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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

‎'...Nunca falta nome quando o assunto é ausência'

Ela olhou pra fotografia e disse "Vontade disso de novo". Ao tempo em que meu coração se espantou com o susto e a força dessa frase, vinda de alguém tão frágil, lembrei da saudade e dessa palavra que, dizem, só existe em português. Talvez ela não soubesse ainda dessa palavra e de como a usam vulgarmente por aí. Ela soube na pele, no rosto pintado com todas as tintas que seu irmão carregava consigo, e que sempre fizera questão de compartilhar. Olho seu sorriso timído de menina, e de como ele costumava ser grande no tempo das grandes tintas, e de como agora, por vezes, essse sorriso é confuso por não entender a vida, o tempo, a saudade. Mas ela sente. E repete: "Vontade disso de novo".

terça-feira, 8 de novembro de 2011

E a solidão das pessoas... nessas capitais





Em tempos de internet, a facilidade de um botão 'enter' ao alcance dos dedos, em uma distância mínima entre o pensamento e o teclado, produz resultados, no mínimo, interessantes.

Acabamos, muitas vezes sem querer, sabendo aspectos das vidas das pessoas que a gente nem imaginava na convivência do dia-a-dia. Descobre-se, assim, que a Ana, que parecia tão dura e insensível, se derrete toda por um cachorrinho; João, tomado como frágil e delicado, não perde uma partida de Luta Livre. Do mesmo modo, conhecemos traços da personalidade das pessoas que era preferível nem conhecermos: preconceitos, desrespeitos, futilidades, consumismos e outros.

Mas, nessa facilidade e oportunidades de se dizer ao mundo inteiro o que se pensa, o que se sente, tem algo que vez ou outra tem chamado minha atenção: a solidão das pessoas.

É que na geléia geral de tantos desabafos, compartilhamentos e auto-exposição, acabo sempre me deparando com reclamações e lamentos onde as pessoas se sentem/dizem 'Forever Alone', muito mais sério do que se pretende a brincadeira.



Bom, não quero (nem posso) julgar os sentimentos das pessoas, mas não posso deixar de ver como isso representa a idéia que se difunde de solidão/felicidade.

A internet é um espaço propício para um reducionismo da vida. É urgente ser feliz, é urgente que se tenha sempre um álbum de fotos recheados sempre de festas, sorrisos, muitos amigos, etc, quando a vida de todo e qualquer ser humano está sujeita a momentos de tédio, raiva, aperreios, decepções e frustrações tanto quanto aos seus antônimos.

Sem se dar conta, as pessoas vão se martirizando e reclamando por estarem mais uma sexta ou sábado em casa, como se obrigação fosse todo final de semana estar na 'balada'. 'Esperar alguma coisa em um sábado à noite parece que sempre implica numa saída/festa, não entrando a possibilidade de se ficar em casa, pensar um pouco sozinho, ler aquele livro deixado na estante, aquele vídeo que seu amigo indicou, ou simplesmente ficar de "boresta".

Intrigante mesmo é quando acontece de essa 'martirização' se dar por conta de falta de um/a companheiro/a em sua vida. Desconsideram-se todas as outras esferas de sua vida (família, trabalhos, atividades, lazer, etc.) e condiciona-se a uma felicidade que necessariamente consiste em ter um 'amor', tal como todos os clichês de filmes, novelas, músicas e poemas e o resto acaba virando um imenso vazio.

Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. A maior parte das nossas vidas nos deparamos sozinhos conosco mesmos - com o perdão da redundância. E não há nada de ruim nisso. Na tradição cristã, diz-se que o Criador fez todas as figuras perfeitas, completas, mas quando foi criar a figura mais complexa, o ser humano, fez-se justamente incompleto, porém, com capacidade de modificar e interferir em seu destino. Algumas religiões politeístas trazem uma perspectiva mais interessante ainda: Os Deuses, eles próprios, já são imperfeitos, incompletos, cada qual com seus vícios e virtudes. Ora, se os deuses são imperfeitos, porque haverá de os humanos buscarem a perfeição? Não significa, por outro lado, que deveria se aceitar as imperfeições como um dado, mas a busca por uma felicidade ideal acaba sendo, na maioria das vezes, frustrante.

Buscar um modelo ideal (e constante) de felicidade, muitas vezes imposto, com padrões de amizade, diversão e amor, retira muito da essência humana: nossa inconstância, nossa mutabilidade, nossa incompletude e nossas imperfeições. Assim, volta e meia, invariavelmente, nos encontraremos sós e insatisfeitos. Essa é a graça, é o que nos torna tão interessantes! Caso contrário, estaríamos (e muitos querem isso) em uma linha de montagem em série, onde sairíamos todos iguais, ou então buscando sermos iguais. Ah, deixemos disso! Sim, ainda acho que é "Impossível ser feliz sozinho", já que "nenhum homem é uma ilha", mas sem essa de sermos completos quando atingirmos aquele padrão de amor, de emprego, de família. Como ouvi na música, que me provocou a escrever este texto, ninguém pode completar alguém, ninguém pode se bastar em outra pessoa, mas é sempre lindo o gesto de se oferecer.



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Figuras de linguagem



Figuras de linguagem
Perto do ouvido ele sussurou :

- Eu te amo!

Lembrando da aula de literatura,ela pensou : seria hipérbole ou ironia?

(Dine e Lucas)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Hoje eu inalei uma parada...

por Raimundo Neto e Lucas Vieira

Hoje eu inalei uma parada ali que me deixou com os olhos vermelhinhos, vermelhinhos. Não, não é o que você está pensando. Foi o spray de pimenta - tido como arma 'não letal' - utilizado nessa segunda pela Tropa de Choque de Teresina, numa manifestação contra o aumento da passagem dos ônibus pra $2,10. O spray de pimenta age de forma inflamatória e lacrimogênea, atingindo as mucosas dos olhos, nariz e boca, provocando irritação profunda, tosse e outros efeitos colaterais. E olha, dissipa no ar que é uma beleza. Durante as várias intervenções da polícia sobre os manifestantes, pude ver velhinhas, crianças, mãe com recém nascido no colo e outras pessoas que aparentemente não tinham nada haver com o movimento, correndo para fugir do fiel amigo das Tropas de Choque. Vi também um ponto de ônibus com umas 25 pessoas apenas esperando sua condução dissipar por completo em menos de 20 segundos, devido a uma única borrifada do spray por um dos policiais. Esse mesmo ponto de ônibus que, iguais a muitos outros nessa cidade, já vi diversas vezes bem mais de 25 pessoas se apertando, se espremendo pra procurar um rastro de sombra que seja. Em uma cidade, muitas vezes insuportavelmente ensolarada e calorenta, essas paradas de ônibus parecem uma piada. Mas piada mesmo, um verdadeiro deboche é o próprio sistema de ônibus: alto custo, sem integração, não cumpre a demanda. Todos os dias pessoas são oprimidas, tratadas como coisas nesses ônibus e na sua espera. Tanto desrespeito gera uma raiva. Uma justa-raiva, digamos assim. A raiva que, de tão grande, arde. Arde! E ardendo assim, tolhidas e tolhidos do seu direito de ir vir, do seu direito de ter acesso aos (poucos) serviços que a sociedade oferece, essas pessoas resolvem gritar, manifestar, protestar na esperança de que suas vidas não sejam ainda mais golpeadas pelos interesses de patrões e empresários. Mas não é uma esperança que espera, é uma esperança que leva ao agir, inspirados nos exemplos das mais diversas lutas que, por conta delas, fez com que ao longo do tempo, os governos, as polícias a temessem. Assim, utilizam de várias formas de pressão para que que suas vidas possam mudar um pouco, serem tratados como verdadeiros humanos e um dia, de fato, poderem, autonomamente, dar direção a suas vidas. Mas o que arde mesmo, o que arde é ver que toda essa opressão pode ser ainda maior, e que ao simples direito de protestar, somos recebidos com spray de pimenta. Pimenta, uma especiaria, um tempero há muito utilizado na culinária mundial, sendo utilizado para uma repressão que, com certeza, não iremos engolir. Não vamos escolher o tempero em que seremos devorados. Não vamos deixar ser devorados!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Praças dos Povos e das Poesias



Lembro-me de uma aula que assisti no meu primeiro semestre de universidade. A disciplina era Antropologia Cultural, do curso de História. "Pagava" aquela matéria como complementar ao curso de Direito. Por conta disso, muitos conceitos e discussões eram confusos e estranhos a mim, nem sempre conseguia entender os debates como um todo. Um desses conceitos era a idéia de não-lugar. Lembro-me que um exemplo dado de não-lugar era a praça na atualidade. As praças, hoje já construídas sem bancos, sem lugares de sociabilidade, seriam um não-lugar por já não haver relação com as pessoas, as pessoas passariam indiferentes. Não sei se a ideia é bem essa, mas foi assim que ficou na minha cabeça.

Essa idéia da praça como não-lugar me voltou à tona nos últimos tempos. Felizmente, só me veio à tona com as manifestações nos países árabes e nos países europeus. As ruas sendo tomadas pelo povo, reivindicando novos governos, novas políticas, novos jeitos de viver contrapondo-se à velha política elitista, ao velho sistema capitalista, à velha forma deturpada e falsa de democracia. Sendo as ruas esse canal de manifestação, a praça (re)aparece como o lugar, por excelência, de encontro dos povos, de discussão, de decisão, de luta por direitos.



Mas essa retomada da praça como símbolo de luta por democracia não se restringiu ao Velho Mundo. Não precisamos ir longe: as movimentações do #SosUESPI, mais do que a internet, procuraram as ruas e as praças. Praça da Liberdade(!), Praça Pedro II, foram alguns dos locais em que estudantes, professores e técnicos comprometidos com a educação, se encontraram para unir forças em suas lutas. Pelo Brasil afora, as Marchas da Liberdade, da Maconha e das Vadias, os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, em um momento ou outro, se encontravam nas praças, físicas e virtuais. Exigindo, discutindo e construindo Direitos. Nada mais poético do que isso. Direito ao teto, ao pão, à liberdade e, também à poesia.



Já diriam os titãs, a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. E saída pra qualquer parte, bebida, balé, a vida, como a vida quer. E se estamos sendo privados de comer, de beber, de nos manifestarmos, o que diremos do direito à arte, cultura? Não que os governos sejam os produtores, por excelência, de cultura. Pelo contrário, quem faz cultura é o povo, de diversos jeitos e diversas formas. Ocorre que os governos e as imposições individualistas, mercantilistas e competitivas restringem e cortam, cotidianamente, nossas possibilidades e nossos estímulos para produção cultural.



Entretanto, felizmente, sempre há braços! E dessa forma, ainda que com todo o descaso do poder público com a cultura, pessoas, grupos, fazem arte - da forma mais artesanal possível. Da forma mais sofisticada, sem forma alguma, ou de todas as formas – independentemente, autonomamente, produzindo e dando o exemplo e o convite. E mais uma vez não precisamos ir muito longe. Basta nos lembrarmos, novamente, da Praça Pedro II, aqui, em Teresina. Não sei bem porque aquele professor usou a praça como exemplo de não-lugar, mas certamente se ele tivesse aparecido por aquela praça, sexta-feira, dia 17 de junho, ele não mais usaria esse exemplo.


A Sociedade dos Poetas por Vir, grupo sem estatutos, sem leis, sem restrições, aberto, realizou o I Sarau dos Poetas Porvir naquela praça. Sem intencionar lucro, auto-promoção, ou qualquer outro motivo que não fosse a socialização e a produção coletiva de cultura, o Sarau foi divulgado apenas de boca-a-boca (e tecla-a-tecla, principalmente) e foi interessantíssimo.


Mesclando música e poesia, as pessoas, voluntariamente, levavam, liam e declamavam seus escritos, ou de outros . Alguns até faziam poesia ali, na hora. Parabéns a todos que construíram esse espaço. A cultura se faz assim, sem precisar esperar por governo, patrocínio, ou ingressos vendidos. Importante, claro, que todos sejam valorizados, financeiramente, mas quando o financiamento vira objetivo principal, não se faz mais cultura e sim, mercadorias.


Por fim, essa postagem é pra reconhecer e registrar a esperança de que muitos saraus estejam por vir. E que todas as praças sejam locais de encontro, pra lutarmos não só pelo pão, mas pela poesia - já dizia aquele revolucionário.


E pra terminar, uma poesia de Castro Alves, poeta que lutou pela liberdade (nada mais significativo), cujo nome também batizou uma praça em Salvador, Bahia – praça essa, palco de várias manifestações.


O POVO AO PODER
“A praça! A praça é do povo
Como o céu do condor
É o antro a liberdade
Cria águias em seu calor
Senhor! pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...”
Castro Alves