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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Prelúdio de Copas III - O sabor satânico


O vinho agridoce e em chamas no contraste da caminhada
a névoa púrpura que ebulia das fossas infernais criava ilusões
mas meu trajedo findava-se ai de alguma forma
os passos como guias cegos até ali me ancoraram
na face da gruta o arquétipo da humanidade.

- Eu cá estou em sofreguidão. Poderia ao menos ofercer-me um pouco de vinho?

- Acaso encontraste aqui resquício de benevolência ou candura? De que adianta sorver bebida, sem o sabor palpitando de papila em papila? Diga-me nefasto pecador. Não me apetece tua lamúria.

- Vejo, sinto a sórdida contradição de sua existência nas suas palavras.

- Eu não diria sórdida caro desconhecido. Digo, escolha, em processo de encontro. Contradição não se aplica neste caso. O que todos aqui fizeram foi provocar o ponto em que me ligo à humanidade. E todos incorreram em equívoco. Diga-me, se humano, na semântica real do termo, fosse, acaso estaria aqui em deleite?

- É óbvio que não, mas mesmo o deleite não é certidão de convicção plena.

- O não lidar pertence a vocês. O deleite pode não ser uma totalidade. Mas boa parte de minha essência busca isso. Deveras interessante, a outra parte veio aqui, solucionar este gozo pelo meu sucídio de espécie. E creio estar na ponta da resolução. Enquanto isso, caro desconhecido, sorva o prazer de seu castigo. O vinho não te cabe mais.

- És satânico ...

- Sou Duque de Copas. E nada mais.

O frio condiciona o recinto.

Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica

terça-feira, 29 de maio de 2012

Prólogo Socrático do Encontro III - Devaneio entre o torpor e a quimera, sem determinação espacial


O caminho ascendente não se impregna
o enigma do equilíbrio não emociona ou fomenta
o abismo de virtudes vãs e pagãs não se sustenta
alimenta, reacende o que fora mito esquecido

Leviatã ...

Tensão entre o estado de latência natural
o suave arcabouço que incita confiança
é lembrança para o por vir repetido
curtido no sangue e na fome:
não apagara o lume da iniquidade
que invade silenciosamente, mente e consciência

Daquilo que ao inferno é pertencente
realoca-se, toma-se à imagem Antropomórfica

(...)

Do que li e do que vi, eterna distância

- Esta com sorte nobre pensador ...

- Não creio na sorte. Nestes tempos, inertes e inexistentes, digo acaso condicionado.  - um gole de rum, próxima partida.


Sócrates jogando poker em Cocytus em devaneios e reminiscências. Satan observa

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Prólogo Socrático do Encontro II: mais uma rodada de poker e de rum


No segundo desligado, pós-queda do virtude, eis que um demônio de classe baixa interrompe o momento
É mais um convite para o jogo. Surpresa, é claro, em tão pouco intervalo de tempo ... mas teria sido pouco o tempo? Nestes campos que não se sabe hora ou lógica. Não hesitei, e acompanhei a criatura até o habitual recinto de nossa jogatina.
Vazio, com as cadeiras e mesas. Mas nada de chá ... garrafas descansadas, cor de fogo e olor conhecido ... rum ... o que me queria Satan?
No pouso do assento, as cartas esparramadas, apenas uma com a face pra cima; nefasta brisa que adentrava pela porta principal .. silêncio ... interrompido pelas passadas marcantes de quem deve demarcar sua apresentação. Surge, os olhos quimera e riso maligno:

- Olá caro Sócrates.

- Saudações ao Rei dos Mundos ...

- Esqueça as cerimônias nobre pensador. Esqueça até os últimos jogos e possíveis dívidas.

- Vejo que você está falante agora. Agrada-me em partes esquecer o que devo. Mas qual o sentido deste retorno quase imediato?

- O que seria senão o nosso habitual compromisso? Mas o deste momento tem um adicional. Gostaria que me dissesse qual é.

- Pelo que vejo, lhe interessa agora a presença do Duque de Copas aqui. Não compreendo o porquê, uma vez que o tempo e o espaço se condensam e se misturam, impossibilitando um encontro lógico.

- Conhece as leis que rege esta existência. Mas não acredita nesta tal possibilidade nobre pensador. Na realidade, busca este momento. Pergunto então, se esquecera a condição de habitar sobre os meus domínios.

- Não, não esqueci. De fato, não foge a verdade sua perpicaz análise. Como também não foge a verdade minha constatação física. - indagava-me pelo súbito interesse, enquanto o gole de rum descia seco na minha garganta. Uma coisa era o jogo e nada de palavras, apenas gestos. Outra coisa é o jogo de palavras; este eu temia e percebia esse temor crescente. Mas não me reduziria. - Acaso Satan, está com algo a me dizer diretamente?

- Nobre pensador, autorizei a entrada de mais um ser vivente, muito para um deleite, esperando ele se perder em maldições e traumas irreversíveis. Informo que exatamente o contrário está acontecendo. Não reside nele traço de humanidade algum. O meu deleite foi execrado à ira, pois não consigo definir a que natureza pertence a criatura. Qual a intenção de tê-lo no inferno?

- O caso é Satan, que o convidei para o chá em algum momento da história. Apenas isso e somente isso. Não há conspirações pré-meditadas, Você que habita este e outros mundos e ares, tão ou quase tão onipresente, não deveria estar com preocupações neste sentido.

- Em minha posição Sócrates, nada é considerado irrelevante, pela própria descrição que fizeste.

- O Senhor teme perder o seu posto. É isso? Acho impossível.

- Não. Eu temo o sagrado 'cair' e destruir o real, utilizando-se de sua imagem e semelhança.

- O mal sobrepujando a si próprio e deste ato, destruindo-se. Mesmo que o sagrado seja profano, mesmo que o brando faça insurreição de assassino. É, Senhor. Tua preocupação tem causa...

- ... Mas apenas uma conjectura de todas que controlo. É sempre bom dialogar com você nobre pensador. Full house ...

- Agradecido Satan ...Royal straight flush ...


Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Chá e biscoitos, em algum lugar do tempo e do espaço


As forças exauridas, sou guiado pelo mar púpuro para uma praia de espinhos
o caminho tortuoso, com chamas e gritos, horrores e sangue para todo lado

Como antítese extrema de imagem, meus olhos não acreditam em tal cena
além da carnificina, por cima de todo lamaçal rubro e nocivo
alguém altivo e tranquilo, repousando em cadeira de ouro
observando sem mais sinais, a barbárie refinada

Seria algum demônio? Mas como pode ser? Um homem? Vivo? Aqui?
Minha voz mais rápida que o pensar, ousou, cuspiu: - Socorro!!

O homem logo ouviu, um trago em um copo comum
levantou-se; caminhou; diante de mim estava
o rosto não muda o semblante, durante todo dizer:

- Me pedes ajuda, mas jaz o teu corpo, és alma agora.
Não há como fazer nada; mesmo se existisse, não quereria fazê-lo.

- Mas humano tu és? Como pode ver tanta maldade e não fazer nada?

- Existe o saber. Existe o não saber. Existe o fazer. Existe o não fazer. Existe o fazer e saber, como não saber e fazer; e também não saber e não fazer, como saber e não fazer. Acaso caístes aqui por inconsciência, ou foram teus passos que aqui te trouxeram? E antes que diga, não faço aqui um apelo a remissão de nenhuma falta que fizestes em vida. Eu digo, foi feito e já está em memória. Agora siga o caminho.

- O senhor perdeu a humanidade!

- (...) De certo que deveria realmente ter algum tipo de ranso em meu peito. Mas digo, perder a humanidade, parece ser o caminho que a maioria dos homens seguem, por querer seguir. Então entre você e eu, não existe tanta diferença. A humanidade se perdeu, sem precisar de ajuda. Com as mãos em teorias e técnicas, foi feito exatamente o extremo do que não podia ser operado. Minar-se e subjugar o planeta. Prefiro antes de minha passagem perder este vínculo que me torna humano, mesmo sabendo que no plano físico isso não é possível... o chá irá esfriar...

E assim ele segue, embebe um gole e passa a escrever algo
aquilo que nunca saberei e que nunca farei


André Café e Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan

terça-feira, 15 de maio de 2012

Breve diálogo do acaso entre as prisões do mundo inferior


- Quem vem lá?
- Apenas um visitante errante.
- Não há visitas por estas prisões. E ainda com ousadia de infestar com esse cheiro asqueroso de carne humana o Tártaro! O que dirá ao seu algoz?
- Digo que não há como desvencilhar-me de fedor nefasto e de tamanho asco. E em contradição a sua convicção, me faço aqui pela urgência de um convite.
-  ... Estás a andar por aqui sem guia, sozinho, perâmbulo.
- Não há necessidade de guias quando o nível de tortura é gradativo. A cada isntante, sei qual o próximo passo, apesar de me entorpecer analisando algumas cenas.
- E onde pretendes chegar?
- Se não me engano, o espaço desconectado do tempo e sentido é meu eminente destino.
- Hum ... o Duque de Copas afinal. Sou conhecedor de sua estadia.
- Então não me tolherás no meio caminho?
- Não, eu não o farei. É vontade do Rei sua presença. Mas diga: como permanece incólume vendo o mar de infortúnios e desesperos daqui?
- Digo-lhe nobre demônio: Aqui não há novidade que já não tenha vivenciado na Terra. Acredito que se este é o desenrolar das almas humanas, então assim será. Confesso por vezes, surpresa em não me surpreender. Contudo, não há nada de novo.
- Não reside em ti o sentimento de clemência?
- Por que deveria explorar sentimento inócuo e inexpressivo? Se quiser, colha minh' alma e verás obliterada vontade e verossimilhança no que digo.
- Sem necessidade. Pode seguir.
- Agradecido.
- Este era um homem que podia ser desestabilizado e enlouquecido; é um homem que me provoca medo...

(...)

- Nada tema, Radamanto.


Duque de Copoas no caminho de Epizêuxis Semântica

Resolução

Lucifer - Franz Von Stuck

Nada mais que qualquer momento para o jogo de poker
duas cadeiras comuns, uma mesa com carteado
e outra com fondue, chá e vinho
aguarda-me o príncipe

Não recordo quando assim iniciou o vício
não adianta versar o tempo, tampouco importa
apenas era um rito entre senhores e o mundo
o meu pensar não fitava qualquer fantasia

E pouca coisa se dizia por palavras
mas muito se percebia pelo jogo e gestos
não me era íntimo, mas se retorcia em riso com meu desapego humano
uma diversão às avessas, enquanto degustava o vinho tinto de sangue

Tudo tão rápido e sem cerimônias
desta vez fiquei devendo ao Diabo
por hora sem pagamento, a espera de resolução

Retomado caminho, na mente apenas o funcional
desapercebido entre gritos de tortura e fogo
sórdido descaminho que escolhemos


Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan

Parcelas suspensas no mundo do caos - Inferior


Uma luz estranha, move-se, esquenta
meu olho gatilha para ter consciência
de onde vem e por que estou neste desconhecido?

Me alimento do espaço, nada em memória
não sinto o chão com os pés, não vejo o chão
flutuo sobre um mar violeta
extremo vazio, que duvido de minha existência

De repente, um tic-tac-tlim ressoa
num sussurro, despenco nas águas turvas
o nado desesperado, sem localização de ilha
a súbita calma após o repentino

Pois outros cá estão parados, inertes
como se esperassem resgaste impossível
um frio fatal, queimando meus ossos
o aboroto de qualquer esperança
no sibilo póstumo glacial

André Café

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um pensamento linear no desenrolar do aguardo


Chuva de corpos encapuzados
o festival da nascença começou em Cocytus
tão longe é a noção de certeza de vida na Terra
Incontáveis desesperanças alçando profundo mergulho

Ao ponto que me movo, o cheiro de sangria toma conta
remonta um banquete nunca visto naquelas 'praças'
in vitro, o fogo acusa ainda minha vida
por isso, sigo o caminho normalmente
tão longe eu estava do meu sentimento humano

Mas longe de ser dor ou mesmo tristeza
minha jornada cá me trouxe por vontade própria
o covil onde despedaçam-se almas
é a calma em recinto para o meu pessimismo
jamais alcançado em estratosfera

Embora luzes escassas, embora carne e rum apodrecidos
sem concisão e sem necessidade de ser conciso
sigo as rédeas da minha negação divina
sem horas e dias de retaliação a me acorrentar

Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Acabou o rum, quem sabe o ano


O querosene por meio litro de findar
mas a garganta precisa se aquecer pra respirar
não sei em que mês tornou-se minha loucura de salvação.
máscara anti-terrorista, uma pistola niquelada e ratos pro escambo
é só a vontade, o rumo pro grande mercado do caos
só alguns pontos de luz de fogo in vitro, pra não explodir com o ar sulfuroso

a senha passada no portão de chumbo

ratos na mesa, pintando em sangue cartolinas
o mercante com o olho riscado analisa, avisa, 3 litros

mas quero sachê de chá de coca e gengibre
é o suficiente, boa caçada, a carne é ouro, tem visita
não sei em que vida criou-se a necessidade pra continuar
mas minha garganta precisa se aquecer pra respirar



* Aguardando a chegada em algum tempo ou memória do Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica


Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Minutos inequívocos de luz solar, talvez, 2378


É. São três da tarde agora quem sabe
afinal a fenda da camada de carbono cuspiu uns tantos raios de Sol.
com um pouco de calor dá pra largar o copo de rum
hora de mexer a carne mórbida
vetores ao rio

São só rasos e raros minutos inequívocos
Escafrando rasgado vestido, sem ar comprimido
corrente atada no pé, não se sabe quão fundo esse traje pretende me levar
arpão na mão, o sobrevivente espreita
luz negra na outra, apenas para o bem perto
preço de refresco para aguentar tantos outros dias de incertezas noturnas
alçado mergulho
 


 Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan
 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Hoje tem boom!

www.filemagazine.com

Um xícara de chá meia cheia
ao lado da cadeira velha, uma revista recortada de 2238
por cima da mesa, ao lado do pequeno vaso de flores decapitadas
um copo de cristal enterrado em boa dose de rum

O corpo esticado sobre o descanso da cadeira,
que descansa, sobrevivendo no alto de um prédio abandonado
de repente o sinal relembra
óculos escuros no rosto
chapas de chumbo na pele.
começa o espetáculo
de cogumelos multicores de radiação
iluminando os equívocos de paz mundial


Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan