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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
A NOITE MAIS DENSA
A noite era densa.
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.
A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão
A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
Igor Roosevelt
Moça dos olhos de chuva,
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?
Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...
Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.
Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...
Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.
Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
(Igor Roosevelt; 07/03/2014)
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
QUADRA Nº 2 - A HORA DERRADEIRA
Quando chegar-me a hora derradeira,
Meu amargo silêncio será ponte
Entre as coisas reais e aquelas sombras
Que lambem as paredes do horizonte.
Igor Roosevelt
Que estes versos saltem pela tua janela
E pousem como um beijo no teu rosto pálido.
Ondas que levam o corpo do naufrágio
Para as ilhas distantes dos teus braços.
Que estes versos te assaltem, quando a noite
Mergulhar no teu leito repleto de sono,
Para o meu pobre jardim, onde rosas sem cores
Passam as tardes costurando os pedaços de mim.
Que estes versos te levem ao palácio
Obscuro e vazio do meu coração.
Corredores compridos onde reverberam
O eco das vozes de fantasmas de outrora.
Que estes versos te sirvam de resfôlego
Quando adentrares na noite sem fim da solidão:
A cidade onde os relógios são de gelo.
A caverna onde todos os gatos são pretos.
Estes versos são meus, mas a eles pertenço
Como todas as velas pertencem ao vento,
Como todas as flores pertencem ao Sol.
Neles me recomponho e deles me alimento.
Que estes versos, enfim, saltem do papel
Como pássaros que escapam da moldura.
Igor Roosevelt
A ESTRELA DE FERRO
(Para Raysla Lopes)
Muito além do que pode imaginar
Qualquer humano, de hoje ou de outrora,
Há uma estrela de ferro a desatar
Sua luz fria pela noite afora.
Na escuridão, onde os astros em bando
Explodem com uma força sem igual,
Uma estrela de ferro está dançando
Pelas bordas do abismo sideral.
Na extrema solidão do cosmo infindo
A fria luz de ferro vai ferindo
Corpos celestes no horizonte estreito.
E assim usa a distância como um véu,
Um navio à deriva pelo céu...
Há uma estrela de ferro no meu peito.
Igor Roosevelt
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Você nem voltou para dizer adeus
Mas eu também não esperei você voltar.
Eu te conheço muito bem e já sei
Aonde é que tudo isso vai dar.
Aonde tudo isso vai dar.
Sinto dizer, mas eu não sei cuidar dessas flores
Que a gente compra nas floriculturas.
Elas são tão efêmeras,
Por isso eu preferia ter um jardim.
Não sei cuidar direito nem de mim
Quanto mais do amor, que é uma coisa assim
Tão frágil e tão efêmera
Como essas flores que a gente compra nas floriculturas.
Eu gostaria de ter ido ver o Caetano
Mas pensando bem, pode não ser uma boa ideia.
Ele vai tocar perto da sua casa
E eu não quero que pense que é uma desculpa pra te ver.
Eu sei que quando ele cantar aquela canção
Meus olhos vão procurar involuntariamente os seus
E eu vou ter que correr pra não chorar.
Eu não esperei você se despedir,
Mas tanto faz, você sequer leu meu recado.
Hoje é sábado e eu ainda estou sóbrio.
Queria alguma coisa pra me alegrar
Mas daqui do portão não dá pra ver a Lua.
Por favor, não toque essa canção.
Ela é um perigo pra quem sofre de alcoolismo.
Você me disse que não gosta
Quando coisas boas terminam
Mas eu digo que elas têm que terminar.
Você diz que eu sou triste e pessimista
Que tudo que é bom dura pouco
E eu digo que é porque tudo tem que terminar.
É sábado à noite e eu ainda estou sóbrio.
Existe alguma coisa mais triste do que isso?
É quase meia-noite e eu ainda estou sóbrio.
Em guerra com minha própria solidão.
(Igor Roosevelt, 21/09/2013)
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Se a ânsia de te ver me desse asas,
Com as asas que me desse eu voaria
Por cima de avenidas e de casas
E a minha boca à tua encostaria...
Dessa boca, tão linda assim pintada
Como fruta madura ao sol do dia,
Todo néctar, numa ânsia apaixonada,
Até a última gota eu sorveria.
E se, mais do que asa, ela me desse
A força de um ardor que não fenece,
Munindo-me assim de estranha arte,
Devorando do espaço a substância.
Por mais que seja grande esta distância,
Maior é esta vontade de abraçar-te.
Igor Roosevelt
O CORVO E A ROSA
Eu vivo sepultado nas lembranças
Que um dia eu tive a Ti, oh minha Flor!
Sopro de todas minhas esperanças,
Vida que um erro tolo me roubou.
Escuto as harmonias dos gemidos
Todos os dias desde que partiste
Deixando em mim mil corações partidos,
Dando-me a pena de todas mais triste.
Mas não Te culpo por me abandonares.
És uma Rosa e eu sou um Corvo imundo.
É o Teu dever embelezar os ares...
É o meu dever tornar sombrio o mundo.
Eu fui forjado pelo Sofrimento
Por isso eu canto o que o destino quis.
Mas sempre lembrarei no pensamento
Que um dia ao Teu lado fui feliz.
Agradeço por tudo, minha Flor
Mas pesciso seguir no meu caminho.
Eu sou um Corvo! Eu não nasci pr'o amor!
Eu fui gerado pra voar sozinho.
Mas se quando cair a vesperal
Tu não veres motivo pra sorrir
Lembra-Te desta torpe ave do Mal
Que amou-Te mais que tudo e morreu por Ti.
(Igor Roosevelt, 20/12/06)
terça-feira, 30 de julho de 2013
Um ano é muito pouco para amar.
Mil beijos se perseguem pelo escuro
E as mãos, que delineiam seu destino,
São carros naufragando no concreto.
Um ano é muito pouco para amar
Uma ave que despende a existência
Librando pelo céu as asas tortas
Em busca do alimento inalcançável.
Quem sabe, se nas lidas desta vida,
Dois olhos, pelos prantos maculados
Olhassem uns aos outros como espelhos
E enfim, reconhecessem como irmãos
Dois corações que sofrem, poderiam
Tornar mil anos pouco para amar.
(Igor Roosevelt; 29/07/2013)
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Amor e Morte
Amor é sorte
A sorte é nada
Poesia é nada
Um nada que é tudo
Amor é mudo
E mais um pouco
Amor é louco
Mas não é besta
Amor é esporte
Amor é morte
Mas morte é festa
A morte é nada
Absolutamente
Poesia cantada
Poeta não mente
Amor é norte
E a morte também
O amor é um bem
Morrer mais ainda
O amor é tão breve
A morte não finda
A morte é mais leve
Que o beijo mais leve
Do amor infantil
O amor é mais forte
Depois de crescer
Mas tudo que vive
Merece morrer
A morte é um medo
Amar-te, um segredo...
(Igor Roosevelt, 13/04/2009)
O COVEIRO DAS ALMAS II
| Papel de Parede Criatura Tenebrosa |
"lasciate ogni speranza voi che entrate"
Seguiu-se uma noite..
Uma noite de tal escuridão
Que sufocava o brilho das estrelas,
Afogava a luz de todas as lanternas
E até mesmo o Sol
Mergulhou nas águas
Da mais profunda e fria escuridão.
Seguiu-se uma noite... E após ela, outras
Se ergueram do solo como inço e
Arrastaram seus corpos viscosos até o esquecimento
Carregando consigo
Tudo aquilo que um dia teve alento.
Seguiu-se uma noite que desfez a espera
E desatou consigo as cordas do mistério.
As mãos imóveis desenhavam seu destino
E os olhos em vão se reviravam para ver.
Nada se ouvia, a não ser
O choro convulsivo das perdidas esperanças.
Por que, então, lamentar a doce perda
Dos erros e ilusões das quais fomos cativos?
Como lamentar que espinhos e pedras
Dissipem-se no ar como neblina?
Aqui vencemos e fomos vencidos...
(Igor Roosevelt; 15/04/2013)
quinta-feira, 21 de março de 2013
AMOR DE CÉU E TERRA III
Para Tamires Henrique
De onde eu venho não há sul nem norte,
Nem há maestros a reger o mundo;
Tudo está imerso num pesar profundo
De onde emerge apenas o mais forte.
Mas de onde vens a vida é bem mais bela.
O ar é bem mais puro, e a alegria
Não é uma palavra tão vazia
Como quando aqui fazem uso dela.
E ainda trazes no teu rosto lindo
Uma parcela do esplendor infindo
Que tanta falta faz nos dias meus.
És um anjo do Empíreo descendente,
Um presente dos céus para um descrente,
Uma parte das dádivas de Deus.
(Igor Roosevelt; 13/06/2012)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Spleen*
Chove...
A cidade outrora ensolarada
Reveste-se de um manto cinza e triste.
A chuva se alonga ao meu redor
Como grades de prisão
E as ruas estão molhadas
Como se eu tivesse chorado sobre elas
Toda a minha dor.
Os carros andam sem destino
Como enormes formigas de aço
E no interior de uma delas
Eu estou, e também rumo
Sem destino...
É possível tirar desse desfolho
Alguma matéria de poesia?
Há uma cena que sempre se repete.
Há um ponteiro morto no relógio.
Há uma paixão dormente no meu peito,
Que é fria como gelo e quente como angústia.
Há uma vontade de fugir pra algum lugar
Jamais pisado, visto ou sequer sonhado...
Mas eu levanto... Chove...
Encho minhas asas com o vento frio de Janeiro
E atiro meu corpo aos abraços do Sol,
Inutilmente... garras de tédio me agarram os tornozelos
Me prendendo ao chão... Sou apenas uma ave
Tentando furar um céu de chumbo...
*Termo francês que significa algo como melancolia ou tédio.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Teu coração é como um lago escuro
Onde a imagem de uma lua fria
Tremula - uma bandeira que desfia
Cantos de glórias esquecidas... Muro
Sem portas ou janelas para o dia,
Que o tempo vai tornando assim mais duro
Com as pedras do passado e do futuro,
Tijolos de esperança e nostalgia.
De dentro desse coração sombrio
Emana loucamente, como um rio,
Um jorro da mais clara luz que existe.
Mas não engana um velho arredio.
Muro, sei que teu corpo anda vazio.
Lago, sei que teu âmago é triste.
Igor Roosevelt
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Don Juan
Permita apresentar-me, bela senhorita.
Eu venho de outros tempos, de terras inauditas.
Sou filho da chama mais quente que existe.
A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.
Trago na boca o gosto dos mares onde vivo,
As vagas escalando, deles sou cativo
Como um fantasma vagando pelos portos,
Mas trago em mim uma porção de dias mortos.
Quando o pulso febril no corpo arde
E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde,
Espalhando no mundo a solidão e o frio,
Amaldiçoo a minha sina e mar bravio.
Nessas horas cruéis o que minh’alma quer
É apenas tua forma linda de mulher.
Quando a angústia crescer minh’alma sente
Meu coração deseja a tua boca ardente.
Tal como o beija-flor do néctar suculento
Da tua beleza vivo e dela me alimento
E como fosse o fôlego da vida humana
Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.
Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor.
Me chamam Do Juan: teu servo e teu Senhor.
(Igor Roosevelt; 14/02/2013)
Alvorecer
(Para Lúcia Maria, minha mãe)
No dia em que você nasceu
Nasci contigo.
Nasceram meus olhos curiosos,
Questionadores e por vezes tristes,
Nasceram meus sonhos
Como um cavalo selvagem,
Nasceu meu coração
Transbordando de ternura
E muitas outras coisas minhas
Nasceram no dia em que você nasceu
Porque lhes devo todas elas.
E devo muito mais, posto que a planta
Não reconhece ainda a dádiva do outono,
Nem quanto custa a luz do entardecer,
Mas reconhece o seu amor, e ainda lembra,
Numa paisagem onírica e distante,
Eu pequenino, a mão presa à sua,
Você tão grande quanto é agora,
E o seu afago acalmando tempestades
Com uma força da qual nunca disponho.
Quisera eu ter herdado essa coragem
E essa força de enfrentar o vendaval
E esse sorriso que brilha como o Sol
E essa beleza jovial que desafia o tempo.
Receba esse presente
E que ele seja singelo e brilhante
Como lágrimas na meia-luz
Ou como estrelas pelo céu escuro
Ou como o orvalho frio
Que os dedos da manhã vêm semear.
Receba como o melhor de mim,
Como a forma mais pura sincera de dizer
O quando amo você.
(Igor Roosevelt; 02/02/2013)
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O fantasma da Ópera
Pirata entrega o mapa
Sem ter as mãos beijadas
E fica a ver navios
Um bicho acuado
Sem pulo-de-gato
Sem pressa de morte
Punhal conhecido
Atores em cena
Coragem pequena
Um tiro na cara
- Roleta russa
Christine abraça o céu
Com asas doadas
Fantasma come pão
De mágoas roubadas
Rosto de calma no espelho
Estranho matiz de vermelho
Poeta se afoga na bile
O amor não pede troco...
(Igor Roosevelt; 31/05/2008)
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Tanto tempo faz que esta dor me acompanha
Que já nem sei como é viver sem ela
E chego até a pensar que são seus pés
Não os meus
Que me guiam pela estrada dos anos.
Meu ponteiro, meu galo da manhã,
Tempestade de areia que me inunda os olhos,
A noite anda prenhe
Dos pensamentos mais sombrios
Lá onde os cães mordem raios de luar
E os bêbados dançarinos caminham sobre nuvens.
Minha dor, minha epiderme,
Muro atrás do qual escondo minhas lágrimas,
A mão de ferro que me aperta o coração
Sequer cumprimentou minha saudade.
O Sol é ingrato, a Lua é ignóbil,
Os rios, imprestáveis, não querem me afogar.
Eu regredi, mas tu cresceu e agora
Nem todos os bares do mundo podem te conter.
Atrás das lentes, dentro do escuro
Todo herói atira um grito mudo...
Debaixo do uniforme o Superman também tem um coração.
Eu me rastejo, tu corres como um tigre,
Mas juntos violamos o roteiro da vida.
Olhar ao redor em completo silêncio.
Saber que tudo é inútil como escrever nas águas do rio.
(Igor Roosevelt, 04/01/2013)
terça-feira, 6 de novembro de 2012
A FLOR INVOLUNTÁRIA
Ela é o ninho onde cabem minhas asas;
Ela é a luz do firmamento, onde o poeta
Ensaia os vôos siderais;
Ela é o espaço onde as etéreas ilusões se fazem carne;
Ela é o mistério que se oculta na catástrofe da vida;
O sono que me chega no ventre da noite esquartejada;
Ela é o sussurro que me fala quando estou sozinho;
Seus braços são o ardor da flor fecunda
De abraços onde cabe o mundo inteiro;
Ela é lembrança do orvalho no campo imaculado
Antes que o Tempo viesse roer os rochedos
E ela é o segredo do velho alquimista
Que via os dias correndo sem tempo
Sem jamais dar razão aos relógios;
Ela é o medo que projeta a sombra enorme
No corpo do simples mistério de amar;
Ela é um trunfo tirado do acaso, roleta russa,
A flor involuntária dos meus sonhos febris,
O instante de paz e de um lindo abandono
Nesta viagem sem destino que chamamos de vida;
Os olhos do Amor que não vive no escuro,
A lua que passa espalhando saudades,
A forma mais pura de medo e saudade,
Simplesmente Natasha...
(Igor Roosevelt; 25/02/09)
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