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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Identidade



Lembro-me dos tempos em que me afogava
na anatomia alheia e bebia todo o néctar
que era oferecido ao meu paladar.
Eu era triste e talvez vazio
mas não tão melancólico como sou hoje
nem possuía o mesmo olhar sofrido e boca trêmula.
Meus livros não eram tão empoeirados
e a minha saúde não era frágil.
Refletia paixão em minhas poesias
e orgia em minhas noites
frias ou quentes ou chuvosas.

Tentei duas ou três vezes
mantê-la por perto
mas nem sequer consegui
guardá-la em mim.
Não existia uma gota de amor
ou qualquer outro sentimento além de tristeza
dentro do meu ser.

E percebi tudo isso agora.

Quando descobri o abismo
entre viver e apenas sobreviver
guardei os meus discos do Chico
e nunca mais cantei Singin' in the Rain
mas não parei de escrever.

Porque sou poeta
e poeta não deixarei de ser.

(Laís Grass Possebon)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Identidades



Áureo João de Sousa. Teresina-PI, 12 de Julho de 2012.


Estava sentado
na pedreira da existência,
assuntando as águas da fonte,
que umedecem os corpos
e movem os fluxos da vida.

Ao canto de uma pedra,
ergueu-se uma Sereia,
uma voz ecoou,
vindo, não sei ao certo;
perguntou-me:
Quem é você?

Ante as pedras,
sob as forças das águas,
do sopro dos ventos
e da argila vermelha,
eis que eu também interrogo:
Quem sou?

Em anomia,
como um menino assustado,
sob o encanto de sua divina voz,
ó, grande oráculo,
sabes o que tenho a dizer,
só para impressionar,
o que sua sabedoria dispensa de ouvir.

Sou filho da regência do trovão,
na justa medida e conduta;
Feito ao fogo do raio
que rege o devir e o por vir,
profundo e raso, em altura e largura.

Sou filho de Oxum,
banhado nas águas
férteis e fecundas,
guardado nas essências dos lírios;

Sou o canto do sabiá,
encantado,
que encanta as matas
em cada canto que canta.

Melhor dizendo,
Sou o canto do filhote de sabiá,
desafinado e descompassado.
Desafiando as notas e seu tempo,
não sabe, ao certo,
se canta um canto, um piado ou chiado;
aprendendo.

Sou homo-sapiens sapiens,
Mago, Fauno, Sapo,
que come as abelhas que fazem o mel,
que lhe adoça a vida;
contradição da sapiência.

A mesma voz, em outro eco, imponente;
outra pergunta,
profunda e persistente:
A final, quem-é-você?
Ante essa identidade e alteridade,
Interrogo-lhe e me pergunte:
a final, quem sou?
.

...

Referência:

SOUSA, Áureo João de. Identidades. Disponível em <http://aureojoao.blogspot.com.br/2012/07/identidades-poema-poesia-e-filosofia.html>. Acesso em: 28 Julho.2012.




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

HOMENAGEM Capoeira de Qulombo



HOMENAGEM
Áureo João, Teresina-PI, 07 de setembro de 2011

Iê... iêê... iêêêêê...
Canta passarinho,
Canta para encantar a terra, o fogo, a água e o ar,
Canta para equilibrar os elementos na roda,
Canta um canto alegre para alma que é nossa,
Canta rindo com a gente, para saber que não canta sozinho.

Canta Sibito, canta!!!
um samba de roda,
um pagode de nêgo,
uma capoeira de quilombo ou de angola,
Canta o quilombo mundo na roda que encanta.

Viva a quizomba que é boa no quilombo mundo,
ria o riso de festa e da luta,
ofereça gargalhadas de criança ao vento que zôa,
assunte a risada que nos agoura má sorte e nos zomba à toa;
gira com ancestrais na roda, vivos em mundo quilombo.

Canta, Voa e gira Sibito, como nêgo vivo gente.
Ginga na roda que é sua e que é nossa,
Faz capoeira de quilombo mundo,
com os pés que pisam em aruanda,
com alegria e filosofia da capoeira que é da gente.

Voa passarinho; Voa um vôo alto, para ver a Terra toda e o Mar.
Pássaro que é livre voa para ver o quilombo quilombar;
Sibito que é livre voa como besouro no ar para ver o quilombo de lá,
Voa tiziu, voa pardal, voa azulão, voa canário, voa gavião, voa sabiá,
para ver quilombo quilombar quilombolar;
... ... ... ... Iê... iêê... iêêêêê... Quilombo Vive!!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 29 de janeiro de 2011

TERESINI - ME




Teresini-me com teu calor
Teresini-me com tuas arvores
Teresini-me com seu concreto
Teresini-me com sua beleza
Teresini-me com sua pobreza
Teresini-me contigo
Teresini-me ao maximo
Teresini-me com tua opressões
Teresini-me com tua razão
Sua racionalização
Teresine-me com sua burguesia perfumada
Teresine-me com seu progresso?
Sem nexo, permaneço
Anexado
Estagnado
Me mantenha tão perto, para que assim eu esteja mais distante
Descontextualizado
Ali é nada
Teresine-me
Me construa
Me faça quem sou
Bom ou ruim
Me forje
Teresine-me

(Victor Marchel)


domingo, 19 de dezembro de 2010

INDIGNA BONDADE - poema, poesia e filosofia

 1.
Eu ensinei a meu filho as funções de comer, beber, andar, falar e fazer outras faculdades biológicas,
Eu aculturei meu filho no lugar, no tempo, na história de seu contexto e num destino infalível;
Eu lhe inculquei o valor supremo da obediência a mim, aos mais velhos, à ordem, ao que lhe foi ensinado tal como tal, sem lhe deixar a necessidade de perder tempo em investigações sobre as causas primeiras e últimas das coisas;
Eu lhe eduquei a respeitar a Deus, sobre todas as coisas, e torná-Lo inquestionável pela fé absurda;
Com este feito, conto com a certeza de sua conduta sempre previsível, inalterada e linear, sem nenhuma desobediência criativa; ele não haverá de contrariar minha bondade e o bem que lhe reservei.


2.
Os pais, presente que Deus só nos dá uma vez na vida, ainda que a cultura nos possa mais de outra!
Não sei do que será de mim, sem a presença e o amparo de meus pais!
Temo que eles um dia morram!
Nesse dia terrível, sinto que não me haverá mais sentido em viver neste mundo!
Pelo menos a herança, para compensar esse vazio, eu farei tudo o possível para deserdar os demais de direito, o primogênito e o derradeiro, para que eu possa preservar e zelar pela lembrança e saudade dos meus entes amados! Cada um saberá que é para o bem de todos!!!


3.
Em me achando diante de alguém vazio de sonhos, eu o convencerei a construir sonhos seus!
Já tendo sonhos construídos, eu o convencerei a acreditar em seus sonhos ainda que outros não!
Já confiante em seus sonhos, eu o farei acreditar que é possível realizá-los, ainda que a persistência lhe seja necessária e o custo seja elevado!
Eu, ainda, o acompanharei para testemunhar suas vitórias e contar seus sucessos!!!
Assim, quando usufruir da colheita, eu quero estar na primeira fila da divisão dos bônus, sem quaisquer ônus, e sempre lembrado de (por) uma obra impagável; ele não haverá de esquecer minha bondade e o bem que lhe fiz, mesmo que seja necessário lembrá-lo sempre.


4.
Em podendo ajudar ao próximo, eu o farei com a mais convicção e exposição possíveis de serem notadas!!! Assim, aquele jamais me negará um sacrifício!
Em podendo defender o direito do outro, eu o advogarei firmemente perante seu algoz, seu destino, sua sina ou má sorte! Feito isto, ele certamente renunciará parte dos seus mais nobres direitos e valores e, quem sabe, até a alma, em minha recompensa!
Aos entes empobrecidos, aos de má sorte, aos carentes de amor e de matéria, eu não lhes negarei uma farta caridade; eu lhes anunciarei a grandeza e a bondade raras dos ricos, a boa sorte de berço dos afortunados, a alegria dos merecidos de amor e matérias. Isto, lhes trarão conforto, ainda que breve desejo;
Aos inquietos e aos irrequietos, eu lhes ensinarei que a paciência ilimitada e a esperança eterna e passiva serão lembradas e recompensadas por Deus, ainda que depois da morte;
Essa caridade não ficará no anonimato e constará dos relatos, dos mais diversos registros e linguagens possíveis à época, para que mortais sejam lembrados de meus gestos e que Deus não possa me negar a salvação e o paraíso, por mérito dessa bondade!!!


Indigna.

(Áureo João)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ETNOCÊNTRICO - poema, poesia e filosofia


Aquele que não nasceu no meu lugar padece de infeliz sorte do destino, por não merecer a originalidade de uma digna naturalidade de nascença; não terá pior sorte em sua vida, se for mesma sua, se devotar-se ao lugar de minha nascença;

Aquele que não tem beleza corpórea igual à minha: minha raça, minha cor, minha linhagem; não pode-se dizer belo; poderá apenas admirar a beleza que é minha e não sua;

Quem não aprecia minha comida e minha bebida, sem iguais, não tem bom paladar, não tem bom estômago e não é herdeiro de bom gosto, nem de fina culinária;

Aquele que não foi embalado nos tecidos que me embalaram não vem de berço que se possa admirar, preservar e salvaguardar;

Quem não se veste tal como às minhas vestes não tem faculdade de Inteligência para discernir o elegante do ridículo;

Aquele que não sabe meu saber, não sabe; nem sequer sabe do meu tipo de compaixão para aliviar sua triste sina, merecida somente quando revogar seu não-saber e outorgar meu-sumo-saber; sua fortuna, coube-me por encontrá-lo e descobri-lo;

Aquele que não faz o que eu faço e como faço o meu fazer, não possui um sofisticado fazer neste mundo que é meu, nem tem o que ensinar nem o que continuar;

Aquele que não alcança o êxtase do choro, do riso e da contemplação refinada com minhas artes, minhas músicas, meus enredos, não terá outra reserva a não ser o lamento desafinado e poluente de suas cordas vocais, de seus instrumentos e por suas criações inferiores;

Aquele que não crê no Deus que me rege não conhece a Deus verdadeiro;
Quem não crê nas mesmas minhas crenças não sabe crer;
O outro que não anda como eu, sequer aprendeu a caminhar. Terá boa sorte, se eu puder carregá-lo.
Aquele que não escolheu a minha escolha, não tem uma escolha porque não o sabe fazer, mas lhe será ensinada a minha em todos os seus dias;

Aquele que não é como sou, não é sequer.

(Áureo João)

ZOOM


Se essa máquina tivesse zoom, seria muito boom

Levanta cedo, come um bucado, tá atrasado tem que ir a pé
a natureza ali do lado e ele apressado prum Canindé
parece vivo, meio destraído a rotina fira, sem coração
a magia desapercebida, movido apenas por ilusão

zoom, zoom, zoom, capoeira ainda mata um
zoom zoom zoom, seria muito boom

pisando torto, desajeitado, sai do trabalho, alienação
andando manco, não vai ao pranto, comida custa muito tostão
e levitando como um container, pronto pra cair se perder no mar
e o corpo voa pelas calçadas, não há de que, não arrumar

Se a máquina tivesse zoom, o céu talvez seria mais azul
contornando a dor de cada um, em bolha de sabão, em rede de tucum
transformando o choro num tumtum, seria muito boom dançar um Olodum
megapixelando a vida de triste sofrida, em vôo de anum

zoom, zoom, zoom, capoeira ainda mata um
zoom zoom zoom, seria muito boom

(André Café e Filipe Saraiva)

UM CREDO PARA RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA

 UM CREDO PARA QUEM BUSCA UM CREDO


Creio em Olorum, princípio criador; nosso Deus Supremo, Senhor de todas as coisas; criador do universo; criador de todas as coisas materiais e imateriais: criador da terra, das águas, dos ventos, do fogo, das matas, das pedras; Criador dos Orixás Sagrados.

Creio em Oxalá, Pai dos Orixás e nosso Pai Maior, criador e Senhor regente da Sabedoria de Orum (céu) e de Ayê (terra); regente no céu e na terra; fonte de luz, amor e paciência; criador de nossas nações humanas, dos bichos, dos vegetais, dos minerais e dos insetos;

Creio em Iemanjá, Grande Mãe. Mãe dos Orixás e nossa Mãe Maior; Divindade regente das águas dos Mares.

Creio nos Orixás Sagrados, entes divinos encantados nos fragmentos da natureza e regentes de suas forças e de suas manifestações no universo, na terra, nas águas, nos ventos, no fogo, nas matas, nas pedras, nos seres humanos, nos bichos, nos vegetais, nos minerais e nos insetos;

Creio na influência de nossos Ancestrais sobre nosso sentir, pensar e agir no mundo;

Creio nas religiões de matrizes africanas, que nos deixaram o legado de nossa ancestralidade e dos seres divinizados;

Creio no Axé, Lei, Força e Poder, que permite a realização da vida; que assegura a existência dinâmica; que possibilita os acontecimentos e as transformações; e a realização sobre coisas ou pessoas; que nutre a paz, união, amor, felicidade, sucesso, harmonia entre nós e com OLORUM.

Creio nas forças e energias da Mãe Natureza, que nos permitem as construções das coisas materiais; a produção dos nossos alimentos de cada dia, as acomodações de nossas moradias;

Creio na capacidade positiva de realização dos seres humanos, na edificação do Bem e da Justiça, na evolução social e na sua humanidade;


Que seja assim no dia de hoje!!! e sempre!!! e sempre!!!

(Áureo João)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Ontológico Identidade do humano no mundo

 Eu quero ser
Eu quero ser o que eu não sou
Eu não quero ser o que sou

Eu quero ser

Um ser divinizado,
Fora do conflito do bem e do mal, onde assim for,

Eu quero ser Deus

Incriado, incausado, atemporal, princípio de princípio, medida de tudo;
Dono de si mesmo, regente e regido em si e por si;

Eu quero ser conhecedor da substância da água, do fogo, dos ventos, do pó e do sopro vital,

Eu quero ter consciência da consciência de ser
Eu quero saber o ser distinguir-se e distinguir-se dos entes mais

Eu quero ser o diabo: Imprevisível, vigilante, auto-observador de si mesmo; temido; aniquilador;

Caminhar nas profundezas das águas, molhar e não se afogar,
Atravessar na chama, dançar com o fogo e não se queimar,
Voar nas tempestades, cair sóbrio, levantar consciente e não se perder de si,

Não podendo ser, eu quero ser

Ser um bom fazedor; ainda que de perguntas, de respostas;
Quem sou? Onde estou? Como estou? Com quem estou?
Ou de si mesmo

Ser o ser que não tem medo de si mesmo.

Não podendo ser além-homem, meta-homem, mais que gente, mais que humano,
Que humano e gente seja, agora e sempre!!!

(Áureo João)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CONVERSANDO SÓ OU COM OS ASTROS - poema, poesia e divagações

O Sol da Noite (criado em 25/07/2007, às 02:00h e 10:00min)

Alguns seres gostam de olhar e admirar a Noite!
Outros seres se embriagam na sombra da Noite.

Existem aqueles outros seres que fazem poesias caminhando com a Noite,

Outros, ainda, não gostam de fazer nada com a Noite. E outros não podem fazer nada com a Noite, ainda que desejem!!!

Os piores casos são daqueles seres que a Noite não lhes quer fazer nada; não oferece sombra, nem embriaguês, nem inspiração poética, nem lhe acompanha em suas jornadas;

Mas o Sol e a Noite se encontram diferentes!
O Sol não só faz poesia na Noite, mas também faz poesia para a Noite e para seus frutos!!!
O Sol também faz algumas poesias com a Noite, na sombra dela, embriagado com ela e inspirado por ela, Noite Bela!!!

O mais importante é que o Sol entra na Noite, pois a Noite também entra no Sol.
O ponto mágico acontece quando o Sol entra na Noite e a Noite entra no Sol, de tal modo que o Sol da Noite e a Noite do Sol se misturam e se fundem em algo que não é só Sol, nem só Noite!!!
E se pensam:
Ao pino do Sol, pensa-se a Noite,
Ao silêncio inquieto e movimento da Noite, pensa-se o calor do Sol.

É para você que o Sol e a Noite estão em órbitas!!!!

(Áureo João)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

PEDRAS: REFLEXÃO POÉTICA E FILOSÓFICA



Pedras

Há pedras, cantos, contos, encontros e encantos,
Há pedras em cantos,
Há pedras com cantos,
Há cantos, contos, encontros e encantos em pedras.

Há pedras,
pedras em contos,
contos em pedras,
pedras que cantam

Há encantos nos cantos, das pedras
Há as que cantam, nas pedras
nos cantos daspedrasquecantam os contos dos cantos,
faz conto, canto, encanto e encontro, das pedras.

(Áureo João)

sábado, 4 de dezembro de 2010

O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia.




1.

Assuntar assenta em assuntar-se, em conjugação reflexiva pura;
É assentar em si mesmo, sobre e dentro de suas entranhas visíveis e naquelas não visíveis,
Para captar as manifestações e expressões extravasadas e os discursos silenciados e os dissimulados;
É perceber o corpo físico, o vital, o emocional, o mental, o intelectual, o astral e o espiritual manifestos em seu universo particular, íntimo pessoal;
É caminhar em si até sentir medo da estranheza de si mesmo e irreconhecer lugares, virtudes e ausência destas, nunca antes observados, nem declarados de sua pertença própria. 2.
Assuntar é uma conspiração em si mesmo,
É penetrar nas dimensões da direita e do avesso, assuntando-se, auscultando-se;
É dissecar o amor que sente e o ódio que manifesta, seja na qualidade exposta para fora de si, seja naquela expressão reservada de sua interioridade exclusiva;
É percorrer em si mesmo até reconhecer porque ama e como ama; porque odeia e como odeia;
Inclui ancorar na dimensão de seu amor até então desconhecido, mas também comporta em penetrar e reconhecer as dimensões da indiferença e dissimulações sobre as manifestações de seu ódio;
3.
Assuntar comporta mergulhar no amor do outro, sem se deixar contagiar de sua manifestação particular dele;
É sentir como o outro sente o amor que é seu, por aquilo que lhe faz amar;
É reconhecer porque o outro ama e, especialmente, como ama e os fundamentos da expressão de seu amor;
Comporta cuidar do seu amor particular e universal, do outro, com o saber cuidar que é, também, de seu particular do outro;
Suporta cuidar do amor do outro, sob o fundamento do outro e o cuidado que lhe é singular; que é de sua identidade, sem fundir-se nem confundir-se com o outro.
4.
Assuntar é encostar-se no ódio do outro, sem nutri-lo nem amenizá-lo;
É compreender as vibrações que enraízam no ódio do outro e as dimensões em que se realizam;
É reconhecer a causa que ativa seu ódio dele e o torna irreconhecível à rasa racionalidade humana;
É reconhecer, sob o fundamento do outro, o que lhe conforta e lhe ameniza o ódio que lhe acomete;
É pensar, sentir e auscultar o ódio do outro como se fosse ele mesmo em atividade de assuntar-se assuntando-se, em pura conjugação reflexiva e empática. 5.
Assuntar é conhecer a si mesmo, pelo direito e pelo avesso;
Em sendo uma galinha, sabe-se galinha, em suas dimensões e manifestos autênticos e em suas dissimulações;
Em sendo uma águia, sabe a si mesma águia, quando verdadeira e verossímil, não mais nem menos que a galinha que conhece a si mesma inteira;
Em sendo sábio, conhece a si mesmo primeiro, ainda que inconcluso sempre, antes que lhe seja requerido conhecer uma galinha e uma águia tal como para si mesmas;
Fora desta conjugação de assuntar assuntando-se, o sábio ignorante, a galinha e a águia são apenas e igualmente bichos importantes, que comem, bebem, dormem, reproduzem, sem saber o fundamento de si nem o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo; 6.
Assuntar é uma Bela Arte em movimento e exercício que se conjugam no artífice assuntador, que é assuntador de si mesmo, que é assuntador do outro, que é assuntador do mundo, há um tempo só;
Põe-se perante Deus e reconhece as faces de Deus, seus atributos e seus propósitos, se for mesmo Deus o ente à sua mira;
Mira os olhos do Diabo e capta o intuito de sua benevolência e sua malevolência, se lhe for apropriado o atributo e significados, ainda que não se apresente Diabo; reconhecerá seu criador, seus símbolos, seus poderes e suas funções no mundo concreto e no imaterial;
Dobra-se diante de si próprio e capta o ser que é mas não quer ser; o ser que quer ser mas não o é, e o ponto de encontro de seu movimento em si mesmo;
O assuntador não teme a Deus, nem ao Diabo, nem ao outro, nem a si mesmo, porque ausculta cada um destes, porque os distingue, porque não confunde seus atributos, suas evidências, seus propósitos, suas identidades, quando os têm e quando lhes faltam; e quando lhe convém. 7.
Assuntar implica perceber cada lugar em seu lugar, enlaçado a um tempo e a seus movimentos singulares;
Se o lugar é o mato, com os bichos e os entes da natureza, então assuntar comporta conhecer os astros, interagir com a terra firme e a lama, auscultar a direção dos ventos, compreender as forças das águas, respeitar o poder do fogo, sentir as vibrações das matas e a comunicação de seus regentes;
Se o lugar é entre os humanos e seus inventos, assuntar conjuga observar e compreender os fundamentos e as intenções de seus discursos objetivados e silenciados; discernir a elaboração de seus pensamentos; sentir seu coração; compreender a conduta de suas atitudes e o fim último de seus objetos e seus significados.
Se o lugar é seu lugar, assuntar se realiza em tomar a si mesmo, predicado nas suas relações intrapessoais puras e na conjugação das relações com o lugar-mundo de ninguém, com o lugar-do-outro e com o não-lugar, e não se perder de si mesmo entre os mais;
Se o lugar é o lugar do outro ou o outro próprio, assuntar se efetiva, profunda e sutilmente, em distinguir quem é e o que é cada ente e lugar singular, mas também suas interseções e exclusões;
8.
O assuntador não é, necessariamente, generoso ou algoz;
O assuntador é porque se fundamenta assuntador;
Conjuga-se atributo do vil algoz, se algoz;
Conjuga-se atributo do digno generoso, se o for;
O assuntador é o que sabe assuntar; assuntar-se e sabe-se assuntante, auscultante em processos dinâmicos, contínuos e permanentes; é um ente que come sua comida, bebe sua bebida, dorme ou deixa de dormir ao seu modo, reproduz e produz consciente das condições que o faz; sabe o fundamento de si e o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo. ... ... ... ... ...
Dedicatória a um Mestre.
Desde que fiquei sabendo da enfermidade ocorrida ao Professor Puscas, bem como de sua resistência à adversidade que lhe desafiou, fiquei emudecido sobre o assunto. Eu não tinha algo a lhe dizer, nem a lhe perguntar. Eu não tinha elogios a lhe fazer, em face do antigo corpo mais pesado, nem sobre o novo corpo mais leve, nem sobre o fumo, nem sobre a cachaça. Eu não sabia o que lhe dizer sobre sua militância na universidade, nem sobre seu momento de repouso pleno no leito do hospital e/ou em leito domiciliar, nem sobre seu retorno às lutas cotidianas. Eu apenas assuntei.!!! Assuntei sobre a grandeza de humanidade do Mestre Puscas; da sua capacidade de assuntar a si mesmo, de assuntar os outros e aos outros; de assuntar o mundo, sempre digno e generoso, sem temer a Deus, nem ao Diabo, nem aos outros e nem a si mesmo, porém sábio em distingui-los em suas identidades, em suas faces, em suas origens, em suas histórias e em seus propósitos no mundo.
É um grande assuntador. É um Mestre.
Dedico a meu Mestre Puscas um poema que acabo de “psicografar”: O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia, como um gesto assuntado apreendido. Em repouso e em movimento, que a leitura seja de bom grado ao Mestre.

(Áureo João)

CONTRADIÇÕES DA VIDA




1.

Eu queria fazer belas poesias, daquelas que encantam as beldades que se guardam em castelos revestidos de granitos, portobello e cerca elétrica; grandes castelos de areia;

Eu queria poetar sobre flores do consumo do clero e da nobreza; daquelas flores que a gente compra em floricultura personalizada; flores de jardim cuidado por jardineiro contrato e assalariado exclusivo, e leão-de-chácara no portão da entrada;


Eu queria saber de meus poemas ostentados em raras molduras, em convites de festas especiais e jazigos glamourosos;

Mas no coração do poeta a flor que brotou é flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; é flor de roça; é flor de terreiro; encantos que não germinam em granitos nem à sombra de cerca elétrica;

A beldade que encantou o coração de poeta faz poemas na mão, no coração, na alma e na vida do poeta; e dá vida e felicidade ao poeta; anda na sombra de si mesma; caminha a pé pelos caminhos que os povos caminham;


Coração de poeta se encanta com beldade que contempla flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; flor de roça; flor de terreiro; músicas de passarinho e com o canto do galo; encantos que não germinam em qualquer lugar nem todo mundo pode alcançar.

(Áureo João)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

PRA ONDE VÃO OS NINGUÉNS?




Cálido desejo de versar,
Sobre angustia,prazer, algo qualquer pra se dizer.
Tangido pra outro lugar
Amordaçado.

Açoitado de volta a caminho de casa,
Morada do silêncio
Somente ali
Nenhum outro lugar ele pode ser, quem realmente é
Quem realmente é, para os outros.
Lugar apropriado pra existir
Existir na inexistência

Ser de mundo nenhum
De mundo algum

A razão se apropriou,
De suas palavras e gestos
Verdadeiros? Espontâneos? Loucos?
Sim!
Loucos

Deveriam ser gestos, exatos, válidos, corretos, apropriados?
Assim que me querem
Só resta boicotar o pensar burocrático, excludente
Não penso, logo Inexisto...

Apenas no seu pensar

(Victor Marchel)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O DIREITO DE IR E VIR E RIR A VIDA - poema, poesia e filosofia




1.
O direito de ir e vir é fundamental, é vital, ainda que não se possa rir a vida;
É necessidade subjetiva essencial, ainda que não se possa ir com a vida.
Que lugar é esse que piso e repiso sob o direito de ir e vir,
Mas não se pode rir a vida no ir e vir com a vida?
2.
Vida, o primeiro direito ou a razão última?
Vida, o que seria esta sem o ir e vir?
Mas o que é a vida, o direito a esta e o direito de ir e vir, quando não se pode rir com isso tudo pouco?
3.
Que tempo é nosso tempo?
Tempo que se rompem desafios para garantir a longevidade a todos,
Vida longa ao rei e à rainha!!!
Vida longa ao súdito!!!
Ainda que nos pareça mais brevíssimo o romper da vida, antes mesmo que se possa ter tempo para rir a vida consigo mesmo, com amigos, filhos e netos.
4.
Homo-sapiens, homem sábio, homem sapo; homo-sapo; sapo;
Gostos, ausência de gostos e desgostos rondam em comum;
Pela boca que degusta as moscas que te chegam ao paladar,
Pelas moscas que degustam na boca morta que ri um riso morto, antes mesmo que possa rir da sapiência que lhe seja superior.
5.
O direito de ir e vir é fundamental, ainda que não se possa rir a vida;
É necessidade do sujeito individual e do coletivo de sujeitos, ainda que não se possa ir com a vida.
Analfabeto não pode ir e vir em meio a tantas línguas, linguagens e códigos que lhe confundem;
Letrado doutor não pode ir e vir em meio à brevidade de seu tempo que se anuncia, que lhe confunde, que lhe nutre o medo, que lhe pode cerrar o riso, seu ir e vir;
6.
Ricos e empobrecidos; belos e não-belos,
Ir e vir, sem rir, não tem nenhuma graça,
Nem ao homo-sapiens, nem ao homo-sapo, sapo;
A menos que a racionalidade do homo-sapiens seja própria da negação de rir e da ausência de graça em seu fazer e saber.
7.
Das riquezas todas do mundo, o que nos cabe em direito de rir...; do que é bom; porque é bom; porque faz um bem; por afeto; por alegria; por respeito; por prazer?
Do Capital no mundo, quanto nos custa rir, não raro sem direito de ir e vir – ou com este -, pela mais-valia que se ganha não-sei-como e se acumula nas mãos de não-sei-quem ?
Das leis que regem nossas vidas, nossas relações no mundo e com o mundo, e as coisas do mundo, tantas nos garantem o direito de e ir e vir; e quantas nos asseguram o direito de rir, no ir e no vir?
8.
Queiram os desígneos dos deuses que nossa vida não se acabe, sem antes gozar de muitos risos; dos risos que se ria só; risos que se possa rir com os filhos, e com os filhos dos filhos, e com os filhos destes;
Permitam-nos as leis da Natureza, que regem nossa existência natural, que o direito de rir a vida seja mais extenso e mais intenso que o curso das terras pisadas sob a garantia do direito de ir e vir;
Faça-se Cultura, em que se faz o humano, que inventou cultura e se reinventa, ainda que inacabado sempre, mas não subtraia o riso afetuoso e prazeroso, pelo simples direito de rir e rir; pelo direito de ir e vir e rir, digno de todas as pessoas e conjugações que o verbo comporta na vida, por criação e recriação humana;

(Áureo João)

Terra do nunca




nas incertezas nos guiamos, num salto no claro, no profundo da vida
nas incertezas nos perdemos, pois se perder é bom, afim de encontrar algo
nas incertezas nos indagamos, e continuamos esse carrossel enfeitando a vida e a morte.
chega de experimentar? não
chega de ir mais longe? nunca
chega de se doar? jamais
chega de boiar nas incertezas da terra do nunca
(André Café)