sábado, 30 de janeiro de 2016

Entre carros, poeira e baratas


Desperto com o sol na cara
Me encara e assim vai ser o dia
Olho pra cima, o sol ria
“Teu dia vai ser aquele dia!”

No vai e vem das borrachas
Em pé e com solavanco
Poeira em meu pranto
Nos meus pés baratas

Pés que me pisam e passam
Mãos que pedem e disfarçam
A estupidez de não se firmar
“Amém irmão”? Vamos doar!

Não!!!

Não tenho sangue de barata!
Mesmo com o “trec” da catraca
Aguento esse mesmo sol vingativo
Atento, calado, calmo e altivo

Esgotos a céu aberto e lixos espalhados
Vejo o dia e a noite, repetimos os passos
Sol, borracha, poeira, amém e catracas
Mas não nos esqueçamos das baratas!

(29 de agosto de 2015)

Hugo Barros

... poesia


A boca do poema sem voz;
no algoz, seu próprio rito
limítrofe estrofe
nos quatros cantos letrada

A rouca e resistente chama
do grotão, sertão guerrilha
é ilha, para o código de barras
distante da sextilha enfeitada

Mas a poesia não descansa,
devora-se e explode semente.
no altar de quem não sente,
repousa o verso do mundo,
para ninguém ser mudo
na redondilha regrada

André Café

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Caminhada
No inicio da minha vida
Eu já me sentia cansada
Como se estivesse no meio
Ou mesmo no fim da estrada!
*
E não era um cansaço qualquer
Nem mesmo um jeito comum
Era daqueles de tirar a coragem
E a força de qualquer um.
**
Mesmo assim eu segui
Andando dia após dia
E não cheguei nem na metade
Do caminho que eu pretendia
***
Eu preciso ir o mais longe
O mais distante que eu puder
Pra mostrar pra essa gente
A força que tem uma mulher!

(Joana D´Arc)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Prólogo II da saída de Cocytus: breve diálogo entre os alteregos



Caminhavam num passo mais apressado, Satan e Metatron. O templo não tão distante, mas enorme como a soberba e maliciosa sabedoria do seu regente. Ao meu lado, ainda num silêncio instigante, o Duque, aparentando uma ansiedade mórbida, entre manter o niilismo exacerbado de sua marca e algum tipo de euforia pela conquista próxima. Mas o diálogo não demoraria iniciar-se:

- Julga-me, nobre pensador? Pausa para um silêncio cá do meu lado, para depois o mesmo continuar. As palavras não sentiam mais um peso.

- Não querem a continuidade da orbe, mas serei um sustentáculo para que este paradigma perdure um tanto mais em firmamento. Satan abdica do trono do qual enclausurou-se, deleitou-se nas miríades de sanguinolência e morte gerada ao seu bel prazer, superiores, imanes comparativamente ao que prezaria uma dita normatividade destes campos. Eu, também estava confinado a uma existência vazada, espreitando a sorte de todos os pecados e maldições impregnadas nas ações, no respirar, na adução dos fazeres e favores da humanidade. Pressenti obliquamente este fadado destino. E de alguma maneira, busquei auferir ser parte determinante no processo de julgo e execução de cada ação de risco dos homens. Lancei-me as guerras, para tentar saciar meu intento. Mas a minha condição carnal era um limite para tão arrojadas e grandiosas pretensões. Eu almejava mais. Meu querer se expressava na máxima obliteração do rastro destes abjetos seres.

- Então já considerava a existência desse universo e das possibilidades que poderiam ser doadas par você?

- Evidente que não meu caro. A correspondência a mim chegou numa fase decisiva entre descrença em tudo. Foi o lume necessário para reavivar minhas expectativas de conhecer potencialidades distintas e díspares da resumida vida na Terra. Minha jornada não estava arquitetada e concatenada com as mirabolantes fissuras que Satan aprecia e deseja. Tão somente vim, pela curiosidade etérea do sabor do chá e pelo deslumbre de um objetivo há tempos olvidado.

- Aceitastes rapidamente aquilo que te imputaram. Agora sois, ou será em instantes, o senhor do inferno. Por quanto tempo? Não saberemos das intenções totais daqueles dois seres e sua horda de seguidores. Não sei como lidarás com a intenção de Metatron em acabar com este recinto. Ou estaria eu enganado em perceber que a legião não tem a mínima intenção de combater o novo regente?

- Cirúrgico nobre pensador. Entendamos a presença das tropas celestes por dois vieses ...

A fala, o caminhar, os traços e trejeitos de Duque não mais se assemelhavam ao ser que há pouco tempo brindava comigo. Não que anteriormente ele transparecesse mais humanidade, emoções de apego ou algo similar. Mas todo seu turno na caminhada da entrada de Cocytus até o templo, o demonizara. Em continuidade e conformidade com minhas observações, encerrava sua fala no tom sarcástico e satânico.

- Cá estão todos serafins e querubins para a provação dessa nova ordem da existência. Cá morreram aqueles que não seguirem disciplinarmente o tracejo pontilhado e arquitetado por eles dois. Esse é o primeiro ponto; o segundo, mesmo que tu te afastastes da presença humana, é exatamente no sentido de coibir pequenas insurreições que possam ser geradas entre eles e a regência, embora, pelo que suportara conviver em vida, mas fácil eles se destruírem antes de qualquer rebelião.

- Encerra-se o Duque de Copas então ...

- Não pensador. Agora que ele se faz essência.

O brilho distante despertara minha atenção ...


Sócrates jogando poker em Cocytus com Satan

Amigo


Amigo, por que andas assim tão perdido?
Nossos inimigos estão cada dia mais ousados
Amigo, estamos num momento difícil, estamos em tempos de conversar
Senta aqui cara, nós precisamos conversar
Roubaram-nos mais uma vez, não é hora de brigarmos
Vou ali pegar um café para nós dois
Amigo, das coisas mais catastróficas da humanidade
a pior delas é estarmos distantes
Ambos sofremos do mesmo mal, nossa causa é a mesma, precisamos conversar, precisamos nos organizar
Amigo, não seja tão assim
está aqui o seu café
Como você está?

Miguel Coutinho Jr., 2015

Poema ao mar II: caixinha de correspondência


Aqui não chega o mar
tem areia nas paredes
mas no sal não há vermelho
pacífico morto
reviro-me no quarto
do baú ao espelho e
busco cartas de
doçuras escritas
aflita
escrevo sobre a falta
que faz a praia
no inverno e na casa
caixinha de correspondências
vazia
não confio em quem
da costa
não escreve cartinhas de amor
cheias de areia
de sal
de sol
à amada que morre
por amar seu amor
do mar

Laìs Ha

Poema ao mar I: caixinha de música


O silêncio criado se vai
pelo vão da porta
entreaberta
o som da caixinha de música
se esvai pela vidraça quebrada
coberta
por uma cortina de flores
margaridas brotaram do lado
de fora da velha cabana
não há sonoridade nos cômodos
não há silêncio nos aposentos
estranho silente sonoro
desmonta quarto e cozinha
vazia se nota a mesa
o assoalho apaga marcas
de botinas sujas de terra
os homens se foram
foram ao mar vender
seus dias restantes
seus restos de homens
sobre eles não se fala
nessa família de mulheres
fêmeas pariram sozinhas
meninas cresceram sem sonhos
de serem mulheres
de famílias
de homens
do mar
marinheiros se vão
ao porto embarcam
não retornam às margaridas
de suas cabanas antigas
onde estranhos silentes sonoros
desmontam caixinhas de música
das meninas sem sonhos

Laìs Ha

Negras tormentas II


O tempo e sufoco pedem novo calor;
não aquele pelo Sol disparado,
e sim um fulgor organizado
tremulando pelas hastes as convicções,
e toda força para transformações
desse mundo capitalizado

Quente é a chama de quem se indigna,
diante de mais um golpe planejado,
nascido do pacto capital e estado,
que criminaliza nossas futuras ações
mas ninguém se calará frente às reinações
desse sistema hierarquizado

O fogo certamente acenderá
nas mãos e corações à revelia
lado a lado, a trupe caminhará
para o que antes soava fantasia

André Café

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Meu luto


Em memória dos trabalhadores mortos em Chicago, eu luto
Em memória das trabalhadoras mortas por se manifestarem no 8 de março, eu luto
Em memória dos camponeses da Rússia, do México, mortos por lutarem, eu luto
Em memória àquelas que morreram na Espanha e aqueles que foram exilados da América Latina em anos de ferro, eu luto
Em memória à todos eu visto preto e luto!

Miguel Coutinho Jr., 2015

Tá difícil, tá roça

Sorridi anche se il tuo sorriso è triste, perchè più triste di un sorriso
triste c’è la tristezza di non saper sorridere. Jim Morrison - Andrea Zordan
aqui

Está difícil pensar no impossível
Está doloroso sorrir todos os dias
Está difícil escrever poemas
Cantar melodias que fazem sorrir
Está difícil caminhar, acordar e beber água
Está permanentemente difícil terminar esta poesia
É tanto grito entalado sobre tanta coisa engasgada
que está difícil escrever coisas que nem deveriam existir.

Miguel Coutinho Jr., 2015

Nosso estado social


Que estado é esse que estou?
Que estado é esse que me deixa assim?
Que estado é esse que me tira o suor?
Que estado é esse que me domina?
Que estado é esse que não me deixa viver?
Que estado é esse?
Que estado é esse?

Miguel Coutinho Jr., 2015

(Por que não acabar com esse estado?)

Dionísio: meu homem mítico


Propínquo aos castiçais de ouro,
sob auréolas afogueadas,
Dionísio, com seu professor Sileno,
sorvia aos goles o vinho
de um sagrado cálice pequeno.
Apresentei-me silente – como o
tempo insone –, cândida e aromática
para que, apesar da ebriedade, não
me percebesse trêmula e várias.
Talvez Dionísio, homem
mítico, admirasse a minha farsa
e me guiasse ao seu teatro na
encosta sul da acrópole de Atenas.

Laìs Ha

Pecados-IV


Ira
Meu sangue ferve a cada dia que passa
Vibrando pelo outro a ter sua desgraça
Sinto ódio de mim mesmo devido a minha bondade
Todos exigem que atenda suas coisas mas ninguém supre minhas necessidades
A cada pessoa que passa diante de meus olhos, vejo um tom de ignorância
Avarentas, prepotentes, lobos em pele de cordeiro, os sentimentos dos semelhantes não dão a maior importância.
Sou um lado obscuro de uma mente tranquila,que aguentou tudo calado
Larguei meus sentimentos de culpa e remorsos todos de lado
Quem sou eu nesse mundo vazio
Apenas uma pobre alma solitária em um mundo de pecadores
Sonhando com a queda desse mundo cheio de opressores
Não tenho pena de quem acaba caindo
Pois no final das contas com a sua tristeza eu acabo sorrindo
Desculpe se minha ironia te magoa tanto
Mesmo se nesse lamentável momento de amargura você acaba ficando.
Sou uma pessoa com rancor doentio que não consegue impor suas idéias nesse texto,
Não sou de mentir, mas acho que nessa circunstância eu arrumo um pretexto
Sou um sentmento sem controle
Sou um fogo que não se apaga
Sou um desejo incontrolável de vingança
Sou um lado que por mais que controle em um monstro você realmente vira
Olá mundo pecador, prazer sou sua Ira.

Cristian Muchilla

Pés No Chão


Filho da terra.
Criatura campestre.
Em tuas mãos o orvalho das manhãs.
No teu rosto a luz do astro rei.
Em teus lábios o doce mel que cativa os beija-flores.
Dos teus olhos vibra a energia da mãe natureza.
Ecos ecoam de teus ouvidos.
Um aroma energizador exala de teus cabelos.
O teu corpo sinergiza os fluxos do cosmo.
A tua fala equilibra a flora.
O teu toque restabelece a fauna.
O vibrar dos teus passos, equaliza as frequências da vida.

Dhiogo J. Caetano

Sobre tapetes de crochê e tela de tevê


Encaixo-me naquele tipo de
pessoas normalmente estranhas
que se sentem apenas solitárias
esquisitas como plutão quando
a sonda new horizons passou
deixando-o singular para trás

sinto-me fria como os granizos
que despencaram no teu telhado
e te perturbaram com o mesmo
frio que te tirou o sono quando
nevou no verão de nosso quarto
ocultando nossos tapetes de crochê

hoje ainda me escondo de tudo e
de todos sem descobrir o porquê
sem acender as minhas luzes ou
aumentar os meus volumes para que
não possam me ver nem me ouvir
imóvel em uma falsa tela de tevê

(Laís Grass Possebon)

(Por de trás do meu coração)


Sobre a cama tantos ditos
Livros, cadernos e escritos
Milhares de insultos num mundo de dor
De pedra, bate coração que seiva
Jorra, poetiza e acalma
Sou poeta que ama mesmo com fome
De que me vale beber?
Queria apenas um beijo teu
Para sonhar com um mundo
Que possamos, juntos, num jardim viver

Miguel Coutinho Jr., 2015

Meu partido não tem pé, não tem cabeça, mas tem coração

Quem é que faz?


Mas eu falo daquela folia;
pra você soa retrô, antiquado
mas deixa disso, vem pra esse lado
que nosso bloco não tem cordão que segure

A gente nos trapos, no pulo ensaiado
ou na pisada em descompasso,
confetes e serpentinas por todo espaço,
no rosto, no corpo, no ar e na alegria

Tinta aquarelando todo riso,
os metais aperreando a peleja,
e pra aguentar o fole, boas cervejas
até que a quarta vire cinzas,
ou até que o dia diga pare,
ou talvez só quando o baile acabe
nas lembranças boas que me fazem carnaval

André Café


Uma conversa com o espelho


__ Você parou de escrever poesias?
__ Ando meio desanimado.
__ O que se passa?
__ As poesias não devem ser escritas por mim. Não sou digno dessas coisas.
__ Que é isso cara!
__ Poesias são bonitas nas mãos de intelectuais. Raros são os pobres que são reconhecidos. Ricos tem educação, livros, bons educadores. Eles tem estética, tem formação pra serem poetas, dirigentes, oradores, narradores. Poesia só é valorizada na boca de playboy. Eu queria mesmo era ter nascido artista plástico. Pelo menos fazia um graffiti onde os outros pobres se reconheceriam.
__ No mundo da poesia não existe amor, no mundo da poesia só existe sobrevivência.

Pavel Gorki, 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Por esse tempo


Quem chama de tempo
os instantes escorridos desses dias?

Corremos, num time que trememos:
não cumprir, desviver, atrasar, perder
o tempo parece nunca ser; já foi, era
enquanto o timoneiro aflito da rotina
teme temporizar sobre segundos perdidos

Segue, siga a saga e a sede que suga
tempo, já dizia outra poesia,
não pode ser o jazigo;
traz consigo,
o olhar, o vivenciar, o lutar por outro mundo,
o cuidar mútuo, o ombro a ombro, o amor e o devir,
caindo vagarosamente
pela ampulheta das vontades:

tempo é gerúndio
e que corra assim, toda realidade

André Café, em referência `poesia Tempo, de Miguel Coutinho

O tempo


Não se passam anos, viradas de anos
Apenas passam-se meses, dias, horas, minutos
Vão passando dores, sofrimentos
Numa eterna correnteza por pontes decaídas de enchentes
de rios que transbordam
O tempo não parou, não continuo, não passou, não é poesia que passarinho
O tempo vai passando, e tudo é empurrado
As vezes deposita no fundo, as vezes diluída, as vezes na superfície
O tempo não parou, não passou, o tempo vai acabando e vai passando
O tempo, o tempo é gerúndio

Miguel Coutinho Jr., 2015