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terça-feira, 12 de junho de 2012
Eu vou amar você acima dos montes possíveis dessa vida ou de outra além de nós. Não haverá espera em nosso amor, nem brigas acerca a demora das estações. Estamos sobrevoando a vida do mundo, distantes de todos os habitantes que vivem correndo pelas vielas sujas das cidades abarrotadas de palavras. Continuaremos aqui, cortando nuvens, tocando estrelas, de mãos dadas, cada vez mais próximas ao divino, Àquele que nos uniu com um sopro do destino, quebrando todas as mágoas deixadas pelo passado de cada um de nós. Ao seu lado, meu amor, a vida segue um rumo natural de água caindo por entre as pedras banhadas com musgo e plantas marinhas. Dispensamos continuar com a cabeça mergulhada no egoísmo, no contar das horas, lutando por um futuro incompleto. Largamos o mundo para nos perder dentro de cada um. Eu habito seu interior, faço choupana em tudo que há vago em você, preenchendo as lacunas, ocupando os vazios e afastando de nós toda a solidão que antes era a nossa companhia. Ao seu lado, redescobri o sorriso, a verdade que tanto tinha medo de voltar a declamar. Amar você é a sensação capaz de me transportar para mundos distantes da realidade, erguendo castelos de beijos, olhares apaixonados e carinho, até mesmo de dengo – essa mania deliciosa que sempre encontro em você.
Não há abrigo mais seguro do que seu peito, meus dedos entrelaçados em seus pelos, agarrando com força tudo que me mantém protegida em um mundo que não confio, que luto para não fazer parte completamente. Você se tornou absolutamente tudo em mim, para mim e por mim. Pensar no amanhã é pensar em você ocupando todas as estradas da minha vida, indicando o rumo certo para a felicidade. Amar você é uma dádiva e jamais voltarei a desconhecer o milagre – encontrado somente em você.
Faah Bastos
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Você desperta o sussurrar de uma andorinha a cortar verões, o mexer inesperado das nuvens, dançando como amantes embriagados ao término do baile – incansáveis sensações que nos destroçam a mover mundos. E a doce camada fina de gentileza se desmancha sobre nossos lençóis, suas asas se exasperam e posso sentir uma cantoria sombria por entre a sebe dos seus olhos. Ninhos de amor produzidos com o musgo das tentações, fazendo trilha em mim – uma capital despedaçada por invasões estrangeiras, permanecendo abnegada ao sopro sussurrante dos prantos poéticos temerários de dor. Nuances infernais de um acorde solto ao canto da boca que espera o silêncio consternado da andorinha que ainda vaga por entre mundos a despertar morte de amor em vossos lábios.
Faah Bastos.
INSANO
Havia um tom azul naquela tarde que se espreguiçava por entre meus dedos, como um manifesto suave de cores a bailar condensamente pelas entrelinhas dos meus olhos; agora, mergulhados no desequilíbrio dos seus passos a cintilar uma poesia formada por adornos imaginários que cavalgaram da minha mente através do vento, até repousarem solstícios em seus braços.
Talvez fosse apenas a epiderme da sua proteção que ouriçava meus sentimentos ou fora somente o sentir da divindade escorregando por seus lábios de pupila ingênua que ainda aperta as maçãs do rosto para conseguir maquiagem. Doravante, sei que somente mergulhei. E fora em um salto mortal das minhas amarguras, tentando desprender-me loucamente de cada uma delas, para ser o mais leve possível e capaz de ser sustentado por seus dedos frágeis de menina que ainda rabisca versinhos mimosos em folhas de diário. Talvez um mero tolo a acreditar que seria resgatado por suas proezas insanas e intocáveis de menina que brinca com o nascer do sol em seus beijos lançados ao vento, ao tempo, sem cuidado algum. E fora, com toda a certeza, um desses beijos vulgares que por você correu, que alcançou a muralha de proteção lapidada constantemente, dia após dia, sem cansar da minha proteção espessa e densa de amor renegado. Esse sabor angelical, invisível, intocável que despertou os demônios adormecidos em minha alma, até então silenciados pelo medo e repúdio em serem aceitos por tal ser de doce candura a se derreter sob a ação dos raios de sol de um verão mais violento.
Eu bem queria, meu amor, meditar em segredo os poemas que ando a escrever para você, mas soa tão prematuro minhas rimas, que faleço, senhorita, antes mesmo de findar o soneto que carregue nas entranhas seu nome não mais abnegado em mim. Tornei-me, sem colocar em dúbia a minha verdade, um escravo, um lacaio, um lascivo cortês da sua existência que passa por mim como um tornado, arrancando lares ainda habitados por minhas memórias – algumas derradeiras. Libertei-me do laço macabro da esfinge dos seus lábios por desenhá-los entre meus rabiscos poéticos, mantendo-me fiel a sua conjuração de independência – por sorte, não de nós.
Sou um mero ser de existência duvidosa, sem qualquer níquel em meu bolso, mas com o ouro a brotar do meu coração destinado a labutar por você, sendo minerador das suas artimanhas de moça donzela que corteja a si mesma por ser assim tão… tão absurdamente bela.
É insano, muitos dizem, mas se a insanidade se torna uma repetição de determinada ação a qual sabemos o resultado, mas por mera loucura, esperamos algo diferente, então posso gritar ao mundo, entre o jardim das nossas tulipas negras, que sou vertiginosamente apaixonado por você tal como um ser preso em sua órbita gravitacional.
Insano, meu amor, é manter-me assim em palavras quando meu corpo anseia devorar o seu em pecados.
Faah Bastos.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
É o amor que nos impede de respirar tranquilamente, de conversar sobre as mãos calejadas e os joelhos feridos. É o amor que nos abandona no escuro, sem deixar uma vela para que possamos encontrar as rachaduras do coração, que somente crescem, criando raízes no jardim, antes ocupado por nossas peônias e girassóis de sorrisos. É culpa do amor que não desacelera um pouco para que possamos diferenciar as mentiras dos suspiros reais de amor. Assim eu notaria que você ainda não aprendeu a amar e tem brincado com meus sentimentos. Perceberemos que é tarde demais para continuar a andar em círculos, ouvindo as mesmas músicas que embalavam nossos corpos. Mas eu não consigo acompanhar essa velocidade do amor, me desprendo desse trem e fico calada, jogada sobre a relva dos seus olhos, aguardando o crepúsculo que salvará as nossas almas. Eu só queria parar o mundo e plantar vida com você.
Faah Bastos
Excita-me
Excita-me essa sua predisposição em conhecer minha intimidade; roçar sua barba em minha pele, criando figuras imaginárias de bichinhos felizes a saltitar pelos meus seios, deslizando nas curvas da minha barriga que sempre se arrepia com seu suspirar tão próximo ao meu cobertor epitelial; sussurrar histórias da sua infância, enquanto se estica por inteiro em nossa cama, deixando os raios do amanhecer desvendar segredos em seu corpo, em seus cabelos negros como a noite anterior, cheio de ondas que encaracolo a ponta dos meus dedos quando preciso de um pouco de paz. Excita-me mais ainda quando ficas em silêncio e me come por inteira com seu olhar, decifrando os meus mistérios – ou sendo um bom fingidor –, atiçando a minha curiosidade sobre seus pensamentos, ou me prendendo em suas teorias de conspiração, por achar que Deus se diverte com nossos tropeços premeditados, ou quando choramos por um amor que ainda florescerá.
Reviro-me em seus olhos quando expelem aquele brilho de quem acaba de descobrir uma nova equação que mudará o mundo, que destruirá a maldade ou apenas fará uma bomba que ficará no papel. Ou quando se espreguiça no sofá olhando para a televisão sem nada enxergar, porque sua mente vaga, silenciosamente, em nosso mundo, buscando respostas para um futuro que nos assusta, mesmo sabendo que por questão de saúde precisamos continuar juntos.
O que mais me excita em você talvez não seja apenas seu cheiro quando chega da rua, e mesmo suado ainda exala um perfume que me aprisiona, desequilibra meus pés na corda bamba e me lança para um mundo desconhecido, mas talvez o sabor dos seus beijos que sempre recolhem a minha sanidade, e me deixa solta, em queda livre, no penhasco do desconhecido, mesmo sabendo que o chão é seu corpo. Excita-me correr minhas unhas, muitas delas com o esmalte desgastado, por suas costas, arrancando um pedacinho do seu DNA e guardando comigo, ou esfregando meu corpo inteiro ao seu enquanto compartilhamos uma ducha, permitindo que a água ocupe os minúsculos espaços entre nossos corpos que anseiam mais outras longas horas de amor, da sua respiração em meu ouvido, gemendo palavras que misturam amor e tesão, criando uma cápsula de separação do mundo, nos permitindo ser somente selvagens amantes apaixonados e românticos – e ai de quem dizer o contrário.
Excita-me, sem prolongamentos, essa forma de dizer que me ama todos os dias, muitas vezes sem precisar abrir a boca, separar os lábios, somente me olhando, correndo sua energia pelo meu corpo, despertando os Universos internos do meu ser, saciando meus batimentos cardíacos que enlouquecem todas as vezes que nos aproximamos, mesmo assim, casados em alma, em corpo, em lágrima, em amor. Excita-me de bom grado ser somente sua e poder compor poesia em silêncio, rabiscando folhas em branco, que anseiam insanamente a presença do seu nome. Excita-me, na certa, ser a parte diária em sua vida – e com certeza isso me basta.
Faah Bastos
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
A mulata, um café e o tempo.
Era uma manhã como qualquer outra. O café esfriava na xícara sobre a mesa, isolada do resto do estabelecimento, enquanto os olhos dele corriam livres e despreocupados pelas paredes recém-pintadas, misturando-se com o cheiro de reforma, mais o caldeirão de fragrâncias dos clientes, mesmo sendo possível espiar ao longe um cheiro de leite fresco sendo derramado no chão da cozinha. E ali ficavam seus olhos varrendo as pinturas que sucediam em seu campo de visão, pessoas comuns, conversas comuns, mundos distantes. Aquele ar soteropolitano misturado com calor envaidecia qualquer pessoa, mas o deixava aturdido, perdido entre olhares, café e boemia falsificada. Esticava-se um pouco na cadeira e mentalizava os dias de infâmia correndo pelo Bonfim atrás das baianas, querendo mais e mais fitinhas para amarrar na pipa. Os dias eram gostosos, quentes, mas preguiçosos, nada dessa correria de hoje, desse vai e vem de corpos desprendidos de sentimento, de calor humano, apenas suor, suor e suor. E é uma barulheira, um buzinar frenético, um ar pesado, música se misturando demais, casando com quem não deve. É um gritar, meu Deus, um gritar. E ele ali, parado em meio ao turbilhão de mundos, esvaziando-se de tudo, dos sentimentos, das dores, das marcas, das memórias, das prestações, de tudo que o esperava lá fora: um mundo que não o queria, por isso o expulsava indiretamente da sua dança – uma falsa valsa que nunca começava, que ficava apenas nas primeiras notas de uma canção que sumia assim que se aceitava dançar.
- Tempos de guerra, meu jovem. – dizia um cidadão envelhecido pelas amarguras da vida do outro lado do local. Usava um chapéu de couro falsificado com uma fita de cor escura. Seu rosto era a marca fiel daquele povo bastardo. Cabelos grisalhos, boca quase sem dente e um ar de que a vida deveria ter passado sem pressa. – Esse mundo anda perdido. Todo mundo querendo matar todo mundo, mulher se dando por aí… Olha lá a filha da Dona Margarida que se espichou toda e agora nem é mais menina moça. Fica descendo a ladeira do Pelô mexendo aquela parreira de bunda como se levasse nas cadeiras o diabo. – E voltavam os murmúrios de um novo assunto que mexia com a verdade e dignidade de todos, os discursos justos sobre educação, família e valores, que eles mesmos esqueciam.
- Hipócritas – pensava consigo enquanto seus dedos corriam pelo arco da xícara, desenhando-a como uma silhueta de uma dama formosa que ele não possuía. “Tempos de guerra”, disso o velho tinha certeza, tempos difíceis que correm tão desesperados que nem podemos experimentar o néctar dos dias, saborear as tardes sentado em um banco qualquer, vendo as ondas beijarem a praia, as mocinhas passando pela calçada com seus cabelos ao vento, tão desprendidas das dores, das mágoas de corações secos pelo tempo – senhor de todas as verdades. Sentir a brisa das tardes no Rio Vermelho, contemplando o pôr-do-sol, presenciando o pincel divino tingir todo o céu com um vermelho sangue que se confunde com o amarelo ouro das riquezas dos tolos. Tudo assim despreocupado, à espera da queda de um querubim qualquer.
Ele voltava dos seus devaneios toda vez que sentia o calor ser baforado pela porta adentro, como se o diabo tivesse surgido das profundezas e viesse se refrescar na sombra do café do Seu Boja, homem bem aplumado de nada, cheio de um orgulho estúpido por não ter nascido nessa terra, sendo bem que viera de um interior tão feio, que nem o capeta lá passaria férias. Outros diziam que tinha saído corrido de uma dessas fazendas do interior da Bahia por ter se metido com mulher casada, e agora residia num beco por aí se sentindo o sulista.
- Malditos…
E o cheiro do café ia subindo como se o ar o conduzisse em uma dança celestial, rodopiando pela face do rapaz que ainda observava enamorado o líquido negro a esfriar diante seus olhos. Uma preguiça forçada, uma falta de vibração na vida. Pra que queimar a língua se eu posso esperar? – pensava ele. Melhor continuar parado, aturdido, viajando nas possibilidades, vendo as histórias de vidas alheias se confundirem com a cadeia de erros costumeiros. Nada mudava, tudo permanecia intacto, como se os homens estivessem sujeitos ao fracasso eterno, regressar ao pó do início dos tempos. Talvez tudo fosse um prelúdio de um fim inevitável. Uma Sodoma que estava dando passos para trás, pronta para nos enxergar, nos engolir e simplesmente desaparecer.
Seus olhos correram com um certo entusiasmo quando seu nariz apontou em direção a porta: um novo cheiro no ar, um novo perfume acre que se fazia presente naquela sinfonia de aromas. Uma mulata entrou. Seu sorriso poderia fazer chover em qualquer plantação a beira do fiasco, terra nenhuma diante tal beleza permaneceria seca, pois os anjos, com certeza, estavam chorando pela perda do mais divino milagre. Tinha lá um beijo escondido no canto inferior dos lábios, que despertava em qualquer um que notasse, o desiderato de um beijo roubar. Aquele caminhar despertava ânsia de desespero, um remelexo inexplicável, como se o mundo estivesse parado, ou ela que caminhava em câmera lenta. O sol? O sol parecia conjugar verbos perfeitos nas curvas daquela senhorita que ia quebrando as barreiras com seu vestido solto, ombros mostrando, pele linda, cheia de brilho, como se uma vida nascesse a cada momento que os raios de sol escorregavam por aquela epiderme. Anjo ou demônio, não importava a origem, os olhos dele agora ressuscitavam de um sono milenar, como se nenhum dos anos anteriores tivesse tido alguma importância. Ele nasceu no exato instante que o sorriso daquela divina mulata encontrou com os deles.
Imaginou os possíveis beijos, as carícias que dedicaria apenas a ela, tal qual um poeta destinado a ter somente uma musa: ele a cortejou. Cortejou-a e desejou-a de todas as formas que cabiam a um único homem. E sentiu o calor lhe aquecer, como se estivesse dentro daquela xícara esquecida sobre a mesa diante de si mesmo. Como se todo o universo tivesse conspirado por aquele instante. Desenhou possíveis cabanas, praias, e camas que dividiria com ela, o primeiro suspiro, a jura de amor, os dengos, as caminhadas no Jardim dos Namorados. Ela solta como a brisa, ele contido, segurando a sua mão para não escapar (ou deixá-la ir), representando todas as santidades poéticas em questões de segundos quando ela pousaria para as fotos que ele revelaria para enfeitar seu quarto, seu mundo, sua alma. E os sorrisos dela seriam como pílulas de entusiasmo, de força – um prolongamento do tempo, da vida que antes dela se esvaía por todos os lados, olvidando de alimentá-lo, apenas deixando-o para uma morte certeira e solitária. E tudo era vazio, era frio. Aquela mulher carregava em si o sol do verão mais quente, o frio do inverno mais profundo, ela tinha o mundo e o firmamento entre os dedos, a boca e os olhos. E ele apenas imaginou… Teriam filhos, teriam brigas, teriam reencontros, recomeços, velhice agarrados à beira de um salgueiro-chorão, que serviria como testemunha dos dias ao lado daquele romance completo, daquela senhorita que seria sua senhora, da esposa, mãe dos seus filhos, da mulher que porventura dormiria ao seu lado todas as noites, sendo escrava, sendo dele, sendo a dama das Camélias, e a puritana que o desarmaria, mas ainda seria dele.
E tal como num sopro do mundo ela adentrou… Estava perto de partir. Seus pés trêmulos tentaram se fincar ao chão, mas as ondas de memórias futuras se arrastavam por sua mente, consumindo-o, enchendo-o de força, conduzindo-o ao encontro da sua amada, do seu fim, daquela que seria a última boca que ele beijaria. Debruçou um pouco impaciente ao lado dela, tentou se sentar com um pouco de ordem no banco em frente ao balcão. Tateou as palavras, deu-se por vencido. Pensou em poemas, deu-se por esquecido. Contracenou com personagens imaginários, deu-se demitido. Calculou possibilidades, deu-se destemido.
- Estou falecendo, futura senhora.
Um olhar de sobressalto o atingiu como um raio. Ela poderia ficar mais bela do que as pinturas que fez em fração de segundos enquanto caminhava.
- Precisa de ajuda, senhor?
E a voz seguia uma forte tendência que ou o deixaria surdo ou ainda mais apaixonado.
- Falecendo de paixão, de memórias futuras.
- Do que o senhor está falando?
- Eu falo do amor, da incerteza, e da verdade. Acredita no amor?
- Desconfio de homem assanhado.
Levantou-se como um tornado arrancando casas no chão, retirando as raízes de uma família da terra mansa. Ela apenas puxava o mundo em direção a porta, levando tudo consigo, até as futuras memórias. E suas mãos se entrelaçaram. Ele decidido a não perdê-la, afinal, tinha visto toda a história dos dois, não haveria como prosseguir a vida depois de ter sentido o sabor da perfeição nos lábios imaginários dela.
- Eu acredito no amor, desse que chega sem anúncio, sem apito de trem. Amor que se planta a semente assim que nascemos, os dias passam, os anos também, e a flor vai se fortalecendo, até que surge uma mão que arranca de vez, com raiz e tudo, e leva pra longe o fruto de uma vida de dedicação.
- E o que eu lá tenho a ver com suas asneiras, homem?
- Tem que a senhora me deve uma planta, pois eu gastei uma semente, e acaba de arrancar do meu jardim a única flor que havia em mim.
- Tão moço e tão lelé. Olhe, me deixe ou vou chamar o gerente.
E sua mão segurou a dela com mais certeza. E os olhos caíram lentamente, como se lançassem de uma colina para os braços da incerteza, um precipício escuro, temido, mas almejado, caindo sem asas para o laço perfeito de duas mãos que se conheciam. E ela o sentia, ela podia ler as memórias que ele guardava, a vida que teriam, as possibilidades, as lágrimas, os sorrisos, as crianças correndo pela grama verde que serpentearia a casa com cerca branca…
- E eu estava esperando pela senhora…
- Por que insiste em me chamar de senhora? Não sou casada!
- Ainda.
Mais uma vez os olhos obedeceram o chamado de duas almas que se manifestavam. Como se aquele encontro tivesse sido planejado, desenhado na folha do tempo, e agora se realizava em outro mundo, outra vida. Eles apenas se reconheciam, se encaixavam, sem notar, sem perceber que o destino conspirara todo esses anos para que agora, em um lugar qualquer, entre o cheiro de tudo, a incerteza do amanhã, no calor da existência, dois corpos se namoravam, se tocavam.
- Solte-me…
- Prenda-me!
- Insolente!
- Mulata minha!
As mãos não mais atendiam ao repúdio forçado pela insegurança, apenas cediam a força de um dos corpos a puxar o outro para seus braços, sem se importar com uma plateia despreocupada demais com o amor, perdida em suas conversas tolas, como eles fossem apenas mais um casal que se encontrava, se rendia, se saboreava. E por meros lapsos de segundos, ela hesitou, mas a sua alma a empurrava para os braços de um futuro, de um amor sem fronteiras, sem as barreiras que a impediram de ser livre quando mais almejou por asas. Os lábios dele eram a sua liberdade. E os dela, a sua reencarnação. O beijo escondido que por tanto tempo aguardou, agora morria na língua vibrante do enamorado preguiçoso que por tanto tempo a esperou. O café, por fim, vencido pelo tempo, esfriou.
- Faah Bastos
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Você,
Fidalgo dos meus medos.
Criança dos meus pesadelos.
Você,
Culpado por minhas lágrimas,
Desfeitas em braços teus.
Você,
Serpente da minha loucura,
Dono de todos os meus anéis.
Senhor das partidas tuas.
Você,
Menino do meu cordel.
Lúgubre testemunha dos beijos meus,
Único em minha palavra solta
Na vertigem dos dias que me faz
Tua rainha – doce harmonia –
Na calada do amanhecer,
Quebrando nuvens,
Refazendo céu.
Você,
Amante da minha carne,
Condutor dos mares silvestres.
Oceanos que desaguam
Os gozos da morte
Em boca de menina não mais moça
Que anseia pela volta
Das horas tortas
Ao lado de você,
Incandescente amor.
Faah Bastos
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Epitáfios
Esse correr de horas soltas assimila-se com o bater de asas de uma andorinha que vaga por entre mil céus imaginários segregados a um coração aflito, que apenas pulsa por obrigação corpórea de um sistema que ainda luta para viver. Ah, essas oscilações e vertentes obrigacionais que primam um alaúde de contentamento inglório dessas minhas memórias saudosistas, tal qual o canto de uma sereia solitária que banha-se em seu mar de deslumbramento – assombração para olhos descrentes –, enfeitando as noites de todos os nossos particulares santos que de benfeitoria nada possuem em sua carga de vida, apenas a glória de terem bebericado do veneno nefasto da dor; dor que hoje polvilha as claras evidências dos meus olhos apaixonados que não mais embarcam em balsas de despedidas.
Contentamentos, sussurra uma voz estranha aos meus ouvidos no canto da sala – evidentemente clara; em minha alma: escura – como se um sopro de saudade tivesse varrido para dentro do meu labirinto noturno, sobre a minha cama feita, não mais refúgio do meu corpo, que agora apenas passa as noites longas e pensativas desperto à luz de uma vela espiritual – uma chama de consentimentos que jamais será apagada, pois alimenta-se da substância necrófila da minha consciência efêmera –, as almas do meu único coração dividido, repartido, sintetizado em várias áreas de atuação, assimilando-se a existência de uma fábrica de dores com repartições definidas, um cheiro de lágrimas e vento. E nesses cortejos incansáveis de almas que perpassam em meu interior, vagando entre a promiscuidade da loucura em ser dia, quando tudo simboliza noite – derradeira escuridão de lamentos simplórios amordaçados por letras trêmulas em diários jogados ao mar, preenchido por palavras de areia, apagado a cada beijar de onda em minha praia de lembranças –, tais cápsulas de saudades ingeridas diariamente por minha pessoa em doses absurdamente vulgares.
É meu ópio, assim como tudo que lembra os lábios levemente rosados, a pele marcada por um cheiro de perfume e um aroma indiscutível de conforto, de homem presente, uma barba que nascia com consentimento e se manifestava livre, liberta das não alforrias da sociedade, fazendo-se linda aos meus olhos, dengosa aos meus toques, perfeita em minha memória. Um ópio tão viciante quanto a inegável necessidade de tê-lo em pedaços – ou por inteiro, se de fato for merecedora –, como uma droga putrefata que passou por mutação, tornando-se meu sangue, ocupando cada esquina das minhas veias, locomovendo num sustento viciante o meu corpo quase jazido.
Regresso à infinidade de possibilidades que ainda afogam-se em minha pálida pele, nesse espelho da amargura inquietante que grita ao vento as proliferações da saudade que não mais adormece, asseverando minha doença, a enfermidade dos meus dias ao ter sido separada da mínima noção de existência do meu ninho, do meu ninho-homem-abrigo-refúgio em mim. Tal qual uma canção perdida entre discos de vinil arranhados, empoeirados, e numa partida que não tem fim como nos romances trágicos, prossigo numa jornada que não muda de estrada, que não encontra novos castelos para serem habitados pelo meu corpo cansado, e apenas fico à espera de um sopro divino que enalteça minhas asas de andorinha, eleve-me ou jogue-me (diferença alguma faz) ao céu ou inferno, mas que me devolva a parte essencial da minha existência: ele.
(Faah Bastos)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Monólogo sobre a Loucura Poética
A vida é uma festa particular para os inconscientes. E ao deixarem de ser assim, se tornam apenas mortos e nada mais. Sou apenas olhos inquietos que observam o não observável. Ando por avenidas na contramão e imploro misericórdia à palavra não escrita. Sou louco, alguns pensam, mas não me importo. Desdobro-me em técnico de coração partido, problemática de fossa, assim, cheio de mecanismos, faço-te sentir o desconhecido. Encosto-me para trás na cadeira colchoada e fecho os olhos, e o meu destino aparece na alma como um precipício. A minha vida passada puxa a minha futura para dançar diante meus olhos que, como supracitados, apenas observam o não mais observável, o fungo que se multiplica como uma doença no canto do quarto, mantendo o cheiro fúnebre dominando até o aroma das minhas rosas. São valsas que não cessam, uma música moribunda que continua a adentrar em meus ouvidos, mostrando-me o quão louco estou, buscando uma completude do que realmente estou disposto a fazer. Sinto-me balouçado na sensação das ondas que invadem a praia do meu quarto e levam-me em tuas águas para o mais profundo dos mares, afogando as lágrimas, envergonhadas, tentando formar desenhos de nuvens em meus olhos.
Graças a Deus, meu bom Senhor, posso perder-me nessa ideia de hoje ainda não ser amanhã, de pelo menos por esses momentos, não ter responsabilidade alguma ou ser o homem do mundo, o indivíduo em constante retrocesso, o neo-humano criando trilhas, rotas de fuga. Sinto esse torpor de sensações, uma inquietude sossegada, tão análogo de repente às lembranças da minha infância propriamente dita, hoje, aqui, relembrada em lapsos memoriais que não mais importam ou justificam essa dor que cresce tão absurdamente nervosa.
Queria ser um cigarro para ser fumado, transformado em fumaça e deixar em teus pulmões a minha doença. Encher teu corpo de maldade, de delinquência. Essas paixões tolas sempre começam românticas a acabam fuzilando o coração mais fraco, o único otário que ainda acreditava nas primaveris gotas de orvalho a escorregar pela pele de dama desconhecida. Boêmio maldito! Pois bem, agora me desprendo dessas inquietudes e nado de volta a praia, morto nessa ansiedade em compreender o vácuo da existência sem inteligência adormecida em seio de donzela. São tentativas mal sucedidas de gritos não produzidos, de beijos esquecidos, de lágrimas de cera, de palavras tortas como a sapatilha da bailarina. O tumulto concentrado dessa minha alma de poeta, de querer sem querer, de gostar de gostar do gosto gostoso de alguém, de fazer filho entre a juventude e amadurecer na encosta da necessidade, assim fica delicioso; ser homem antes do tempo, ser animal evoluído, agora capacho das necessidades do mundo, escondendo em silêncio o coração que desejava mais uma valsa com a possibilidade, a tentativa inocente.
E nessa invalidez da insegurança em ser o que não deveria. Como hei de saber se ser não é ser? Se ser distinto é ser, de alguma forma? Ou o não ser vem a ser algo que não seja o ser? Prosopopeias de uma mente confusa, caminhando entre as suposições questionáveis e as tentativas que chegaram a falhar antes mesmo de serem do papel retiradas, ou da mente – fugitivas.
Não sei qual sentimento, ainda inexpressivo, que vaga pelo meu ser nessas manhãs cheias de agonia, que subitamente, como uma sufocação que me aflige a alma desse gentil sonhador atormentado por perguntas ainda tão confusas em sua mente que vaga, de repente, encontra-se segurando seu próprio coração que não se sabe mais se vive ou espera a glória de dias mais apaixonados, carregados de juras que serão, quem sabe, cumpridas. Não sei, confesso, qual sentimento que me desvia do caminho, que me dá, assim do nada, um nojo louco das coisas que antes me completavam. Essa confusão em atos de peças teatrais tem tirado meu sono. Sinto uma vontade estúpida de nunca chegar a casa, um desejo sem definições, um artigo ainda não determinado, uma neutralidade que me assusta. Essas oscilações entre as estações incomodam, pois tudo se mistura como fruta e água, suco de nume. Um falso ano que nasce, nesse curso imutável da vida, do tempo consequente. Nascer tendo a certeza que um dia deixará de existir, é como acordar em uma cadeira elétrica esperando as primeiras descargas em teu corpo moribundo. Qual a graça em acordar todos os dias, preso nesse ciclo absurdo, fazendo as mesmas coisas, como zumbis predestinados ao retorno à lama; a maldita lama que nos espera.
Alguns momentos, tenho medo dessa minha imaginação que se assemelha com o Arco do Triunfo, vida passando por baixo, sonhos criando raízes por cima. Eu-próprio, à parte e fora da minha imaginação sem antecedentes, correm feito crianças abandonadas nessas estradas cheias de curvas e derrapagens que embriagam a alma de um poeta não mais solitário. Parece tão surrealista essa forma de ver a vida, como caminhar a beira de um precipício sabendo, momento oportuno, um vento mais forte poderá te levar para o sono eterno do corpo material e a libertação da alma poética em teu sopro mais divinal. Tenho medo, confesso, dessa morte sem sentido, desse lapso de tempo que não dá um descanso, não me deixa fixar os pés na terra e me tornar planta. Árvore um dia eu ei de ser. E sobre todas essas sensações que aqui compartilho, acredito então, meu filho, que também as sente, pelo menos é essa parte miserável do banquete que nos restou sobre a mesa vitoriana. E sobre todas as sensações, restou-me a poesia, do ímpeto, do giro, das noites em claro perdido entre dor física e espiritual, não sabendo qual a que mais doía, qual merecia ser primeiro libertada. Sinto meu coração como um albergue sujo à espera daquela que venha limpeza em mim deixar. Por certo, agora, assim, asseguro, que andam limpando até mesmo a prataria esquecida em um canto qualquer. Lágrimas estranhas umedeceram os meus segredos mais estranhos. Mas são coisas como essas que me fazem manter em fogo essa ávida necessidade curiosa sobre a vida que busco compreendê-la enquanto a sinto dia após dia em minha porta bater.
Eu deixei de ser apenas louco para ser poeta. Deixe de ser apenas poeta para também ser homem.
Tenho compartilhado sombras ao longo dessa vida estranha, cheia de repetições, nem sempre bem sucedidas. Estimo, de certa forma, não ser inverossímil nada do que dizem a respeito do poder da minha amada. Não sei bem como vim parar sentado nessa cadeira de balanço, indo e vindo, brincando de passar o tempo, enquanto os bailes de carnaval não cessam as suas marchinhas carnavalescas irritantes. Esse cheiro de conhaque não bebido e cigarro esquecido, causa-me ânsia de vômito. Colocar tudo para fora, das doenças de momentos passados, gotejar meu desprezo sobre a face cínica de fantoches programados que dividem histórias pessimamente contadas sobre vitórias jamais sofridas. São tolos, vos digo sem nenhum receio.
Essa vontade em ser caixeiro viajante tem tomado espaço dentro de mim, viajar pelo universo das coisas, criando histórias, bebendo vinho, anda aumentando meu apetite de menino-homem sonhador. Sabe bem como são tais vivências, certas pessoas esquecem que viajar é sentir, é provar o gosto de fel na boca, entre os lábios ainda amargos da noite mal dormida. É sentir, assim, todos os sabores e ainda preferir o da primeira esposa, como sentir de todas as maneiras excessivamente, afinal, todas as coisas são excessivas, bem digo ser verdade. São os excessos que locomovem a vida, ou acham que a dor não é uma consequência do excesso de muito ou pouco amar? Tenho dito, minhas palavras jamais foram tão verossímeis quanto agora, caro leitor. Sou dono dessa mania de achar verdade até mesmo numa mentira bem contada, oxalá, acredito que sou uma mentira bem plumada, dessa que anda bem vestida, cheia de pompa que ninguém consegue entender em qual ponto deixou de ser verdade, por isso eu sigo sem deixar rastro algum de volta, mas banhando à todos com saudade.
Essa realidade é como uma xícara cheia de conhaque e não de chá, um gosto amargo que desce queimando a garganta desses pobres fiéis desalmados, todos que não compreendem que tudo é tão nítido, cruel e frio, que optamos pela cegueira branca diante os lençóis sujos de noites tão ardentes – muitas ainda nem vividas. Vivemos, senhores, embriagados com essa fúria das almas, o centro de tudo, um egocentrismo tão obsoleto que vaga por entre as incertezas pregadas como dogmas religiosos, científicos ou apenas poéticos; maldito centro que tende as estranhas forças centrífugas que se contorcem entre a psique humana e as alterações sentimentalistas de cordéis despedaçados. São surtos emocionais, muitas vezes, fabricados.
Quanto mais louco for; quanto mais poeta for; quanto mais faces tiver; quanto mais histórias contar; quanto mais segredos criar; quanto mais personalidades adquirir; quanto mais medos obtiver; quanto mais fúria engolir; quanto mais palavras pronunciar; quanto mais unificadamente distante, dispersamente cauto, estiver, sentir, viver, embriagar, trepar e gozar, serei, quem sabe, mais poeta do que ator.
Curioso. Tenho dedicado muito tempo da minha vida a valorizar as pequenices estranhas e coloridas que nascem ou afrontam diante meus olhos. Coisas simples se tornaram sinfonias completas, até mesmo, relatos bem feitos de aventuras que não foram vividas. Essas, sem dúvida, são as melhores, quando nos propomos ler as linhas completas de navegadores, viajantes, historiadores que nem sequer saíram da sua mente fechada para o mundo, que desprezam ações simples e costumeiras, deixando a entender que tudo que é normal, não é interessante. Deve ser por isso que ultimamente todo mundo quer ser diferente, seguir tendências, ser revolucionário quando, na verdade, a única revolução que faz é experimentar novas drogas. Palmas para os homens de verdade.
Eu quero descontruir a minha própria existência que depende de fatores tão estranhos, me cercando ao ponto de sufocar a minha alma de navegante. Permanecer calado, respirando o ar putrefato dos sentimentos empalados por camadas de uma terrível monotonia espalhada pelo quarto, reinando o tic tac desagradável do relógio, anunciando a proclamação dos deuses em meus pensamentos. Uma rajada de dores oblíquas e não processadas, algumas recém-nascidas, como um alguém que nem sempre permanece comigo, todavia em mim jaz eterno, como as lamúrias de uma alma petrificada e adormecida sobre os clarões da incerteza, das verdades mutantes, dos suspiros inconscientes de jovens desnudas que ainda pensam em matrimônio. Tudo assim, dessa forma, tão misturado como angu, como mingau para idoso, sem saborear os gostos picantes da vida, agora apenas esbranquiçados, sem pretensão em se tornar manjar. Essas coisas em que se mete o amor, tirar trem dos trilhos, algumas vezes se torna ausente nos dias, mas ainda, quem sabe, trabalhando arduamente em outro plano de vida, de conquistas. O amor é desses caras malandros, boêmios que nos enganam com suas lorotas de contador de histórias, muitas delas de corações quebrados, arruinados, como impérios antigos. Tenho cá minhas certezas que o amor é bastante tendencioso, sabes, gosta de ser livre, trabalha pra isso, almeja e cutuca a vida por isso. O amor sempre quer ser livre, mais do que os pássaros, os rouxinóis que embriagam nossos ouvidos. Ou até mesmo como a doce menina a se jogar na relva, abrindo e fechando os braços, para se banhar com o orvalho da noite passada. Madrugada gostosa essa de poesia silenciosa.
Ao longe, devido o transtorno é que me acho, assim por dizer, poeta talvez, menino quem sabe, homem por opção, experiência e saudade. Nesse transtorno, só nele estou e nele me esforço para permanecer, essa de certeza em meio à vida, construir definições e paredes não combinam nada comigo. Prefiro o leite do vento, as incertezas incertas e questionáveis, assim expando meu universo particular com muitos: Por quê? Como? Quando? Isso de manter a certeza, sempre segura meus pés, amordaça minha boca e venda meus olhos. Não quero me tornar um cadáver ainda respirando, quero ser morte no desafio e vida nas questões, viver sempre na medida certa não me excita, não faz transbordar minha xícara, não me queima com café, não me faz sentir dor para ter certeza que não estou vegetando e sim desafiando a própria vida. Tenho mania, meus caros, em querer ser pipa e cruzar as nuvens, o céu, esse caldeirão azul. Decerto, ando meio que fascinado pelo emprego de palavras grandes como “infinito”, “imenso”, “universo”, “coração”, etc… Essa vida de escrever sentimentos nos prega certas peças, como se achar homem e na verdade ser poeta; como se achar belo e na verdade ser indefinido; como querer definição e ser vazio. Por isso, vos digo, meus velhos erros se calam e eis que puro estou, rico de tempo, de horas que passam mais lentamente quando percebemos que estamos enganados quanto a nossa realidade e as incompletudes da mesma. Aprofundar-nos assim na alma, deveria ser pecado. Séculos atrás bem que era, muitos foram até guilhotinados. Hoje, meus caros, acredito que a lâmina dessa guilhotina seja a própria palavra quando empregada sem certeza, sem conhecimento, sem sentimento. Sem coração, alerto, não existe valor na palavra, nos dias, na vida. Talvez, por isso, tenho deixado de ser apenas homem, para também ser poeta, libertador de palavras, alpinista de corações, essas partituras de sinfonias já prontas se desfazem perante a minha cadeia sentimental de palavras. Eu? Bem, eu sou a vida, a conquista, a palavra, o momento, o tempo, o amor no espaço, a certeza ainda incerta do certo. Eu, ah, sou apenas poeta.
“Encasulei-me”, disse o poeta em meio a rua da sua simplória casa. “Encasulei-me”. Perdi toda aquela disposição de agente da felicidade, tenho agora cultivado as relíquias milenares das divinas comédias encenadas pelos meus melhores sorrisos, desses que fabricamos em frente ao espelho enquanto estamos sozinhos. Cansei de dar um pouco de mim a cada dia para o mundo, ele bem lá que se vire sem mim. Optei em ser lagarta por um espaço de tempo não definido. Essas idas e vindas (oscilações da alma) desconfiguram meu padrão de sobrevivência, por isso, sou tendencioso ao fracasso interno e aos pressupostos mascarados rotineiramente. Tenho bebido mais de mim e menos do outro, essa história de bebericar do vinho alheio não enche mais a minha taça – confesso: tem permanecido bem vazia ultimamente –, embriagar-me, agora, só com licença para beijar os lábios da minha senhora. Essa iminência da perda de controle, passou a ser neutralizada pelos meus esforços mais sufocantes, cujos ecos continuam flutuando ao meu redor. Tudo se reduz a uma insônia constante. Não consigo escrever quando acordo em meio a noite; não consigo voltar a dormir; não respiro com facilidade, porque busco o sono com uma sede tão doentia ao ponto de perder vastas horas de calmaria em uma desordem caótica. Permaneço, por fim, sentado em uma cadeira qualquer entre a escuridão do quarto e a luz da lua que ousa brilhar quando menos necessito dela, a ter pensamentos vazios de tudo, cheios de nada, jazo, cadáver atordoado que não tem os olhos repousados, perdendo-se em sonhos, desejando mundos-tantos-outros-perdidos.
Enquanto o mundo anuncia seu amanhecer, o nascer de um novo dia – para mim permanece o mesmo, somente com suas nuances entre o escuro e o claro, a morte derradeira de uma alma que acordou no segundo que veio a falecer sobre a beira de um lago de lamúrios derramados como vinho por taças a mais naquele salão, hoje, perfidamente vazio, abandonado –, observo em perfeito silêncio, o dançar monótono das coisas que me sucederam, transtornadas, conduzem-se entre passos ritmados, em embalos sinfônicos de uma respiração cansada do mundo, sufocante, procurando aprisionamento que a afaste da sensatez de ser apenas homem. Ópio em ser um poeta qualquer, não apenas eu, não apenas seu, não apenas ser, mas sentir, ter, comer, trepar, gozar, morder, lamber… Gritar ao mundo, que tanto desprezo, as necessidades que não se calam em meu peito, correm ensandecidas pelas ladeiras do amor, atropelando o romantismo que anda de mãos dadas com a sensatez.
Foge de mim até mesmo a energia para acender um cigarro, beber um pouco de conhaque, então, permaneço olhando para a parede do quarto, como se observasse o universo contido apenas ali, culpando-me por todos os erros meus, seus, deles, do mundo; contracenando com a própria partida saudosista dos fantasmas que teimam em julgar as dores cicatrizadas como veneno presente nas veias do futuro próximo, presente que se vive. E lá fora permanece assim, nesse silêncio de mundo tolo, de mentes que não pensam, de corações que não palpitam, reduzidos apenas a desenhos perfeitos de um órgão que somente bombeia, mas não sente. Maldito silêncio absoluto, de um todo, de um suspiro incontido, de passos que vagueiam com jornada definida, sem mistérios, sem roubos, sem palavrões, sem sexo sentido na alma, nas mordidas, nas penetrações violentas enquanto geme deliciosamente um eu te amo com veracidade, desejo, eternidade. Tudo fica incerto, dividido. O mundo com suas correntes, grilhões de poesia, limitações dos versos. Eu, aqui contigo, sendo boêmio, moleque, defunto sacana, poeta de poucos, sem rumo, sem história, sem futuro, criando um novo mundo dentro da minha, da única… mulher por mim amada.
Deveria ser uma morte, meus amigos, mas é apenas um monólogo.
Por: Faah Bastos
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Quando a morte nos visitar
Que ninguém se engane
Quando a morte nos visitar.
Ela estará coberta com a manta
Que minhas lágrimas ousaram fabricar.
Quero que Deus bem saiba
Dos pecados tão meus,
Todos foram frutos da minha paixão
Ansiando os beijos teus.
Que ninguém se engane
Se a morte não me levar,
Malvada como és,
Ousará aqui me deixar
Para viver nessa constante agonia
Que é no silêncio te amar.
Tu bem que podias
Dessa desgraça me salvar,
Mas prefere a bossa nova
De outros amores
Do que para meus braços
Regressar.
Quisera eu tivesse a sorte
Da morte, simplesmente,
Me carregar para longe
Dos teus insanos olhos
Que me capturam no ar.
Eu apenas desejei
Em tua vida bordar
Meu coração faminto
Que ainda espera
A oportunidade
De na tua alma
Repousar.
Quisera…
Faah Bastos
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