é chuva. Chove lá fora. É hora de recolher as roupas do varal e deixar enxaguar-se de água que cai do céu.

Quando crianças, acreditamos que seja Deus chorando, crescemos mais um pouco e aprendemos sobre o ciclo da água, hoje acredito que a chuva cai sobre nós, somente para encharcar e lavar a alma, só para isso.

Crendo nisso, deixei minha alma na chuva, como aquela mesma roupa que esquecemos de tirar do varal. Podia ver minha alma estendida e pingando. Ainda de alma estirada, contemplei os pingos de chuva ricocheteando nas pedras, no asfalto e contra a própria água.

Perguntei-me porque muitos outros não se deixavam lavar por águas de chuva (nessa hora muitos se esquivavam de serem purificados pela chuva que caia). Quis gritar e dizer: deixem-se levar, deixem-se lavar!

E não tive forças para fazer isso. Ali, estendida e pingando, só quis ficar de rosto para o alto, olhos fechados, mãos abertas, pés com água cobrindo e com chuva açoitando meu corpo. Fui egoista. Quis aquela chuva só para mim, quis que os pingos d´agua caissem só pelo meu rosto, molhassem somente meus cabelos, ricocheteassem somente por esse corpo que é meu, lavassem a minha alma.

Percebendo cada vez menos a intensidade dos pingos sobre mim e escutando menos ainda a chuva cair do céu no chão, sai do estado de transe em que me encontrava. Àquela hora a chuva estava parando, era hora de apressar a lavagem da alma.

De súbito, concentrei-me, respirei fundo e disse à chuva como a beijando num desafio: "Lava a minha mente, o corpo é fácil, quero ver conseguir isso."

... não pudemos continuar nossa conversa - a chuva e eu -, ela acabou ou desistiu quando desafiada, mais rápido do que eu esperava.



(Iúna Gabriella Paiva)