terça-feira, 19 de novembro de 2013

Cheiro da aula de voo do pavão na terra de cometas

Revista Emília

Viajei em um ônibus velho
e as velharias balançaram o meu corpo
enquanto a minha cabeça sonolenta
batia nas ferragens desparafusadas.

Suei como um menino saindo da febre
e os meus pés estavam recolhidos
como se reatassem a sua união ali
e eu permanecia com o corpo adormecido sobre o banco.

As minhas pálpebras guardavam um sol embriagado
e não sabia se pedia, para o café-da-manhã,
lua, estrelas ou o cavalo de São Jorge para cavalgar
entre a constelação da rota do pequeno príncipe.

Segurei a calda de algum cometa feito um vaqueiro
e segui firme e delirante para suspirar água bêbada
onde os olhos ficavam arregalados pelo vento das asas
das cidades soltas e sitiadas pela história do mundo debaixo.

Veio, de súbito, um freio pesado
e me acordou dos cometas, mostrando os olhares
dos que estavam quietos e com os olhos expurgados ao redor.
Desci tropeçando com o meu tênis sujo de outros mundos.

Eu tinha cheiro de pavão misterioso
e não me re-conhecia entre aqueles olhares carcumidos
até que algum espelho gritou ousadamente de longe
e me chamou de inumano quando avistou uma pena em mim.

Perdi o senso de ser alguém naquela viagem no ônibus velho
e eu sempre fui tão perdido e mais perdido estive entre os objetos
desse mundo de cá, do lado lá desse rio
que guarda os seus afluentes nos meus olhos vermelhos não-dormidos.

Sigo ávido pelas digressões de versos parados
porque versos parados não funcionam quando os mosquitos lhe tocam.
Há muitos alfinetes fincados nos cometas que queimam as penas
desses pavões desajeitados, desvalidos e com a feição de outros tempos
e mundos.

(Lourival de Carvalho)

Cordão umbilical.


Você nasce nu e morre só
e o que dói não é a solidão
é morrer afogado no amor
Que o outro derramou .

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Porque poemo, poemo por quê?


Eu planto um pé que te cabe furtar
a dor de quem pisa perto e apertado
tirando tiras dum fado profundo

Eu canto até que tu cantes comigo
abrigo abraçado e brando
nas brumas brisadas da ponta do mundo

Eu tanto que tento de tonto mergulho
me tolho no olho do espelho molhado
de lado, bem raso, no canto profundo

André Café

Porque poemo


E o meu amor levou poemas
pra quem não sabia cantar
uma voz pequena e rouca
num azul de marejar
trovejou palavras doce
que a fome ousou calar

O meu poema levou amor
para terras de tanto desafeto
não querendo vir a ser lei
só pensou no descoberto
que ali já havia poesia
na falta de um desperto

O meu levar ama poemas
e poema muito amor
não pelos olhos de poeta incompleta
mas sobretudo pela cor
que explode quando vi um riso de criança
e que dança quando vi o tiro da dor

André Café

Um preto poeta...


Em uma noite qualquer
De solidão conhecida, ele apareceu
Sem expectativas talvez
A conversa fluiu...
Falamos do dia-a-dia, da distância...
Falamos de música, poesia e flor...

Mas de repente, não mais que de repente...
Isso não era mais suficiente
Precisávamos falar de amor, de pele...
O que nos fazia bem era breguice sentimental!
Em pouco tempo, trocamos versos e gestos de carinho...
com estas peripécias de um conquistador barato, me ganhou.

Ele é simples como o vento
Não precisa de grandes esforços para me fazer feliz...
Ele me trouxe a surpresa do desejo repentino.
A distância se tornou nossa aliada
Pois sem ela, ele seria mais um
Aos pés de uma bela dama endurecida pela vida.

Ele é o meu preto poeta!
De delicadeza apaixonante
Sinceridade delicada
E energia reluzente ...
Meu preto vem de longe, pra me embriagar de beijos
E me drogar com seus carinhos...

E rogo a todos os santos para que ele venha pleno
Que venha cheirando a amor,
Rico em ternura...
Porque sei que ele é meu e eu sou dele
Pelo menos até onde o destino quiser,
E se o mesmo quiser seremos felizes até a próxima página...

Yara Silva


Eu nunca fui uma pessoa muito agradável.
Não é difícil arrancar sorrisos meus, mas eu não sorrio de uma piada sem graça só pra agradar o piadista como muitos fazem.
Eu sou uma pessoa até amigável, mas não de muitos amigos, isso todo mundo sabe.
Os meus são meus por livre e espontânea vontade. São poucos, mas sabem, sem desconhecer o meu pior, que o meu melhor é deles.
Eu não sou um ser que despeja simpatia.
Simpatia, assim como tolerância, são coisas que não devem ser desperdiçadas. Tem quem merecer.
Eu nunca fui uma pessoa muito ouvida, nem uma pessoa muito falada.
Nunca fui de demonstrar muito amor, mas até que sempre fui aconchegada.
Eu nunca fui uma pessoa muito repleta, nem muito vazia. Mas sempre fui muito ousada, o pouco nunca me fez companhia.
Eu não sou muito alegre, nem muito triste. Eu sou ocasional. Quase sempre sou apenas reflexo do que me causam.
Euforia, intensidade e amor são sinônimos de mim. Mas nem todo dia eu acordo assim.

- Samantha Carvalho

"caoseterno"


veja esta moça que observa – pela janela – a sua história
a moça que não esquece o engano que o tempo – senhor do fado – gerou
esta derreada moça que examina o seu passado em sua memória
e que não olvida o desalento que no vento outrora encontrou
em seu corpo ainda estão pregados os vestígios dos mistérios
que o destino – tão cretino – assentou em seu perturbado caminho
e ainda fez da sua trajetória uma composição de escárnios
transformando-a em um cálice farto do mais adstringente vinho
veja nela o retrato abstrato de um concerto insano em moscou
que em uma fotografia derrocada das suas teorias desatinadas
a imagem em preto e branco do seu intelecto em seu aspecto sobejou
porém não esqueça de apresentar-se com maneiras requintadas
pois ela traz consigo a suntuosidade das mulheres da belle époque
então converse com ela e a emocione com pronunciações quiméricas
para que seja possível naufragar nestes olhos com lágrimas em estoque
e compreender sua personalidade lúgubre em pessoais efígies coléricas

ao fim não esqueça de resguardar os bongôs que ela deixar pelo caminho
e quando ao longe observá-la contestando a sempiterna orbe capitalista
ou enamorando-se por poetas utópicos aos versos repletos de neblinas
recorde-se das duas poetisas que nesta época encontrou:
o ângulo bizarro de ginsberg
a faceta libertina de rimbaud

(Laís Grass Possebon)

Vento que balança as árvores e fortifica os caules
me calça os pés, me faz leve e voante

Me faço andante, dos andes aos pampas
à pampa eu vou sem soar dissonante

A frequência é única, cada túnica à uma pessoa
e se me pedes que nades nu ... aahhh, eu nado numa boa

Eu sou bóia nesse aaaahhhh - mar gigante
que não tem bordas nem beiras.

Haschi Faria

Bailarina do papel


– menina bailarina do papel
que fazes com esses olhos de mel
a fitar?
– poesias, versos e ventos, invento!
– sopras também, além de olhar?
– sobro, somo, e às vezes, sumo
voo pra longe, e me resguardo no silêncio

Haschi Faria e Nayara Fernandes

Diluição da dúvida


Eu fui um dia cidade do Amor. Estado de ternura. E país sede do sentimento, para receber milhares de borboletas no estômago. Ele desdenhou a passagem das vontades. Perdeu o voo do pensamento. Contentando-se com qualquer beco de afeto na vila fantasma da lembrança – o tempo não espera a diluição da dúvida.

Nayara Fernandes

Tempo das hastes


Nas esquinas do abandono nos encontramos. Nossos encontros acontecem nos peculiares abandonos. Abandonar a si é recrescer. Amadurecer um cadinho mais o ser. Florescendo macio com a mesma textura das rosas. As hastes necessitam de um tempo para ganharem formato. De vez em quando precisamos nos guardar no abandonar para renascermos como rosa.

Nayara Fernandes

Calor das batalhas


O bom de carregarmos a fé dentro – alimentando os sonhos e luzindo a Alma. É que, se hoje não deu, amanhã tem mais. Mais de mim. Mais de nós. Mais de tudo que é vivo, que nos aviva. Tudo que é novo, que nos renova. Mais de tudo que em Deus esbarra, e nos depara com aquele fio de esperança que não quebra. Mas aquebrata o desânimo, e nos prepara para colheitas próximas – o encontro com um novo começo. O saber do passo é o mesmo saber de que tudo passa no tempo certo. E a cegueira das angústias é necessária para enxergarmos a vida com os olhos do peito. Provocando os sentidos que nos sustém na fraqueza. E inovando o Amor (em nós) que surpreendentemente nos revela mais sobre nos nós mesmos. É o calor das batalhas que nos salva de um viver morno.

Nayara Fernandes

Do casamento orquestrado pela cigarra


A cigarra repousava ali perto da porteira
e, quando escutou as luzes dos olhos deles,
lançou uma flecha sonora que cortou a ida do dia.
E percebi o olhar da menina que tropeçava entre as belezas
Ela caminhava sobre os seus próprios sorrisos.

Percebi, de longe, que atrapalhou-se no próprio vestido
Mas a música de entrada era de novela e reabriu a praia
Envergonhando o mágico por ter a sua mágica descoberta ali
Vimos um mar sobre os pés deles dois.

As fotografias estavam penduradas por prendedores que apertaram
Os meus olhos pelos olhos encontrados deles
E que ficaram por ali perdidos, paralisados
Pelas belezas, pela elegância, pelo casamento sitiado

Estivemos no estado de exceção
Decretado pelo amor mais que bonito e de uma urgência
saltitante que dificilmente se pode achar

Torno a dizer que ali todos nós casamos
Mergulhamos profundamente nos dois
Fechamos os olhos e vimos aquelas luzes piscando sobre o universo
Desconhecido, apaixonado e seguro dos novos rumos

O banquinho abarcava os dois corpos protagonistas
Que melodiaram a nossa imaginação
E nos trouxeram sonhos de longe
Que me fez cantar, e cantei

Sempre quis ser cantor
E fui cantor ali
Cantei junto à cigarra que cortou a hora
Que celebrou a chegada de algo

Enquanto todos silenciaram
De olhos fechados, ficamos apenas
Eu e a cigarra
Que, de tão ousada, cantou sozinha
Forte, intensa e misteriosa

A cigarra encerrou a noite.
Ninguém percebeu.
Apenas eu, o cantor imaginário dali,
E os inúmeros suspiros que implodiu cigarras por todos os lados.

(Lourival de Carvalho)

Não é o fim


Saudades do teu sorriso, da tua atenção, das suas mensagens...
A sua amizade é um prêmio sem preço.
A nossa relação transformou tudo em mim.
Como era bom ter você ao meu lado.
O seu desprezo me faz sofrer.
Quando me lembro das nossas prosas só quero chorar.
Simplesmente te amei e continuarei te amando até os últimos segundos da minha. existência.
Eu sei que lá no fundo você também me ama.
Um dia seremos parceiros de brilhantes trovas.

Autor: Dhiogo José Caetano

ParaNoia


Aboletou-se no peito,
Olha o espelho,
Olhos no espelho,
Olhos fundos grudados na cara barbada,
Alucinógenos usados como fuga.
Dedos amarelados,
A chama do cigarro aceso
É a única companheira,
35 goles de cachaça, 42 cigarros,
545 tragadas, um soco no espelho.

Monólogo entre quatro paredes,
Respostas caladas,
Gargalhadas que ecoam na cabeça
Saem pela boca,
Risos zombeteiros,
Risos histéricos,
Risos desesperados.

Cacos de um Santo Barroco
Espalhados pelo chão,
A fé,
Fé nas mãos,
A fé despedaçada no chão.

Cores vivas
Ferem os olhos mortos,
Acostumou-se a penumbra.
Cores mortas
Afagam os olhos cansados.

Cabeça transformada em labirinto,
Medos entrelaçados
Acordam, renascem
Na paranoia gritante.

É a culpa,
A culpa que corrói,
Destrói.
A vontade é de arrancar o coração
Usando as próprias mãos,
Come-lo,
Come-lo com devoção
Mastigar cada pedaço,
Digeri-lo,
Digeri-lo ate transforma-lo
Em uma víscera qualquer
Que não seja essa.

(Morgan)

Como posso te esquecer? Como?
Plantado está em meu peito,
raízes frondosas fincaram-te aqui e agora pensa em arrancá-las?
Não sei se hás de conseguir, apenas sei que dói a tua indiferença,
Ela machuca ainda mais a ferida aberta que deixaste amor...

Marta de Paula

Líbelula


Um som estranho quebrava o silêncio.
O relógio marcava nove horas e quarenta minutos.
Entre luzes brandas o brilho de um ser que voava de um lado para o outro.
O clarão ofuscava a minha visão.
Como um anjo, uma bela libélula pousou na minha mão.
Fascinado com tão majestoso momento, fiquei extasiado.
Um sentimento de liberdade me fez voar nas prateadas assas da incomparável libélula.
Ficamos em plena harmonia.
Quanta paz.
Mas sabia que no momento certo ela partiria.
Ao fechar e abrir dos olhos a criatura desapareceu na infinita escuridão.
Quem sabe um dia aquele ser reluz novamente na minha vida vazia.

Autor: Dhiogo José Caetano

NOITE-SE-A


ruas e nucas
levam ao aconchego
horas sempre pretéritas
desgastando o tempo.

aqui dentro verniz
adocicando insônia
olhos pesam a cama

luzes violentas
apagam a cidade
contra metragem

olhos esbugalham
vazio em lua
- aqui estou dentro da janela-

noite para-l-ela
já calo,
e durmo
se-n- ti.

Yana Moura

Textura


Carne e transa
Costurando o corpo
Moldando colchas
Esculpindo a boca
Barro e mãos
Quadro e versos
Arte e voz
A poesia gotejando
Pinto as mãos
Engulo os dedos.

Yana Moura