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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Olhos nos lances



Era certamente noite de delírio em Cocytus,

Divisávamos a lua terrestre, verticalizada e brilhante

Irradiando protestos que os mundos silenciavam.

 - Sente o vento da noite, convidado? Nem responda. Essas nuvens ocultam estrelas, e não permitem distinguir o peso da vida e o cheiro da morte.

 - É seguro andar por essas escadas, Sócrates?

 - Talvez, se a queda não lhe seja inconsequência.

 - Arranca essa dor do meu peito, é o que dizem?

 - É o que pretendem, na presença dele, embora saibam que não vai haver, diáfano e onipotente, sujeito plural que arranque as veias que pulsam dores, horrores e festas no crepúsculo.

 - Dobro a aposta, porque acredito que vou quebrar a banca sem susto.

 - Pobres que somos, aguardamos, imobilizados pelo lance que se projeta, longo e tenaz jogo de azares, lances de dados imprevisíveis. Aceita mais um trago?

 -Chame quem você quiser! Que o fogo consome, absorto, a palma dessa mão vencedora.

 - Acredita no triunfo? Vozes denunciam, à socapa, que o sucesso não é caminho disposto a prosperar...

E assim, no alto da cobertura de um castelo tosco em ruínas, jogavam cartas, jogavam dados e lamentações.

No meio do contrassenso da linguagem, perdidos e sem noção de espaço-tempo, lançavam suas preces pelos devaneios inalcançáveis.

Sócrates jogando Poker em Cocytus com Satan e Duque de Copas em Cocytus, arriscando e deslocado