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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Arrebate


Repentinamente: um impulso.
Fim: recomeço.

Laìs Ha

Regresso: paradoxo temporal


J. disse precisar de um espaço subterrâneo. H. precisava de mais tempo. J. desceu os degraus até o sul. H. comprou duas caixas de medicamentos. Nos primeiros dias de outubro, as cores não surgiram como de costume no hemisfério sul. Nos dias seguintes, a cidade dormia em preto e branco. J. ainda estava no porão. H. quebrou todos os relógios que havia em casa. As calçadas do bairro eram cinzas. As árvores estavam secas. Ninguém compareceu ao funeral do prefeito. Alguns anos depois, sem marcadores de tempo, J. subiu os mesmos degraus, que o levaram ao sul, e saiu do recinto familiar sem dirigir suas pupilas a H. Ainda era outubro. Ainda não havia cor. H., que estava mergulhado em água com analgésico, se perguntava o horário. J. sentou-se em um banco cinza da praça negra. H. contava as facas e os garfos na cozinha. Alguns anos se passaram e não contaram o tempo. Outubro ainda doía. H. já tinha um filho. J. respondia por tentativa de homicídio. Numa tarde cinza, a cidade sem cor se viu coberta por um céu anil: J. foi absolvido. H. não precisava de remédios. D. completou onze meses de vida. Era setembro.

Laìs Ha

Amor: apocalipse redentor


O apocalipse havia começado e J. disse precisar novamente de um espaço subterrâneo. H. se cansara de subterfúgios. O diálogo foi contido. O sentimento estava tíbio. Não havia humanos vivos na cidade cinza. O vento chegara sem timidez. J. deixou Flaubert de lado. H. intentou uma farsa para afagar seu ego aborrecido pelo desamor de J. O abatimento se misturou com as rachaduras do chão nos dias apocalípticos. J. arranjara um sexo melhor para terminar sua existência terrena. H. não se conformava. J. poderia dividir seu corpo em dois e agradar H. e V. Um entenderia. Outro queria ser único. H. engendrou palavras de amor maquiavélico. J. ouvi-as em uma frase tragicômica. Negou-as. Deitou-se com V. No interior do tornado escatológico, H. cuspia seu amor em ódio. Amava até odiar, odiava até amar e não se perdoava por não deixar de amar. H. telefonou nos minutos finais com a intenção de humilhar J. H. não percebia que J. já sobrevivia entre uma cortina transparente de humilhação: J. não sabia amar por muito tempo. J. esperava encontrar seu amor redentor antes do final dos tempos. O tempo andava apressado demais para esperar pela redenção de J. H. perdia seu tempo tentando ferir seus amores criados. V. vivia sua leveza psicodélica fazendo cálculos e sujando suas mãos. Formou-se no céu um escrito em inglês (para ninguém ficar de fora): the end! J. correu oito quilômetros sem parar e, quando atingiu uma rua referta de árvores cinzas, avistou A. lendo Flaubert sob as folhas pretas. Escureceu.

Laìs Ha

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sagrado: jornada de luz


A. escrevia centenas de artigos para atingir um antigo anseio. J. lia diversos livros ao mesmo tempo e se via no meio de uma multidão de seres escritos. A. e J. navegavam juntos. No interior de um barco furado, sonhavam imagens matizadas e engendravam uma nova terra para chamarem de lar. Enquanto a água atulhava o pequeno barco, os dois se amavam nos detalhes. A. cobria seus olhos claros com lentes embaçadas. J. mostrava seu olhar castanho através de lentes limpas e grossas. Sem toques. Sem vozes. Só vistas. Olhares se confundiam. J. e A. deixavam suas portas abertas e trocavam seus desejos por acordes de luz. Meditavam: amados. Descobriram o caminho e iniciaram a jornada de redenção. Dormiram anjos. Repousaram cosmos. Despertaram sagrados.

Laìs Ha

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Poema ao mar II: caixinha de correspondência


Aqui não chega o mar
tem areia nas paredes
mas no sal não há vermelho
pacífico morto
reviro-me no quarto
do baú ao espelho e
busco cartas de
doçuras escritas
aflita
escrevo sobre a falta
que faz a praia
no inverno e na casa
caixinha de correspondências
vazia
não confio em quem
da costa
não escreve cartinhas de amor
cheias de areia
de sal
de sol
à amada que morre
por amar seu amor
do mar

Laìs Ha

Poema ao mar I: caixinha de música


O silêncio criado se vai
pelo vão da porta
entreaberta
o som da caixinha de música
se esvai pela vidraça quebrada
coberta
por uma cortina de flores
margaridas brotaram do lado
de fora da velha cabana
não há sonoridade nos cômodos
não há silêncio nos aposentos
estranho silente sonoro
desmonta quarto e cozinha
vazia se nota a mesa
o assoalho apaga marcas
de botinas sujas de terra
os homens se foram
foram ao mar vender
seus dias restantes
seus restos de homens
sobre eles não se fala
nessa família de mulheres
fêmeas pariram sozinhas
meninas cresceram sem sonhos
de serem mulheres
de famílias
de homens
do mar
marinheiros se vão
ao porto embarcam
não retornam às margaridas
de suas cabanas antigas
onde estranhos silentes sonoros
desmontam caixinhas de música
das meninas sem sonhos

Laìs Ha

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Dionísio: meu homem mítico


Propínquo aos castiçais de ouro,
sob auréolas afogueadas,
Dionísio, com seu professor Sileno,
sorvia aos goles o vinho
de um sagrado cálice pequeno.
Apresentei-me silente – como o
tempo insone –, cândida e aromática
para que, apesar da ebriedade, não
me percebesse trêmula e várias.
Talvez Dionísio, homem
mítico, admirasse a minha farsa
e me guiasse ao seu teatro na
encosta sul da acrópole de Atenas.

Laìs Ha

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

vida violeta: ela acrônica


enquanto crianças corriam pelo gueto de varsóvia
mortas de medo do tempo e sem ar nos pulmões
viu-se uma carta de luz narrar a vida acrônica de
uma jovem que subsiste em um futuro violeta

ouvindo canções perdidas de mãeana a radiohead
umedecendo seus olhos mpb e seus lábios rock’n’roll
ama páginas marcadas costuradas no corpo celeste
e conta os astros que revelam segredos do cosmos

dizem que noutra época a moça se perdeu com
deuses do monte olimpo e por isso acabou presa
num tempo inundado de pessoas sem quimeras
e teve de se contentar com estórias em tela plana

há relatos de que ela foi a primeira a furtar livros
da biblioteca cardíaca do último condado fantasma
da primeira nação oxidada do universo luminoso
deixando sem peso as estantes de árvores mortas

sabe-se por aí que ela corre e tenta alcançar o real
mas um vento de cores frias não a deixa sair de seu
intelecto utópico e assim sua voz continua soando
como clair de lune para as audições mais raras

ela revive seus dias de outrora e se percebe entre
flores mitológicas numa terra cintilante em que
há o celestial nos sentimentos e o sexo tântrico
é comum entre os amantes e seus corpos poéticos

enquanto os pequeninos de varsóvia se perdiam
pelo gueto e dormiam pensando em suas mães
a carta de luz ensinou a eles a capacidade humana
de sonhar e de desejar a vida numa vida melhor

Laìs Ha

Ode holocênica dos Campos Elísios – De Carmela para o Jardineiro


Era Día de los Muertos quando enterrei
Tuas linhas pequenas e níveas
E linho plantei sobre elas e sobre as flores
Antigas que estavam a vivificar
Os ruídos luminosos do longo fim de ano

Era Día de los Muertos quando cortei
Meus fios laranjas e lisos
E na nuca deixei vivo o cheiro de mar
De um outono frio de maio
Dissimulando os acordes de fim de ano

Era Día de los Muertos quando matei
A morte escura e cínica
E ancorei no velho cais de outra terra
Uma nova forte ventura
Para revelar algum navio de fim de ano

Era Día de los Muertos quando deixei
Apagar sem piedade
As chamas sanguíneas da lareira de tuas
Veias azuis de saudade
Antes de sentir o sangue do fim de ano

Era Día de los Muertos quando evitei
Numa rua deserta
Tua face marcada pela vida da minha
Vida então encoberta
Pelo acórdão lúgubre do fim de ano

Era Día de los Muertos quando amei
O holoceno sucumbido
E terminei todas as leituras maçantes
Para o Dia de Natal
Fortificar-se o mirante de fim de ano

Laìs Ha

Carmela e o Jardineiro


Carmela:

Quando desatava os teus nós de solidão
E te amarrava nos meus olhos de tristeza
Você não me dizia tudo o que sentia
Quando te encontrava empinando
Mil pandorgas com os pequenos
O vento carregava meu aceno até você
Que não me compreendia
Hoje ainda canto que te faria um tapete
Branco de crochê e te leria Hilda nua
Te mostraria o vermelho dessa vida
Mas sem teus jornais no fundo do baú
Sem teu guarda-roupa
Só me resta uma varanda vazia
Mais uma vida sozinha

Jardineiro:

Na minha pele, teus cacos de vidro se perdem
Nos velhos livros, tuas fotos guardadas escrevem
Cartas a Ophelia esquecido comigo
Contigo, meus discos de folk, de blues e de rock
Noite bucólica – ao teu encalço me vejo
Descalça – no meu segredo te vejo
Sagrada – sob a luz de parasselênio
Cartas a Ophelia esquecido comigo
Contigo, meus discos de folk, de blues e de rock

Laìs Ha

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Viver


Alguns espelhos refletiam nossa
eterna mocidade e outros apenas
acenavam com punhos de vidro.

Algumas portas se fechavam de
forma abrupta e outras somente
se abriam em um duro ranger.

Sua voz se infiltrava em meus
ouvidos como uma sinfonia de
de inverno cinzento e infinito.

Meus pés deslizavam sobre os
seus lábios cálidos de queixas
e tremiam até o seu umbigo.

Sua face mórbida se encaixava
com exatidão entre os meus seios
onde dormia depois do amanhecer.

A aurora trazia o horizonte para
dentro da alcova e também um
caixote para o nosso segredo:

Morrer.

Laìs Ha

De.pois


Ele exibia expressões de arrependimento
de uma vida advinda de seu bovarismo
plenamente cego por seu ego frágil e só.
Apesar da exterioridade diminuta, que
dissimulava o arquétipo do século, ele
desconhecia a maioria dos livros e dos
filmes que valiam a pena. Seus medos
insanos – penosos e infantis – afirmavam
sua fragilidade de menino em busca de
autoafirmação. Deixo minha confissão:

Eu também fui assim quando tinha aqueles
dezenove anos, boy. Hoje sou outra. Crua.
Sou a mulher que nasci para ser, e jamais
abrirei mão de minha personalidade agreste.
Não precisa mais treinar frases pacóvias
em frente ao seu espelho de menino casto
nem chorar quando desabar no seu próprio
vazio. A vida flameja sob o firmamento e
o tempo enxuga seu líquido férvido com
as escolhas enxutas de cada indivíduo.

Preferências que por diversas vezes se
assolam em um destino frívolo de uma
limitada existência: sequer em palavras
remanescem metafóricos sentidos afoitos.
Nas frases cotidianas, a língua portuguesa
resplandece em meu esmalte vinho clássico,
declarando aquela sua mania cretina de não
isolar o vocativo com uma vital vírgula, boy.
Meus olhos míopes e astigmáticos – isentos
de misericórdia – proferem: je suis desolée.

Só para você ver: a questão – tão abrupta
proclama seu martírio infuso no melodrama
da coluna social de uma choldra jornalística.
Uma televisão multicolorida não afaga o
tormento oriundo de suas novelas mentais
e de seus hábitos inteiramente falidos.
Talvez algum versículo grifado em suas
pálpebras obscuras não permita que seus
intentos se realizem de modo vertiginoso
ou que cortem aqueles forçosos efeitos.

Sem epílogo remanescente:
Há o som de um trompete noturno.
Audível.
Silenciosamente musical.
Sensível.
Um espaço para partituras.
Repare bem em tudo o que não foi
escrito.

Laìs Ha

© Andrea Marchetti


perdida nesse
caos
nós
o avesso desse
céu
seu
meu pecado nu
lençol
sol
perdido nesse
caos
nós
dois extremos e


Laìs Ha

Luz ao frodo


teus dedos
selados
nos meus

teus lábios
sanguíneos
nos meus

teus selos
sinetes
nos meus

teus pés
sambando
nos meus

teu sorriso
sereno
no meu

teu corpo
suado
no meu

teu porto
seguro
no meu

teu afeto
silêncio
no meu

meu apego
segredo
no teu

nosso amor
sufrágio
meu e teu

Laìs Ha