terça-feira, 5 de junho de 2012

Sempre entrelinhas


Um pouco curioso o modo como você ressurge. Aparece imbuído de timidez e com poucas palavras. 
É, confesso que a distância da virtualidade me assusta um pouco.
Constantemente lhe vejo à noite e é sempre quando mal posso ver a silhueta das pessoas e, soma-se a isso, quando mal posso sentir as minhas próprias mãos agarradas em alguma lata de cerveja.
E assim acontece:
Você - engarrafado do que é indecifrável, olhando desesperado pelos lados e assim transparecendo o medo de ser visto – e eu – tentando ouvir cada silêncio que você não diz -.
 às vezes chego a esfregar meus olhos para sentir meus pés no chão... Tento afastar os entorpecentes que agarram os meus sentidos para estar mais perto do que se diz por real.

"Ei, volte a si"
"Ei, volte a si, amanhã você vai querer se lembrar disso".
Desta maneira, tentamos calçar alguns meros assuntos que sabemos haver convergências e, seguindo suas inúmeras palavras já ditas, arvoro-me de possibilidades do que há por vir e que nunca é ‘vindo’. E é assim que espero alguma palavra, algum enunciado que me agrade aos ouvidos.
Só ganho o quase.  
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.
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Embora meus ombros já estejam relaxados, é como se num sacudir de chão eu voltasse a ver com olhos do que já nem é e, de tal modo, eu continuasse caçando os seus olhos só para brincar de haver encontro.


Talvez porque seja estranho não doer.
E ao mesmo tempo que há medo de voltar a ser Lídia, há medo de rasgar de vez o fiapo que sobra de um linguajar poético que pouco, muito pouco, nos cola os dedos.

[ a hipocrisia tem cheiro de passado] 

Tassi

A condição Zion


O espaço indefinido
o tempo esquecido por importância
somente o vento revela
o que em terra escancara-se

Ali, acolá, logo aqui
em todo caminho e em nada
jornada com os pés no chão
na boca, arroz e feijão

Em cem passos ou nenhum
suave na nave ou vôo de anum
os florais emanam logo que se alcança
a trança cordada de conexão

Sobrevoa alma livre
e faz em um segundo
o turno gira mundo
no outro, me recrie

André Café

Pensar favorece


Cresce
Cresce

Antes que enlouqueça
Redemoinhos na cabeça
Cabelos rebeldes

Pensar favorece
Por favor não esqueça
Os meus trompetes

(Marcello Guedes)

Haikais e coisis e tais IV


I-

O mundo virou
desço o desavesso
amor que encerrou

II -

Outrora vivo
cor, ação, sem labor
agora uivo

III -

Sal e quarteirão
pinga depois repinga
gota de limão

IV-

Com 'CH': metano
rama que proclama
o "CH" profano!

V-

Tanta ternura
traga, me entrega
toda loucura

André Café

Negro cais


Cores em flúor e negro.
Negro era tudo que ia.
A flor que ali se encantara
ria.
Mas o mundo era negro
ninguém percebia.
Um sopro
e de novo caía.
As cores que só ela via
Mas mesmo sem ver
ele sentia.

Dalila Fonteles Mauler
24/04/2011

Cosmogonia de Giudecca I


Conceber e exaltar a imagem do gélido corpo
da mórbida carne, do pó consequente
e a terra sugando mais forte e veementemente

Frio, traiçoeiro sou. Frio, gelo, nevasca
no contradito do que está fora, meus olhos abrem
incertos do que ou de que podem enxergar
pressinto a fome, conecto-me com o corpo
percebo a imobilidade, cravado estou na glacial desesperança inferior

E olhos abertos; e mente diluída
em volta, outros inseguros e incompreensíveis destinos
mesclados ao vazio
uiva o vento, ecoando nos desesperos
dos corações em esquife

André Café

Vem meu diamante raro
Vem bruto pra eu poder te lapidar
Vem sujo pra eu poder me enganar
Vem, vem duro pra poder te arranhar
Vem no escuro, vem para me iluminar
Vem que eu curo quando você se entregar
Vem, vem puro
Mas não vem me purificar!

Vicente Leite

Cosmogonia do Limbo - Louva-a-deus grená


Suscetível; qualquer casulo que se encerra a dúvida
pode ser que sim ou pode ser que vôo
nas canções regradas do dia a dia
a presença do engasgo da fuga é saltitante

Então cante destoado!

Na  marcha que segue a ordem que segue a marcha
uma pirueta e um sorriso, acende o guizo do controle

Corra!!! Corra o mais rápido que sua consciência possa obliterar!!

O mergulho pra cima! Cerdas que roçam na pele são o 'acorda '
no teu retorno natural
desfazem-se o cinza e o metano
o sabor do mercúrio à vontade
e o vislumbre do limbo, alçado pelo Louva-a-deus grená ...

Sorva, o meio é quintessência




Ficar de pé é um suplício
Andar é um tormento
Sentar é impossível
Correr eu não aguento
Nadar... uma lembrança
Boiar: um desalento
Pra onde ir?
Onde?

Vicente Leite

A condição cosmogônica


Do fixo exato instante
da existência flutuante
o pesar está diante
do complexo de incerteza

O doce sempre fúnebre doce
no ar, tons de azuis e sóis
a terra que se desfaz num punhado
catado entre muros e giros

O corpo apaga
a mente decola
sobre mundos pisados
ao alcance do ineditismo

Para resplandecer no inexplicável
topa-se qualquer viagem
um toque no dedo de Deus
e o mel revelando a origem

André Café

Gosto de flores
Acho que são hermafroditas
Acho tão bonita...
Androceu
Gineceu
E toda androgenia colorida
Exalada de cinco pétalas infinitas
Eu sou seu
Seu sou eu...

Vicente Leite

Ardor em Ciranda



A lua pinta lá no céu tantas estrelas
tanta beleza pro amor se anunciar
mas que maldeza, coração tá desatino
segue rumo sem destino, sem canção  para cantar

Alumiando as paixões dos namorados
na roda, o samba, faz magia acontecer
é tudo festa, menos eu, desavisado
o amor deixou de lado seu canteiro pra nascer

como menino, revirando a madrugada
passará outra alvorada
com ardor preso no peito

vou prosseguindo, na ciranda faço verso
digo aquilo que é inverso
dessa dor que não tem jeito

Vem minha ciranda, que eu quero cirandar
falar contigo, sobre os segredos do mar
Ó vem ciranda, deixa o dia raiar
se me passo pra essa dança, deixa minha dor passar


André Café

Conversas aleatórias no bate-papo






Conversas aleatórias no bate-papo


A garota afoita, com sede de vida e seus bastos cabelos em fogo diz logo:
--- Sou é tudo!
Se joga entre palavras, melodias e mentes:
--- Poeta, cantora, psicóloga!
Com ímpeto propõe logo:
--- Vamos ser tudo.. até nada!
E enche a boca de filosofias:
--- Claro, pra uma coisa existir precisa de seu contraponto... ou seus milhões de contrapontos! E a loucura é que tudo é feito de paradoxo!
Linhas coloridas, se manifestam, lindas aquarelas, será ele ou será ela?!
--- Com toda certeza sejamos tudo e portanto nada tbm..
Nossa neófita moça emenda:
--- Mesmo a gente tentando por força que as coisas sejam lineares
Não satisfeito a máscara de cores (porque tanto mistério?) diz com doçura:
--- Se temos amor já é o bastante .
--- O amor é o que resume tudo! -- lá se vai a jovem rubra.
Eis que do nada surge um jovem, que solta uma baforada de seu cachimbo de ideias (que teria ali?):
--- Pois só sejamos,então, pois tudo e nada são na verdade a mesma coisa, uma se manifestando na ausência da outra.
Nosso interlocutor de cores e pigmentos, conclui:
---É isso ai.. é tão simples e de tão simples chega a ser inefável.. O mistério que há por trás de todos os seres e que nos une é simplesmente o ato de amar..
Que dizem essas vozes? Quanta misturas de coisas. Começamos em "A" e... terminamos em quê?!
Estavam lá a conversar. Não sei bem do que diziam.
De amor, letras, existir, coisas assim. Alguma coisa os ligavam.
Acho que eram as palavras, o amor e uma ideia. Ou era uma ideia de amor as palavras?!
Ai num sei... e perdi. Se foram e me deixaram aqui. Sem nada entender.

*Conversando aleatoriamente no bate-papo do facebook. Sempre surgem viagens legais. Tomei a liberdade de pegar as falas do sócios e transformar em um textinho.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Caleidoscópio


De tanto sangue e destruição
nenhuma palavra atinge a paz
nenhum sentido de sobrevivência coletiva persiste
nem céu, terra e água são possíveis
para ouvir o inaudível
para o dito do impronunciável
para o visto do irreversível
cantemos: para o conto de lamúrias se findar
e a turva sina se mostre construção
pro mundo mandala
caleidoscópica transformação

André Café

Prelúdio de Copas III - O sabor satânico


O vinho agridoce e em chamas no contraste da caminhada
a névoa púrpura que ebulia das fossas infernais criava ilusões
mas meu trajedo findava-se ai de alguma forma
os passos como guias cegos até ali me ancoraram
na face da gruta o arquétipo da humanidade.

- Eu cá estou em sofreguidão. Poderia ao menos ofercer-me um pouco de vinho?

- Acaso encontraste aqui resquício de benevolência ou candura? De que adianta sorver bebida, sem o sabor palpitando de papila em papila? Diga-me nefasto pecador. Não me apetece tua lamúria.

- Vejo, sinto a sórdida contradição de sua existência nas suas palavras.

- Eu não diria sórdida caro desconhecido. Digo, escolha, em processo de encontro. Contradição não se aplica neste caso. O que todos aqui fizeram foi provocar o ponto em que me ligo à humanidade. E todos incorreram em equívoco. Diga-me, se humano, na semântica real do termo, fosse, acaso estaria aqui em deleite?

- É óbvio que não, mas mesmo o deleite não é certidão de convicção plena.

- O não lidar pertence a vocês. O deleite pode não ser uma totalidade. Mas boa parte de minha essência busca isso. Deveras interessante, a outra parte veio aqui, solucionar este gozo pelo meu sucídio de espécie. E creio estar na ponta da resolução. Enquanto isso, caro desconhecido, sorva o prazer de seu castigo. O vinho não te cabe mais.

- És satânico ...

- Sou Duque de Copas. E nada mais.

O frio condiciona o recinto.

Duque de Copas no caminho de Epizêuxis Semântica

Você desperta o sussurrar de uma andorinha a cortar verões, o mexer inesperado das nuvens, dançando como amantes embriagados ao término do baile – incansáveis sensações que nos destroçam a mover mundos. E a doce camada fina de gentileza se desmancha sobre nossos lençóis, suas asas se exasperam e posso sentir uma cantoria sombria por entre a sebe dos seus olhos. Ninhos de amor produzidos com o musgo das tentações, fazendo trilha em mim – uma capital despedaçada por invasões estrangeiras, permanecendo abnegada ao sopro sussurrante dos prantos poéticos temerários de dor. Nuances infernais de um acorde solto ao canto da boca que espera o silêncio consternado da andorinha que ainda vaga por entre mundos a despertar morte de amor em vossos lábios.

Faah Bastos.

INSANO


Havia um tom azul naquela tarde que se espreguiçava por entre meus dedos, como um manifesto suave de cores a bailar condensamente pelas entrelinhas dos meus olhos; agora, mergulhados no desequilíbrio dos seus passos a cintilar uma poesia formada por adornos imaginários que cavalgaram da minha mente através do vento, até repousarem solstícios em seus braços.
Talvez fosse apenas a epiderme da sua proteção que ouriçava meus sentimentos ou fora somente o sentir da divindade escorregando por seus lábios de pupila ingênua que ainda aperta as maçãs do rosto para conseguir maquiagem. Doravante, sei que somente mergulhei. E fora em um salto mortal das minhas amarguras, tentando desprender-me loucamente de cada uma delas, para ser o mais leve possível e capaz de ser sustentado por seus dedos frágeis de menina que ainda rabisca versinhos mimosos em folhas de diário. Talvez um mero tolo a acreditar que seria resgatado por suas proezas insanas e intocáveis de menina que brinca com o nascer do sol em seus beijos lançados ao vento, ao tempo, sem cuidado algum. E fora, com toda a certeza, um desses beijos vulgares que por você correu, que alcançou a muralha de proteção lapidada constantemente, dia após dia, sem cansar da minha proteção espessa e densa de amor renegado. Esse sabor angelical, invisível, intocável que despertou os demônios adormecidos em minha alma, até então silenciados pelo medo e repúdio em serem aceitos por tal ser de doce candura a se derreter sob a ação dos raios de sol de um verão mais violento.
Eu bem queria, meu amor, meditar em segredo os poemas que ando a escrever para você, mas soa tão prematuro minhas rimas, que faleço, senhorita, antes mesmo de findar o soneto que carregue nas entranhas seu nome não mais abnegado em mim. Tornei-me, sem colocar em dúbia a minha verdade, um escravo, um lacaio, um lascivo cortês da sua existência que passa por mim como um tornado, arrancando lares ainda habitados por minhas memórias – algumas derradeiras. Libertei-me do laço macabro da esfinge dos seus lábios por desenhá-los entre meus rabiscos poéticos, mantendo-me fiel a sua conjuração de independência – por sorte, não de nós.
Sou um mero ser de existência duvidosa, sem qualquer níquel em meu bolso, mas com o ouro a brotar do meu coração destinado a labutar por você, sendo minerador das suas artimanhas de moça donzela que corteja a si mesma por ser assim tão… tão absurdamente bela.
É insano, muitos dizem, mas se a insanidade se torna uma repetição de determinada ação a qual sabemos o resultado, mas por mera loucura, esperamos algo diferente, então posso gritar ao mundo, entre o jardim das nossas tulipas negras, que sou vertiginosamente apaixonado por você tal como um ser preso em sua órbita gravitacional.
Insano, meu amor, é manter-me assim em palavras quando meu corpo anseia devorar o seu em pecados.

Faah Bastos.

Ser poeta é


Maquiar os fatos
Transformar a fria chuva em lagrimas do céu
O frio em armadura
Desilusão em luz
A amada em estrela
A lembrança de seu largo sorriso em esperança
Seus lindos cabelos castanhos no véu que me segura
Ser poeta é
Escolher alguém para escrever para todo o sempre
E eu escolhi você

Bernardo Moraes

Um pouco mais, apenas


Percebi que a minha vida é um eterno “e se” essa dor que não passa, “e se” fosse diferente?
A pergunta que nunca encontra a resposta dela
Por que não há resposta.
Eu odeio escrever logo tudo o que penso tudo que sinto, pois sinto muito e ninguém entende o porquê das linhas que me forço a relatar sem direção.
Talvez algum poeta solitário se encontre em minhas palavras tortas que aqui estão e se perca em solidão dele mesmo como fazem os poetas que apenas sentem as palavras como eu.
Eu poderia apenas falar isso pra mim em frente o meu eu como faço e deixar passar, como já fiz algumas vezes, mas é que essa dor sempre volta e não seria justo um pouco mais de minhas palavras soltas por ai indo ao encontro de alguém quem sabe, algum que espera ler uma bobagem que o faça sentir um pouco melhor ao saber que não é o único que se sente deslocado nesse mundo.
Esse mundo de hipocrisia que as pessoas preferem uma revista de bandas passageiras ridículas e sem sentido ao invés de um bom silencio com um livro de brinde pra lhe fortalecer o ‘eu’
Embora não pareça, mas sou um pouco mais que palavras.
Um pouco mais que silencio um pouco mais de tudo que sou.
Só não descobri isso ainda

Hévllen Motta

E "se"


E se você partisse?
E se eu tivesse apenas uma oportunidade pra dizer que eu sinto, sinto muitíssimo aqui dentro de mim?
Sinto-me forçada a relatar as lágrimas que me acompanham nessas linhas, lágrimas árduas que queimam os lábios.
Renego essa dor da perda sem mesmo perder, a dor do "se" que é insuportável, esse pranto que inunda Minh ‘alma, esses gritos e gemidos dentro de mim que não me deixam dormir, vejo você como uma sombra que me segue a cada instante, não importa aonde eu vá você sempre vai estar lá.
Mergulho nesse mar de mim mesma, que me encontro todas as noites, bato um papo comigo, tomo um vinho talvez... Eu odeio vinho.
Mas você, você gosta e eu gosto de tudo em você inclusive a forma com que me faz amar, como me ensina o amor.
Não gostaria que partisse sem antes saber o quanto padeço com o vazio nesse silencio que me obriga a cessar as palavras, somente as palavras, mas o sentimento arrogante permanece.

Hévllen Motta