sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Beira da calçada do mundo
Sentado na beira da calçada do mundo
um verso preso
no instante do banho de sol;
corta vento, tudo que impede
a poesia correr livre pelas esquinas
Nesse desconectar de nuvens e brisas
sinto o desfibrilar das palavras
e no tempo de um segundo
amanhece também o poema
pra falar daquele problema
esquecido na beira da calçada do mundo
André Café
Resiliência
Quisera eu não ter provocado
tanto e tudo ao mesmo tempo
Não que o choro não possa mais ser compartilhado
e o presente queira ser um passado esquecido
Eu e minhas falhas, do crescer ao compreender
entender de metabolismo e história,
mesmo na falta de memória.
o meu desejo não é semear tristezas
nem ser o porta-voz de infelicidades
Cá desse lado, a saudade reside
mas o dia amanhece num riso
e deste riso, tomarei como meus passos
não pra dizer: faça como eu faço
mas para que um dia tudo fique bem
com lembranças das coisas boas,
para anoitecermos livres e com paixão
André Café
A poesia que desperta no final da tempestade
Neste tempos mesmo de calor
nessa nossa cidade de sonhos, fogo e fúria
tangente ao giro de cada dia, nem tão secante, tampouco inverno
tempestades aparecem a fio
para cada filha e filho escolhido por acaso
casos; delitos; desconstruções
a convicção hasteada, no turvo vento e turbulência
respigam forte o medo, o destempero e o receio
centelhas de versos virão
d'alma livre, restou o voo
a sombra que de delicia nas poças de fim de tarde
farão ressurgir, ressignificar o novo ser
não disperso do que já fora, mas tentando nunca não ter e ser
num pedacinho de alvorada
caem tempestades e desamores; somem o tempo,
querem esquecer reminiscências
mas da nossa essência, empatia, afeto e afagos;
o amor é bem mais simples e tenro
do que qualquer sereno cobrindo o liberto
aos olhos do mundo
colírios colibris
provocando o desejo mais profundo
ser livre e existir
André Café
Ladainha de liberdade
Se te prendo num
beijo,
Logo deixo soltar.
Seja livre pra amar,
e amar e amar.
Se te quero num
instante,
Logo, logo vai
passar.
Seja livre pra
viver,
e viver e viver.
Se te busco
incessante,
Logo paro procurar.
Seja livre pra
mostrar
o melhor que há.
Seja livre,
passarinha,
Pra voar voar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Vicissitudes da Vida
Vinho na praça, gelo no copo
Mais um casal que passa
Pela calçada dos bêbados tortos
Vejo as crianças que brincam
Entre os jovens que viajam
Em conversas e músicas,
Entre beijos e abraços
Embriago-me de vinho, de poesia
Virtudes e (por que não?) de amor,
Tal qual mestre Baudelaire
Um dia nos ensinou
E assim pretendo permanecer
O resto de minha vida:
Embriagada de tudo aquilo
Que me faz sentir alegria.
Hannah Cintra
O que falta?
O que me falta ser?
O que me falta saber?
O que me falta querer?
O que te falta dizer?
O que te falta fazer?
O que te falta viver?
O que nos falta?
O que faltou pra dar certo?
Eu sempre achei que nos completávamos
Mas agora você não está por perto
Eu quase montei o quebra-cabeça
Mas a peça principal estava perdida
E agora quem está perdendo a cabeça sou eu
Por favor, alguém me ajude
Antes que eu pereça e me perca
Com meus assuntos mal-resolvidos
Amores dissolvidos, dissabores repetidos
Pois estou cansada demais pra fazer isso sozinha.
Hannah Cintra
Lágrimas e Chuva
Mãos quentes percorrem o corpo frio
Preenchendo os espaços vazios
Existentes entre a gente nesse quarto sem forro
Entrementes respingos de chuva, lágrimas de choro
Eu beijo teu rosto de menino bobo
Enquanto tua boca me diz coisas boas
Fazendo eu me sentir bonita, repetindo o coro
De que o universo conspira a nosso favor
Deixando o fogo que nos consome converter em calor
O amor que transpira pelos poros e pêlos
Atendendo nossos apelos
De que não haja nada mais tão perfeito quanto nós.
Hannah Cintra
Ligação Gratuita
Não sei por que eu insisto em ligar
Se eu sei que ninguém vai me atender
Deixo um recado após o sinal
Que ninguém vai ouvir quando receber
Passa a fome, o filme, a hora
Passa o carro, a moto
Passa a música, a foto
Passa, volta e vai embora
Só não passa a vontade de conversar
De falar, papear, desabafar
Dizer tolices e besteiras
Destrinchar minha vida inteira
Pro meu psicólogo particular
Mas cadê você que não está
Nem mesmo perto do celular?
Hannah Cintra
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Sobre sonhos III
Dos sonhos e das coisas ditas, um universo em expansão
o desconectar; um mosaico do íntimo e causas últimas;
do nada concreto, ao silêncio gritante e surreal
Falam, sussurram, injetam
doses de loucuras, paisagem e fulgor
para um labor incrível, sem medida aparente
Um salto para o fim, no desplugue do alvorecer,
devoram-te o sono e algumas memórias em xícara de café
emboladas numa viagem caseira a ermo
É o risco diário do acordar
adeus aos mundos de tantas saudades
vão embora amores e saberes;
amanhecem o tempo e o pulmão
André Café e Verônica Rodrigues
Lança-me Louva-a-deus grená
Engolido e protegido
pela neblina do solo cinza
todas pisam apressados;
Cada lado é rumo desnorteado,
cada rua, esquinas de silêncio
Entre vivos, apenas fila
e solados harmonizados
desgastando notas fúteis
para lá e para o além
Cinzas no chão e olhos
nenhuma fagulha de cor
são sequências de torpor
perambulando na vida
Mas tem quem olhe o Sol
pra saber quanto tempo leva,
pra saber qual o dia da semana
pra saber do calor da luz
E por pura sorte ou destino
por mais cinza que estiver o olhar
resplandece e multicolore
qualquer cena e solidão
Lança-me nos teus olhos vermelhos
no abraço forte e na liberdade do teu voo
André Café
Sobre sonhos II
Um punhado de riscos e rostos distantes,
pedaços cortados anacronicamente
num revelo em desnível constante
Luz e escuridão; entre o espelho e o espaço
alternam o sono e a sonolência
num soluço de passo a passo cadafalso
Profundo mergulho invisível
tácito desejo; tórrido instante
entre os braços, num laço o beijo,
noutro mundo, num sonho impossível
André Café
Sobre sonhos I
Um suspiro revelado;
madrugou e se escondeu
não se sabe por onde andou
até chegar por aqui
e me provocar viagens
Tenho tanto tempo quanto o tempo turva tudo
um risco de lembrança
pra tatear por qual vereda
esse imaginário mundo
quer levar minhas vertigens
Elevam-se as raízes
ao rio que corta as nuvens
debaixo dos nossos pés
apenas o cume do silêncio
num sonho de milhagem
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Esetnís - o diálogo atravessado de amor e luta
Esses tópicos que renascem
fazem as cinzas queimarem de trás pra frente.
Seda duas, por favor, pra aliviar essas saudades,
pra incendiar essas vontades
de entorpecer a vida com a tua.
Presença de futuro que teimamos em projetar
pra um plano maior e mais pra frente do que temos.
Que mudar entre todos nós é ideia proposta em ações.
Irmãos e irmãs mobilizadas em conspirações
de encher de flores o trajeto da caminhada.
Passo a passo lado a lado, nem de frente nem atrás,
Vamos cada dia mais inflamando as cabeças.
E por mais que pareça absurdo,
Vamos gritar tão alto no escuro
É liberdade que se busca num abraço.
A letra A tem meu nome
Não autoridade!
o inverso disto é o que se almeja
o contrário dela é o que se busca
sua negação é o que nos ensina
Não propriedade!
sua destruição é um dos caminhos
à coletividade é que pertence
inexistir é sua sina
Iniquidades; discrepâncias
obsolescências; opressões
a segregação armada:
de um lado os tiros
de encontro aos ecos que sangram
nas fronteiras destes mundos
Não há como simplesmente se engrenar
não há como se deixar coagir
não dá pra ficar, parar, esquecer
pra frente do caminho que dista, seguir
Um, dois, tantos e somos, como sempre soubemos
mas uma força criada, nos fez esquecermos
Mas somos e sabemos, que nada mais será imposto
por nós, apenas por todos nós,uns tantos mundos possíveis
Saúde, amor e anarquia
carrego feito poesia
para todas as dores que me consomem:
a letra A tem meu nome
André Café
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Ave fênix sangria
Mas como poderia ser?
A mercê de muros inexistentes?
Tampouco de labores invisíveis,
em centelhas inalcançáveis
por contatos impossíveis?
Qual tempo me leva para esse dia?
Qual estação intransponível me transporta pra lugar nenhum?
E lá? Como reconhecerei, sem a autoridade indubitável?
Num carece disso tudo não.
Rebusco, confuso e concreto, minh' alma de poeta
não peço passagem, o fluxo já existe
Entre estas tantas terras criadas do nada
há mais tantas criações do nada, na Terra:
o verso em riste é resistência e plural
Pássaro que nos transporta para outros ares
voa de longe até estas bandas
ressurgem abraços, pedaços, cirandas,
ave fênix sangria, é poesia. de todos os lares
André Café
Mais dose para o olvide
Tenho o costume de rever pessoas esquecidas:
num rosto de um desconhecido,
ou na música que passava naquele dia distante;
no escuro do túnel do metrô,
ou na madrugada errante;
no lado de lá do sonho,
no meio do fervor de um levante
Assim distante, tão tanto de mim
quanto de mim, o que fui, ou o que seria:
nem ao fim da poesia
esquecerei de lembrar você
André Café
Amorcídio
Foto do projeto "Fragmento", do Paradoxo:
Matar saudades é um crime sem pecado,
porque "I míssil"*, camaradas, não é um tiro desgovernado:
o alvo é concreto** e certo.
É querer sem ter por perto as amizades,
é saber-se mais esperto pela vontade
de cortar toda distância num golpe dado de braços:
vem cá, sinto sua falta.
É botar a música mais alta,
e virar de uma vez a cachaça
pra trazer o gosto das lembranças mais felizes
ao teu lado.
É saber que as experiências do passado
nunca mais poderão ser revividas,
e que juntinho das pessoas queridas
só nos resta construir o que há de vir.
Que antes da saudade sumir,
deixa sozinha uma lágrima cair
pra lavar os caminhos do reencontro.
Que nessa hora todo mundo esteja pronto,
vestindo sua melhor gargalhada
pra rever sua gente tão amada.
* "I míssil" referindo-se à produção do Mário Lacorrosivo: http://sociedadedospoetasporvir.blogspot.com.br/2012/03/sinto-sua-falta.html
** "Concreto" em vez de "líquido" por sugestão da Heiza Maria. Obrigado!
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Para sempre Fernanda Costa
Tem daquelas noites que o universo tá impossível
um sem número de estrelas cadentes rasgando o breu
dando lugar pra um cenário de lindeza sem fim
Noite boa, noite única, noite que gira;
num misturado de beleza
com riscos, pelos gritos da natureza
um espetáculo raro, com leveza e fúria
Daí que a vida tem desses casos;
em que estas raras "coisas"
na verdade são pessoas.
talvez assim como as estrelas
apareçam aqui e acolá
Mas elas chegam, voando, correndo
e transformam estes momentos
num espetáculo explodido de coisas boas
uma mistura inexata de sentimentos
Das chuvas de meteoros particular
das quais me orgulho por viver e sentir
ela que é aquarela e vermelho
que tem força e preza o viver,
que abraça o mundo e o medo
é das mais belas que posso conhecer.
Já te chamei de bruta flor
já vi do teu riso ao pranto
já vi tanto, que hoje é tão bom
tudo o que circunda sua vida
como esse A bem forte que emana da gente
ou um Alexandre que tanto te (nos) faz bem
No caminho de desconstruir
me orgulho também de poder estar lado a lado;
esse pouco a pouco é destino,
que a gente se joga para nossos sonhos
e vive, sobretudo para vencer
tudo aquilo que faz a gente esquecer
que a coletividade é nossa construção
Com fé, ferro e fogo
eu rogo por tempos serenos
por permissão e inquietude;
amor eu nem peço tanto ou mais
tu estrela única, já transborda pelo mundo
esse sentimento profundo
sigamos em voo ou em canção
para sentir, vivenciar e existir
com saúde, amor e anarquia
André Café
Um suspiro de calor
Suspenso o suspiro que a tarde arde:
o devorar de fim dos tempos
em apenas um passar de noite;
um pesar devoto
que tinge o açoite
Suspiro ... para além de alvéolos:
infesta, metaboliza e esvazia
coaduna com o espectro revertido;
nos meu olhos, dilúvio
do mais puro libido
Sumo, suplício, sucção:
da gota de rota pelas curvas,
súbita feito abrasador;
sem suspeitas nem culpa
sem necessidade de ser amor
André Café
Poema cor de carne
Tenho alguns poemas perdidos;
uns tantos assim pelo caminho,
outros afim de se perderem
Pra quê o reflexo imundo?
são apenas versos que se deitam
num devir de esquecimento
A letra que não corta mas encerra;
o vão de sangue cor de lágrimas
o caminhar cada vez mais cortejo
Tenho alguns sonhos desnudos
todos assim, pele e garganta
se perdem no amanhecer vadio
André Café
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