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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Há espaço na vida¿


A essência da vida é milimetrada, pesada em balança de precisão atômica
pensada pelos maiores pensadores que esta Terra há de comer.
esmiuçada, desnudada, decodificada nos maiores centros genéticos
no Projeto Essência

Estruturada pelos maiores arquitetos
Corporificada pelo mais puro conhecimento biomédico
Veste Prada, toma coca-cola, quer carro e casa
E escreve cartas existenciais ao pubmed

Multiplicada aos montes mais íngremes que a Terra já viu
reproduzida em cada corpo industrial
E espalhada ao mundo, tal como a esperança
a esperança muda, surda,
a esperança dos outros
no mundo dos outros

Manoel Guedes de Almeida
Teresina -09/11/2013

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Guia


Perto. Suspiro.
Tato. Colo. Corpo. Voa
Que a lida é leve

Escuro. Perdido. Emancipação.
Nobre sensação

Te perdo de perto, te aperto no peito.
Não tem jeito, sem jeito
Me perdo decerto, deserto venci
Nos fios de teus pelos

Gritos. Cortes. Dor.
Me perdo no escuro
Escuto perdido alguma anunciação

Te perdo de perto, te aperto no peito.
Não tem jeito, sem jeito
Me perdo decerto, deserto venci
Nos fios de teus cabelos

Voar. Ar. Loucura.
Mãos que se dão.
Voa que eu vou
Voar sobre ar, Andorinha

Débora Regina Marque Barbosa/ Manoel Guedes de Almeida

São tuas veias


Olhai, é verde
Um verde-cinza que cresce da merda
E escoa, escoa, escoa
Acre ao leito do rio
Cheirai e ride: tua sanidade
É este rio
E outro após outro
Na extensão dos teus braços
Na extensão de tuas pernas
Na extensão de teus pensamentos
Na extensão de tuas casas, de tuas vilas,
Na extensão de tuas ruas, das ruas de tuas cidades
Na extensão de tuas escolas, de tuas palavras, de tuas conjecturas,
É verde a roda de teu carrocel

Manoel Guedes de Almeida
Teresina - PI, 17/12/2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amanhecer branco



Jaz o sentido, a prece, o sonho
Jaz a tentativa, o irrefutável silêncio
do porão escuro do medo

Jaz a alma, já cansada
jaz a arma, já armada

destes testes, deste sonho
impalpável
de arranha-céu

Que é do teu corpo que se fazem prédios
Que é do teu amor vermelho que se tingem os céus

no silêncio destas catedrais, silencia
do aço destes teus punais, apaga tuas digitais
e alivia

só o tato resta,
contornando nossa última prece
e o sorriso breve
que ecoa de Auschwitz
e desbrava minha branca lucidez

Débora Regina Marques Barbosa e Manoel Guedes de Almeida

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma lua, duas luas


Uma lua, duas luas

Seria a tua lua
a mesma lua q'eu vejo?

que tanto dirás?
que recado trarás
em seu manto, q'espanta,
que imanta
o reflexo de meu coração?

Seria um porquê
Ou outra conjectura qualquer
que vista aquarela no céu
que dissolva todos os desejos
que nos se faça perder
nos sorrisos dos rostos

seria uma razão
ao meu querer
bem
o teu querer
também

Manoel Guedes de Almeida
30/10/2012

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um/dois



E te faço de traço e tinta.
Ponho meus lábios sobre o papel
e contorno os teus na minha medida,
teus braços na medida dos meus,
teus sentidos,
contorno teu sorrio na medida do meu.

E depois, ainda dois, voltamos a ser um



Manoel Guedes de Almeida, Teresina, 03/10/2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ares de luta



Meu peito é arma
Roupas, pés e braços são armas
Meu espírito é arma
Os livros são armas, são armas as músicas
A convivência humana, a alma humana é arma
Que se constrói no tato

Ponho o estetoscópio no pescoço
E aponto contra a morte.
- o mundo é uma droga, diz.
A razão, dissolvida nas minhas conjecturas,
É arma e me sufoca. Ela tem razão, penso.

Amigos, sentamo-nos à mesa de um bar
E tomamos iogurte e sorrimos de nossas certezas

Tenho tantas armas e nenhum inimigo, como faço?
- não se preocupes comigo, amigo...
É a vida que anda complicada. E sorriu.

Manoel Guedes de Almeida
Teresina-24/09/2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O homem que matou o amor



Por muito tempo acreditei
que a vida tivesse dois sentidos bem definidos
passado e futuro,
como dois pontos distintos sobre um papel
e cada um, uma pessoa
uma mais rápida que o tempo
e outra mais lenta
à sombra do momento intangível

mas há outro ponto
que se senta em algum canto qualquer
cansado demais para ir adiante
ou para acreditar no potencial das coisas

está exausto
e as árvores já mortas
não lhe dão sombra

constrói-se no agora
antes do próximo segundo
não em castelos medievais
ou em naves espaciais intergaláticas
mas em casa de tijolo e barro
que se o tempo levar, ele reconstrói
inda que sonho, inda que tinta, inda que papel
inda que sinapses

e as ilusões ele trás nas mãos,
nos pés e passos, o coração
as lágrimas ele chora agora
pelas árvores de agora
e no agora planta suas sementes e ideais
os que respiram
inda que calados
dentro de seu peito calado
que abafa o grito
de quem matou tudo
o que mais amava

__

Manoel Guedes de Almeida
Teresina-PI, 11/09/2012

O médico que quero ser



Não sei. Quem sabe alguém me diga
Ou diga quem sou, quem fui 
Conforme quem seja
Talvez a dor que sinta 
Molde o fogo que abrasa o peito
Mas há forma que caiba esse ardor? 

Não sei. Quem sabe me diga 
Seu maior medo, qual seja 
Seu maior desejo, que seja 
Meu maior desejo. 

E andaremos juntos ao final da tarde 
E faremos revolução no quintal de casa
Ao som do que há de ser 

Faremos dos braços e abraços (de todos) 
Pedra e aço

Não de corpos, que a terra corrói 
Não de almas, que a vida constrói 
Mas médico de vidas

Manoel Guedes de Almeida
17/09/2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Em algum lugar do céu



tantas veias a cidade, tantas vidas
quantas almas mudas dissolvidas
na amarelidão da luz

não há nome a cidade, nem há corpos ou carros
vistos do alto
e me pergunto que história tem
que outro mundo guarda
impregnado em seu manto

há vida na veia
da cidade
movem-se pontos
luminosos no asfalto
surdo
e não há voz ou conjecturas

há sentido na cidade?
deve haver algo de divino nisto, nesse novelo
de luz

uma após a outra
passam
na lentidão do tempo

quantas células, quantas histórias?
de repente já se foi
e eu já me fui

Manoel Guedes de Almeida
01/08/12

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um pequeno relógio francês



Queria apenas um segundo
Que a carne e o concreto
fossem formas de frações de segundo aglutinadas.
E os segundos iriam ao Plenário
Preveriam o tempo, apresentariam o Jornal Nacional,
levariam as crianças às escolas, antecipariam as estações
e ganhariam Nobeis

Desenho um segundo em minha mão
e imagino quantos bilhões de coisas cabem
neste segundo
neste único dígito
que borra minhas digitais
impressas como pegadas
nas moléculas de ar

fraciono este segundo. Regro a gota do tempo.
pressiono o dedo contra a torneira,
ponho um copo, um corpo
Mas o segundo contorna o anteparo
e umedece a face.
Mais um segundo e seria imperador.

quantos segundos tivera Lênin?
Quantos ideais couberam num segundo?
Quanto sangue no ladrilho de Stalingrado?
Quantos passos em um segundo?
Quantos sentidos, amores, temores...
Neste segundo?
Em um segundo a chuva cai
(e é novamente estio)

Manoel Guedes de Almeida
Teresina- 20 de julho de 2012.

Ontem/Além-Lênin



Falta.
Sinto falta dos teus beijos breves, do teu hálito de manhã
De teu vestido-musgo, de teu sorriso estranho
De teu olhar sem jeito sinto falta.

Sinto falta das promessas, das declarações de amor pra vida inteira
Das fugas, dos filmes à noitinha, das fotos,
das frases sinto falta. Tantos fatos...

não há mais fatos no mundo. O mundo é o agora
e o agora são faces e tempo e muito. Tudo é hipérbole
e não há mais espaço no mundo – o mundo é pequeno

Passaram-se os dias. Os amores também passaram.
Passaram-se os objetivos, a garra, o grito sem explicação, o fastio
[o rosto sem barba, as mãos sem rugas
A coragem, a esperança também passou... e sinto falta

Faço poemas, leio jornais.
Os homens inda protestam, cantam e se escondem
nas tavernas de copo na mão; levantam bandeiras,
cercas eletrificadas, armas...São todos metade, são todos semi.
A vida ainda é náusea.

Cá, falta inda sinto das tuas mãos nas minhas,
dos teus braços e abraços nos meus
[de teus lábios que inspiravam poemas diferentes deste - ferida.

do perfume nas cartas, da troca de alianças, das tímidas mãos que se enlaçavam.
da laranjeira no quintal; do vaso de flores vazio. Dos cactos.
Da tua face doce no sal da minha face...
da filosofia ao pé da “Lareira de Sonhos Impossíveis”...

Manoel Guedes de Almeida
Teresina-PI, terça-feira, 24 de março de 2009.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Desenho, desejo




quando eu era criança
costumava pintar castelos em toda folha em branco
lagos, árvores, praças
e lábios na medida dos meus

queria dois momentos na minha vida
um feito de luz
e outro feito de som

os amigos próximos, o futuro distante
e a voz da mãe ao meio dia. Os desafetos superáveis
ao final da tarde e as frustrações mais rápidas
que o movimento

o sentimento entre os quarks, a razão
na escrivaninha do meu quarto
e uma cama à beira mar

Mas veio a porra do desejo!

Prédios, sentidos que arranham os céus
Face, sorrisos de concreto armado, Lattes
E o coração ungido à aço
fundido fora do peito.

De tudo que fui, pegadas de fonemas...
Um pouco de mim ficou no pó do passo
Só resta a carcaça. O movimento
frenético da informação na fibra ótica
nem os olhos deixou. Nem a raça
que ergue o passo
apenas para equilibrar o peso da cabeça

Manoel Guedes de Almeida
Teresina, 17/07/12

terça-feira, 17 de julho de 2012

Vozes da in(equidade)



De repente, todo mundo tinha voz.
O negro velho tinha voz. Voz rouca, cheia de calos
E repleta de certezas intangíveis, mas era deveras uma voz.

A mulher também falou. Sim, palavra! Primeiro uma, tímida
Imprimindo pegadas fonéticas no quente asfalto
Depois outra, mais concreta, como alguma coisa humana
O mundo inteiro eram palavras, histórias, momentos

Falaram gays, velhos...
crianças nasciam perguntando sobre a bolsa de valores
e discutindo o sentido da vida e o direito à morte
até o tato se dissolvia em som
E o som atravessava os bairros, as cidades, os continentes
Atravessava os corpos como facada

O homem também falou, queixando-se da qualidade de vida
E das condições de trabalho
Falou o proprietário, o proletário
O homem montou sindicato da palavra falada

Pessoas falavam nas praças, nas ruas, jardins...
As escolas, escritórios, academias estavam todas vazias.
Os homens queriam falar
E já havia muitas vozes no mundo

Fora criado o Estatuto Mundial da Palavra Falada em versos alexandrinos
Para organizar a voz dos povos. Mas já era impossível calá-los
Houve conflito pela posse do fonema
Patentes foram criadas. A voz estava afiada como navalha.

Milícias saíram às ruas com microfones à mão.
A polícia recitava Camões a toda voz.
Palavras cortavam os céus como pedra e aço.
Sem mais palavras, a política de juntou aos povos

O governo congelou salários. Os bancos, sussurrando,
Capturaram todas as rimas ricas do mundo e oficializou golpe de Estado

Os manifestantes foram reprimidos com tiros de dicionário
Dante erguia barricadas, Proust cavava trincheiras
E a voz tinha cor e gosto
E pintava a todos de verde a azul
Já era impossível distinguir os rostos
E o gosto era amargo como sangue

Manoel Guedes de Almeida
Teresina – 12/07/12.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Pó solúvel



E agora tu me transformas em lembranças.
Quanto tempo até que eu não exista mais?
Por quanto durará meu gosto, meu rosto?
Apenas a lembrança solúvel do que fui, até
Que não saibas mais o que fui ou se fui
O que fui de concreto, de sentimento, o que fui de sonho
Já não te bastam,
E apenas o sono te reste, untado à fé.

Talvez uma letra, um toque. Uma barba mau feita
Uma frase solta no tempo
Tragam-te no vento um cheiro doce
E o sentimento de que fora feliz
E sorrirás apenas, sem sentido
E não conseguirás razão alguma a essa felicidade
Pois tua alma estará presa como tuas mãos
Como se teu corpo tivesse seguido sozinho
Na certeza e no tempo...
Difícil voar assim.

Quando apenas esse sorriso breve?
Em quanto a minha morte, a lenta morte
De todo simbolismo, de qualquer significado, de toda lembrança?
Até quanto o sentido dos poemas
O sentido das cartas presas na parede?
Em quanto os filmes ao final da tarde
E o amor contido no calor da noite?
Por quanto haverá sentido?

Me pergunto por quanto existirei.
Quantas vidas cabem em um segundo,
Em uma dúvida, em uma desesperança?

Manoel Guedes de Almeida

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Amor


Então era isso, só uma palavra?
Depois de tudo isso, só uma palavra nuda?
Uma palavra sem espinhos? Assim,
Desenho de tinta sobre o papel?

Meus olhos passam.
Minhas mãos deslizam sobre o papel, traçam seu contorno no espaço,
Sentem sua aspereza no tato. Quantas histórias, esse papel jornal...
Suspiro. Sinapses.
Mas o papel não me diz nada.

Procuro em volta.
Não há quem fez papel
Não há quem fez a tinta
Não há quem fez as letras

Um furo na parede
De onde pendera um quadro
Uma estante sem livros
Uma cama sem corpo
Pó.

O espaço não diz nada.
Só me resta a palavra, ali.

Tento desvendar o átomo da palavra
Letras, fonemas, afixos.
Reviro os dicionários de todas as línguas
Consulto especialistas de todas as nações
Amigos, vizinhos, amantes...
Rabisco palavra
em toda folha em branco, em todo canto de concreto
criptografo palavra e envio ao espaço sideral
Ninguém conhece palavra falada ou escrita

Prego palavra em postes
Os homens colocam palavra em bandeiras
Pintam palavra na testa
Fazem pós – doutorado em palavra
Palavra batiza ruas, creches, corpos
Fazem poemas sobre palavra

Tento pronunciar a palavra
A boca teme. Treme. Treme.
Grunido.
É só uma palavra. E eu sou um homem.
E o quê é a palavra ante o homem?

Manoel Guedes de Almeida
Floriano-PI, 30/06/12

Le poids de la poussière (O peso do pó)

Nelson Afonso

A boca tinha poucas palavras e muitas dúvidas
E uma umidade fria que escorria dos olhos
Os pés, justapostos, esperavam o ato
E tremiam ante a aproximação
A mão esquerda também tremia, espalmada sob o epitélio
Do peito inquieto

A poeira do criado mudo, as folhas rabiscadas,
A parede ao final do corredor
Espiavam desconcertados. O quê seria aquilo?
Alguma memória?
Outra conjectura?

Vagarosamente, o pé repousa sobre o espinho. Um passo.
O chão liso do assoalho não entende a pressão imposta
E cada molécula de ar da sala sente a presença do medo
O pé deixa uma pegada. É medo.
Um cheiro tremido e cinza unta a pele e seus pelos.

A boca diz uma palavra, mas apenas a poeira escuta.
O pé ensaia um passo. O mundo dá duas voltas.
O espinho crava. Dois rios?

As unhas ruídas não entendem. O Sol se esqueceu de nascer.
As mãos, as duas, se emocionam. Leves.
Leve.

A respiração é rápida e breve.
Adeus.

Manoel Guedes de Almeida
Floriano – 30/06/12

Esfera


Não, Manoel, o mundo não é tão vasto
Nele não cabem os homens
Nele não cabemos nós dois.
Talvez por isso tantas estrelas
Tantas mãos sem dedos
Tantas faces sem rostos.
Por isso olhas o céu
E procuras alguém que te leve
Por isso a faca na tua mão e na outra
Os olhos de Deus e o coração
Porque o coração Dele também não cabe no mundo
E o mundo não cabe nos teus livros santos.
Talvez um dia erga-se num disco voador
E morra no espaço sideral
Ou talvez faça medicina, concurso público,
Talvez tenha filhos, família,
Talvez um cachorro
Talvez algum sentimento verdadeiro
E alguns cadáveres enterrados no quintal.

Manoel Guedes de Almeida

Ponto


A vida é relativamente simples.
Uns amam, outros não amam.
E todos seguem vivendo...

Essencial.
Comida. Água. Ar.

Manoel Guedes de Almeida

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Jardins de Edo


Não, tristeza, não se vá.
Não assim, como se não houvesse mais medo ou culpa
Não assim, com o corpo suado
De quem perdera a alma em Edo

Não se vá, tristeza... Chá das três?
Mas não sou inglês e aqui o sol dissolve o espírito
e queima a face.

Sente-se, tristeza. Talvez
seja o único sentimento capaz
De erguer a face. E erguer a face, face a face. E congelar o sangue.

Há espaço à palavra, tristeza? É tristeza a palavra
A katana que desenha corpo, o colo, o copo?

Talvez seja isto, tristeza. O sentimento de si no mundo e de si para o mundo
O silêncio
Que nos corta a carne
O punhal e a pena
Em nossas mãos


Manoel Guedes de Almeida