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sexta-feira, 18 de março de 2011

Exorcizo te,omnis spiritus immunde,in nomine Dei .




Eu que já te vomitei em miúdos,vou te esfoliar da minha pele e te descarnar das minhas unhas. É que aquele teu corpo que de todo era meu,esvaiu-se de mim e a minha alma que te respirava por inteiro anda com uma preciosa disposição ao esquecimento.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Sai ,vai embora com a enfermidade das tuas ilusões,vai de reto,que no certo há quem compartilhe da tua previsibilidade de espírito.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

A porta não está mais à espera e nem os teus passos à escuta,vai e leva contigo os nossos suspiros que pairaram nesse passado que não foi ,que agora eu vou desconjugar todas as minhas vontades pretéritas de te por no meu futuro.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Vai,sai da frente do meu espelho ,vai de reto,que é certo o meu desejo de topar com meus olhos e zombar dessa piada quase trágica.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

As entranhas ainda quentes , traidoras e incovenientes traçam a racionalidade mínima dos meus instintos.Provarei a mim mesma que os impulsos precisam de pulso forte para terem sua essência tempestiva retraída.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Sai,vai ,nem que seja num silencioso calafrio,vai de reto,que no certo eu desconjuro minha libido e te expulso dos meus sentidos.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

Minha voz descrente perdeu-se nessa ladainha.Exorcizo te omnis.Do amor, a sobra tardia.Exorcizo te omnis. É a fé de quem mente mil vezes repetida.

(Vanessa Feitosa)

sábado, 12 de março de 2011

Terceiro andar




Uma sala no lugar de sempre, com uma mesa de jantar que além de não comestível é incapaz de digerir os pormenores cotidianos.

Uma cozinha com mármores mudos, panelas histéricas e acreditem: copos vazios.
Corre [a] dor.
Corre.
O quarto (o todo da parte) com paredes sem ouvidos ou lembranças... é lá onde as coisas se perdem. A janela não escapa à forma de vitrine e quando o silêncio grita por voltas das 3h da madrugada o alarme de vidro quebrado não toca.A cama (que parte o todo com fronhas secas de pranto) tem a cabeceira enfeitada por sonhos pueris e um colchão que não se deixa enfeitar nem pelas criaturas de fábula ditadas pela voz materna de outros tempos.
O banheiro, o espelho e a toalha sempre à espera.
Corre.
Corredor.
A porta, com ponteiros de relógio..tão invisível quanto a serventia da casa.
Seja bem-vindo,pode entrar

(Vanessa Feitosa)

quarta-feira, 9 de março de 2011

A trama




Ela se alimenta de fantasias juvenis,come onde a fome a encontra e tem pestanas de sonhadora que arrancam suspiros.
Ele fotografa todas as lendas que ameaçam a verdade e com as mãos sujas de tinta,colore o tempo para poder fotografar depois.
Ela julga ser senhora de si mesma, e em tempos distantes a sua altivez imperial zombaria dos pés calejados por tormentos anteriores,mas hoje...hoje ela não ignora as regras de uma bela farsa.
Ele,com suas suposições teóricas e averiguações concretas,tem um talento mestre em manejar o silêncio alheio e as borboletas comentam que ele tem gosto de néctar.
Deitados no ar,tiveram a sensação de estar descobrindo algo que o instinto humano sempre soube que existia.Apagaram a luz com o lençol e a trama embalou os cinco sentidos da rede.Foi a única vez que ele não lamentou pelo silêncio dela.

(Vanessa Feitosa)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Resposta aos anjos.




De demônios eu não entendo.Por favor,apareçam...Saiam dos punhos da minha rede e voltem a me rasgar a cara como antigamente,subornem as minhas preces mal feitas e dessa vez não corram dos meus gritos ao abrir a porta,gritemos juntos(faríamos um belo coro e louvaríamos a virtude sedativa das músicas pagãs).
De demônios eu queria entender...Por favor,fujam em mim,justifiquem as minhas febres e olheiras "rasgue a camisa/enxugue meu pranto/como prova de amor/mostre teu novo canto".
Proponho uma noite barulhenta com fogos não artificiais para afastar os agouros.Que tal uma ciranda?Um brinde aos nossos espetáculos particulares ,um brinde aos gozos perduráveis!Façamos inveja aos anjos,temos sexo,asas,taras e fôlego.
Eu acabo de desistir das preces já que as minha insônias estão sendo veladas.
Brindemos!

(Vanessa Feitosa)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

BLOCO DA SAUDADE




Aí veio uma rajada súbita de lucidez!
As asas que por pressentimento já estavam sobrepostas,encolheram-se de vez numa lenta agonia.As serpentinas,lantejoulas e confetes permaneceram invisíveis na avenida à espera do carnaval e acabaram sucumbindo a um fevereiro gasto por outros meses de calendários imaginários.
A rainha da bateria cardíaca põe à prova seus espetáculos em março.Ela,mestra do silêncio restaurador , divide-se em três batuques roucos:SAU-DA-DE.Sem fantasias, máscaras e despida de qualquer traje alegórico , nutre as lágrimas atrasadas(gerações de dores acumuladas) dos olhos insones e salga os olhos ressacados pela folia da noite passada.Na verdade o seu enredo não se importa com os ponteiros do atraso ou mesmo se o sofriemento veio por antecipação,a tinhosa de salto fino faz palco dos corações alheios e entre uma taça e outra de nostalgia embreaga-se nas lembranças mais sutis.
Aí veio outra rajada súbita de lucidez!
Dessa vez a rajada foi tão crua e tempestiva que o relógio tornou-se intrafegável e a saudade,vítima de um crime passional,foi desfalecendo e até se achou digna de um epitáfio "Aqui jaz a rainha dos tormentos".
Que farsa ridícula!Os senhores assassinos me corrijam caso esteja equivocada.Mas quem já matou a saudade sabe que ela teima em ser imortal,nada de três dias para esperar sua ressurreição,basta um suspiro,um sonho,um delírio e aí não importa se é fevereiro,março ou dezembro..a rainha põe seu bloco na rua novamente!

(Vanessa Feitosa)