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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Identidade



Lembro-me dos tempos em que me afogava
na anatomia alheia e bebia todo o néctar
que era oferecido ao meu paladar.
Eu era triste e talvez vazio
mas não tão melancólico como sou hoje
nem possuía o mesmo olhar sofrido e boca trêmula.
Meus livros não eram tão empoeirados
e a minha saúde não era frágil.
Refletia paixão em minhas poesias
e orgia em minhas noites
frias ou quentes ou chuvosas.

Tentei duas ou três vezes
mantê-la por perto
mas nem sequer consegui
guardá-la em mim.
Não existia uma gota de amor
ou qualquer outro sentimento além de tristeza
dentro do meu ser.

E percebi tudo isso agora.

Quando descobri o abismo
entre viver e apenas sobreviver
guardei os meus discos do Chico
e nunca mais cantei Singin' in the Rain
mas não parei de escrever.

Porque sou poeta
e poeta não deixarei de ser.

(Laís Grass Possebon)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Poesia evolutiva de um poeta marginal para uma poesia mulher

Poesia Evolutiva



Ah...Quando somos fetos em borbulhas de amor até dois anos de idade;

ouvimos falar de poesia pela mãe ou pelo pai, alguma visita, enfim,

se é que eles gostam de nos falar disso ou daquilo...

Quando somos ainda meio crianças entre três e seis anos de idade,

lemos, decoramos, declamamos e adoramos poesias com vontade,

se em casa ou na escola nos ensinam isso ou aquilo.

Quando somos crianças até dez anos de idade,

começamos a querer interpretar e saber de fato

o que é que são as poesias. Haja fôlego, espírito intranquilo!

Quando na adolescência e puberdade chegamos,

a vida, o pensamento e algumas poesias ocorrem

alguns vivem, outros pensam, alguém (re)escreve...

Poesias de virar a noite, de romper o dia!

Poesias de flertar a morte, de esnobar a paixão.

Poesias de contar com a sorte, de cair em ilusão.

Poesias de dizer um mote, de cantar o que se sabia!

Mas a poesia hoje é o que nos relembra a humanidade que em cada ser é.

Poesia sentimento, poesia ação, poesia introspectiva, poesia extrovertida...

Poesia pegou em mim, me seduziu, me sacudiu com o raciocínio e senti amor.

Poesia pairou no ar diante de minha incredulidade e me fez contemplação, irrealidade.

Poesia por todos os cantos, de todas as formas, comigo ela mexe; e contigo?

Quando somos mais maduros e velhos, por vezes enviesamos a mente:

a traímos com a prosa seja no livro mais querido, seja na literatura mais lógica e meramente laboral.

Então só de vez em quando a poesia é renamorada e rememorada em um ou dois versículos,

pois sua linguagem, todavia, não é para seres comuns, é para seres sublimes e errantes.

Tenho saudade das poesias que vinham e inspiravam paz, refôlego e toda a vida devir.

Minha sorte, - não sei a sua, não sei a vossa -, é que a poesia, ela de vez em quando reaparece;

traz novidades, reanima meus pensares e suscita idéias de meditação.

O mais importante, como se sabe, é poder ler e escrever para que outrem sinta algo diferente.

Quanto mais diferente você puder sentir-se, isto é o que faz a poesia necessária, plena.

- Nunca perca a poesia! Nunca nos perca, poesia!

Ei poesia, tu sabias que eu te amo quando uma menina acolá me beija e te poetisamos juntos, por sua causa? Pois é, pois é, ora pois não, ora pois não! Mas poesia, aqui entre nós, a gente te vive mesmo sem dizer tudo até o fim, a gente te sente é na língua na língua, amor no amor... você saca o que queremos dizer não é?

(para Márcia M. com todo o amor que houver nesta, nas anteriores e nas outras vidas, pois ela é minha poesia-mulher, apesar de estarmos tão distantes e meio separados hoje – tudo por culpa do mundo dos homens, você sabe disso -, serei teu eterno namorado e poeta marginal)

jpsm

terça-feira, 31 de janeiro de 2012





Eu a vejo em vários lugares diferentes.
Nas flores, na terra, nas árvores, nos pássaros.
Em beijo um roubado, em uma noite não dormida, um agarrar...
Na música do ônibus, na melodia da sua voz, no farfalhar das folhas.
No raio de sol que entra pela fresta da minha janela e me acorda.
No frio da noite, no calor do seus braços, no abraço da vovó.
Em uma criança brincando, em um banho de chuva, no balouçar de um barco.
No suspirar da sua voz dizendo meu nome.
Em um café quentinho, na benção da mamãe, em um xero do papai.
Na missa, no terreiro, na mesa branca.
No homem, na mulher, no jovem, no velho.
No que está aqui, no que está por vir, no que passou.
Na saia rodada da moça na janela.
Na aba do chapeú do malandro que beija a ponta dos dedos das dama-boba.
Tem quem a veja nos livros, em papéis em branco, em escrituras antigas.
Outros a veem nas cores, na luz fugidia do lusco-fusco, na tristeza, na fome, na alegria.
Um sorvete que derrete, no último biscoito, no cafuné gostoso no cachorro. Vejo ela ai também.
No sexo, no amor, na paixão, no enamorar.
Em um sorriso, em lágrimas, na raiva, em uma briga.
Na indignação, na revolta, na luta por causas.
Em besteiras do dia a dia, na corversa jogada fora ao pé do fogão, em um estalar de dedos.
No piscar dos teus olhos.
Ela pode ser vista em tantos lugares, nem da pra dizer todos.
A poesia é onipresente, as vezes é invisível, mas nunca intangível.
Ela está aqui. Ali. Acolá. Pertinho. Longe.
Ao alcançe das mãos e do coração.
Pode parecer que ela não está lá, mas ela está.
Mesmo que seus olhos não a veja. Ela sempre está por perto.
Nos tocando. Bailando em nosso entorno. Nos embalando. Nos despertando.
Deixe ela te penetrar, te tocar, te invadir.
Eu a vejo em todos os lugares.
Onde você a vê?!

(Dalila Cristina, 31/01/2012)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011



‎--- Essa menina é doida!
--- Essa menina é toda avuda!
--- Toda abestada! Não presta atenção em nada!
A mãe indignada vai pro doutor levar a menina desatenta
E grita.
E briga.
E fala.
--- Ow menina lesada! Não sei o que tem essa menina, só anda nas nuvens, quer aparar o vento com as mãos!
E a menina alheia a toda essa confusão fica a devanear com seus vivos olhos sobre o mundo.
O médico olha de cima abaixo
E cutuca a menina.
E olha a garota.
E vira e revira.
E é um fazer exames sem fim!
--- Minha senhora, porque a trouxe aqui?! Já examinei ela todinha, não tem nada essa menina!
--- Como assim doutor?! Essa menina não é normal, tem algum problema! Ela vive falando de castelos, dragões, princesas, magos e feiticeiras! Diz que vê coisa na cabeça dela! A última vez cavou o chão do quintal todo! Disse que tava procurando o tesouro perdido dos piratas do Norte, que eles tinham deixado um mapa pra ela! E não parece que ta nesse mundo essa menina! Fica num canto isolada escrevendo, e pintando e falando sozinha! Ela não para queta! Vive zanzando pela casa, prá lá e pra cá. Me fez pergunta estranha, sobre outros mundos e outros céus. Será que é questão de ir no padre seu doutor?!
A menina, sem prestar atenção à conversa, fica olhando encantada pro consultório, procurando com seus olhinhos algum segredo escondido ou uma passagem secreta.
--- Me diga minha filha, o que você tem?!
--- Eu não sei doutor. Eu só quero pegar a delicadeza do vento com as mãos, tapar o sol com meus cabelos, catar espinhos n`água, sentir o algodão das nuvens. Correr entre os pés de vento, descobrir o sabor de viver, chegar ao fim do mundo, andar em tapete voador, viver um grande amor, descobrir os tesouros escondidos, entrar no fundo das pessoas e fazer parte do que compõe o universo.
O doutor com seu jaleco branco, levanta a sobrancelha e abre um pequeno sorriso.
--- Ah! Então é isso. Já tenho o diagnóstico. Já sei o que tem essa menina. O que você precisa dar pra ela ficar bem é: bons livros, um caderno com muitas folhas e um estojo de lápis bem grande.
A mãe assustada, de olho arregalo, olha pro doutor se perguntando se ele é doido.
--- Mas doutor, no que isso vai ajudar minha filha!?? O que ela tem então?!
--- Se acalme minha senhora. O mal da sua filha é um só. Ela sofre de poesia...

Dalila