sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sob(re) o Corvo

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Na escuridão nada há de estranho
Pois lá resido e me encontro,
E me ponho no vasto infinito
Ao lado de um corvo.
 
[“Fique
                          comigo!”]

Na noite de mais profunda contemplação
O corvo traz uma luz fosca, quase boba
No que fito olhar – e não em vão
Que a lânguida leveza enaltece

[“Trago
                          consigo!”]

As penas negras me seduzem funebremente
E no olhar negro, Raven – O corvo
Feitiça calmamente ao prepotente consciente
Que já não via estrelas no quadro negro

[“Hipnótico
                             Contigo”]

A brisa noturna quase me fez esquecer
De enaltecer os pares de círculos
As esferas redundantes dessa noite
pegar-te-ei com meus dedos

[“Batimento
                             Acelerado”]


Sobre a bênção de Vênus, eu me separo
E você em voo rasante se despede
Ao passo que não me desfaço das asas
Do odor de carne, da saliva e do abraço.

[“Bendito
                               Corvo”]

Hugo Barros

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Outubro Rosa - Ariêtes, abóbadas e auroras fenomenais

Não será uma poesia; será uma dispersão psíquica e surreal.
A amiga que outrora cruzara comigo no corredor da academia, da universidade...
Ela se teletransportou, transmutou-se e assumiu uma forma mais jovial ainda
 e atingiu meu sexto sentido.

Ela já se chamou Anna, Márcia, Julianny, hoje virou uma Karina, e sabe-se lá o que virará.
(Os nomes são reais; as mulheres também; a alma eu não sei explicar, mas há um karma)
Na filosofia oriental se chama "a mulher que passa". Ou, machadianamente, "olhos de ressaca".
Isso não é o mais importante... a pessoa, enquanto ser humano, é importante e vivaz - isso concretiza.

Um dia, marquei um encontro com a Julianny, apesar de só nos encontrarmos ao acaso e sempre conversáramos sobre aquele mesmo assunto: uma poesia, uma sabedoriazinha, um livro que um dia íamos fazer - e com ilustrações coloríveis, esse era o critério: liberdade, liberdade, sempre...

Mas a Julianny ela partiu precocemente, avoou para céus os mais altos, longínquos demais para mim; isto quer dizer, para eu poder alcançá-la; mas, ainda dialogamos, os sinalizados dejavùs, as pistas que acontecem no destino, as jornadas de viajôr que por vezes é preciso empreender e vencer empecilhos; e ela sempre ali, sacrossanto prêmio, por vezes distante, por vezes próximo; nunca atingível, imaculado, pureza pura qual wodka.

Me pediram para evitar um pouco o jornalismo e escrever poesia, sendo que já não o sei mais; é muito difícil lembrar escansões, rimas, métricas, sandices parnasianistas, e etcoétera.
Prefiro a poesia das ruas, mundanas, sabidas, ensinamentos únicos e velozes; de relance, de revestrès.
Uma mensagem ficou na minha memória, lendo de trás p'ra frente: "maktub" - está escrito.
(porém, não é a melhor tradução, os árabes já o disseram; e eles, ah, êles me devem explicações e muito, muito mais.).

Para Karina, olhos de ressaquinha.
Uma beleza rara e verdadeira.
Uma jóia com acento.
A garota do batom, garoto!
A coca-cola zero verde da véspera.
Menina-Moça-Mulher (M³).

Outubro Rosa - Ariêtes, abóbadas e auroras fenomenais

Não será uma poesia; será uma dispersão psíquica e surreal.
A amiga que outrora cruzara comigo no corredor da academia, da universidade...
Ela se teletransportou, transmutou-se e assumiu uma forma mais jovial ainda
 e atingiu meu sexto sentido.

Ela já se chamou Anna, Márcia, Julianny, hoje virou uma Karina, e sabe-se lá o que virará.
(Os nomes são reais; as mulheres também; a alma eu não sei explicar, mas há um karma)
Na filosofia oriental se chama "a mulher que passa". Ou, machadianamente, "olhos de ressaca".
Isso não é o mais importante... a pessoa, enquanto ser humano, é importante e vivaz - isso concretiza.

Um dia, marquei um encontro com a Julianny, apesar de só nos encontrarmos ao acaso e sempre conversáramos sobre aquele mesmo assunto: uma poesia, uma sabedoriazinha, um livro que um dia íamos fazer - e com ilustrações coloríveis, esse era o critério: liberdade, liberdade, sempre...

Mas a Julianny ela partiu precocemente, avoou para céus os mais altos, longínquos demais para mim; isto quer dizer, para eu poder alcançá-la; mas, ainda dialogamos, os sinalizados dejavùs, as pistas que acontecem no destino, as jornadas de viajôr que por vezes é preciso empreender e vencer empecilhos; e ela sempre ali, sacrossanto prêmio, por vezes distante, por vezes próximo; nunca atingível, imaculado, pureza pura qual wodka.

Me pediram para evitar um pouco o jornalismo e escrever poesia, sendo que já não o sei mais; é muito difícil lembrar escansões, rimas, métricas, sandices parnasianistas, e etcoétera.
Prefiro a poesia das ruas, mundanas, sabidas, ensinamentos únicos e velozes; de relance, de revestrès.
Uma mensagem ficou na minha memória, lendo de trás p'ra frente: "maktub" - está escrito.
(porém, não é a melhor tradução, os árabes já o disseram; e eles, ah, êles me devem explicações e muito, muito mais.).

Para Karina, olhos de ressaquinha.
Uma beleza rara e verdadeira.
Uma jóia com acento.
A garota do batom, garoto!
A coca-cola zero verde da véspera.
Menina-Moça-Mulher (M³).

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Todo Tempo é tempo, nem todo Momento é momento

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Todo tempo é tempo:
de viver,
de sonhar,
de amar!

Todo momento é momento:
de sonhar,
de lutar,
de querer?

Há no tempo o momento,
onde mais haveria isto?
De escolher o momento
se não fosse no tempo?

No meio disto ou aquilo,
no tempo o momento,
que traz consigo sentido
e em sua ausência o vazio.

O Nada! A Náusea! O não-ser!
não há o Nada no tempo;
a náusea consome o momento;
e fora do tempo há o não-ser!

Se tens que tomar uma decisão
que te perturbe em tal existência,
aquilo que lhe retira tal sanidade
pare a mente, repense a precisão!

Não se sofre mais do que ao escolher;
E das dores de tomar tal feito
é melhor escolher teu momento
do que sofrer por perdê-lo.

Nem todo Momento é momento,
pois há muitos pensamentos:
dos pesadelos não nascidos,
dos sonhos recém jazidos.

Recubra-se! Erga-se!

Renasça em meio ao carvão recente;
a vida, esse sopro quente pulsante
que traz consigo o momento ardente
e a angústia da escolha latente!

Se queres uma resposta para o que te perturba,
diferenciar o tempo do momento e escolher
entre fazer e arrepender, não fazer e sofrer
Sinto muito por ser abrupto: não tenho tal resposta!

Aqui vivo o mesmo dilema tosco
de escolher entre tantos únicos momentos
ou deixá-lo passar em silêncio posto

Mas voltando a pensar novamente sobre aquilo
O melhor momento é aquele que pesa na balança
Que nasceu e marcou seu ser no tempo
Brilhou como sol, morto caiu, virou lembrança.

Hugo Barros

domingo, 28 de agosto de 2016

Jogar-se



Para Vanessa Ferry de Oliveira Soares 
   
Para nós e nossa união cósmica

Deuses deram as cartas:
Odu, horóscopo, sinestesia.
Antedisseram que faria parte 
Sermos um e uma na vida, todo dia.
     
Sonho  projetado se realiza
Em cada passo dado, objetivo cumprido.
 Amor abrigado fora das balizas
Batidas no peito forte, cheias de motivo.

O risco de viver a vida vira traço 
Contido num sorriso, num abraço,
Num cheiro de canto de boca, tuas linhas 

Viram partes nossas tão minhas
Olhos em encontro, expandindo 
Na nossa união, casal tão lindo!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ao pó tornarás

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Todo o homem
Toda a beleza
Ao pó tornarás
O tempo passou
E onde está a beleza?
As flores caíram
As flores morreram
Estão na verdade
Tornando ao pó
E embelezando
O chão que me sustenta

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Momento zero III


Estava a nossa frente Sofia, aquela que em vida, era a filha do Duque. Mais velha, mais forte, com a expressão marcada por um senso de disciplina, determinação e vigor. Embora seus olhos ainda demonstrassem aquela vontade de devorar o mundo. Aquela garotinha que era a representação da bondade, do bem real da Terra, viu o mundo e suas distorções, suas opressões em segundos. Duque mais uma vez em silêncio, embora fitasse sua filha concentradamente. Antes que eu pudesse quebrar a fala, Sofia se antecipará.

- Sim, Duque de Copas. Esta é quem era sua filha. A distorção do espaço e do tempo fez com que alguns anos passassem. A saída de Satan, que aconteceu aos nossos olhos, não aconteceu em poucos minutos, já se passaram anos, eras. Sua mente irá proporcionar tudo que você deu continuidade neste lugar, tudo o que você reproduziu e representa. E é por isso que essa insurreição de massas está aqui. Para por um fim nisso tudo. (...) Eu tinha compreensão na Terra do significado de minha essência, ou como descreveu Metatron, a expressão do bem da Terra. Mas essa alcunha está equivocada. O que chamam de bem, poderia ser muito melhor descrito como sentimento de justiça e de liberdade para o mundo. De certo que um tanto mais jovem, criança, com uma redoma de males e sangue me guardando, eu não tinha argumentos suficientes para questionar a ordem, o meu destino em nobreza, o mundo. Para cá fui enviada, ainda com a sensação de originalidade, como peça única. Qual não foi minha surpresa ao saber que tantas pessoas também carregavam essa vontade de construir um outro mundo. E olha no que refletiu nossas ações silenciosas e organizadoras. Estamos aqui a frente de Cocytus, para queda deste sistema.

- Você está bem falante Sofia de Copas ...

- Meu nome é Sofia de Spem. Não carrego a alcunha de quem tem o privilégio-mor desse sistema.

- Pois bem, Sofia Spem. E também nobre pensador. As lembranças desses 20 anos estão fluindo, embora tenhamos dados dois ou três passos nas escadarias do templo, vendo Satan e Metatron partirem. É um tanto cômico, um tanto perturbador lembrar de feitos que você não pode vivenciar. Quisera muito vivenciá-los, pois era exatamente dessa forma que eu seguiria a regência do Inferno. Realmente você não sabe Sofia, mas desde seu desenvolvimento, de sua capacidade quase como numa aura de transformar a realidade ao seu redor, já tinha ideia do que você representava e por isso mesmo mantive você sobre as rédeas dos muros de nosso palácio. Como o mundo iria lidar com tal conhecimento? Ora, bastava o que existia, nobre, humanos imundos, guerra e sangue. Não seria permitido para a humanidade ter outro destino. De lá eu já me sentia o senhor do Inferno, julgador de toda a raça putrefata que habitava feito praga o planeta. Nada mais sábio, nada mais lógico e correto está onde estou agora e conduzir estas pradarias com este sistema. Nenhum levante capenga será capaz de retroceder meu progresso.

Duque parecia não enxergar. Vociferava suas lamúrias e ofensas para Sofia, que mirava com desdém cada gesto ou palavra. A cegueira também dava conta do resultado do combate. Era visível quem irá triunfar. Por mais desgastados, mutilados e semi-mortos que pudessem parecer, toda trupe de humanos se revestiu da certeza da vitória, e lutavam com afinco e força esmagadora, derrotando tanto os humanos que se colocavam a favor do inferno, quanto as mais colossais aberrações demoníacas. Era uma questão de tempo. A massa tinha se organizado e se municiado bem para a ocasião. Até mesmo a distorção do espaço e do tempo fora estudada e bem utilizada para se escolher um momento exato. O sistema não era tão assim seguro e perfeito. Saberia Satan desses caminhos? Cada vez mais novas dúvidas surgiam. Meus pensamentos foram interrompidos pelo diálogo entre ex-pai e ex-filha.

- Não há motivo para continuar ouvindo ou especulando por uma rendição que não vai acontecer. Eu vim aqui para me certificar de que nada deve ser salvo, tudo deve ser eliminado para que possamos construir uma outra realidade. As proporções territoriais daqui são as mesmas da Terra. E aqui será o nosso lugar, o nosso novo lugar. E não há nada que possa ser feito pra mudar os rumos dessa história. Adeus.

- Não há tempo nem para um pequeno jogo de cartas Sofia? Observemos o resultado do jogo, enquanto jogamos este que com certeza será o último carteado entre a gente.

- Ora, acredita que irei suscitar a mesma história que Satan fazia por aqui. Desista, nada irá mudar o que está vindo.

- Nobre pensador! O que me diz disso tudo? Qual o caminho pra outras possibilidades?

- Creio eu, caro Duque, que chegamos no instante do caminho que não há retorno; estamos na fase irreversível de uma reação química. O que tiver de ser agora, será. Seu maior equívoco, penso, foi em não manter a sabedoria, o cuidado que era tão característico de sua personalidade. Ao alimentar-se do poderio do ser demônio, perder toda sua sagacidade e agiu com limitação, requentando velhas práticas. Um ponto isso iria estourar. Sinto muito.

- É verdade o que você fala Sócrates. E por isso ...

- Duque agarrou-se a Sofia e lançou-se para o meio do adro de Cocytus, exatamente o lugar do portal, que permanecia ativo (...) e nele sumiram ...

Poucos minutos, mais de 20 anos. No total, perde a noção de quanto havia passado. De tantos jogos que se sucederam, entre goles, convites no tempo e história para um chá de gengibre e coca. Meus escritos naquele lugar tinham chegado ao fim. Não um fim, finalista e encerrador de ideias. Mas tudo que poderia observar já havia sido documentado, refletido, absorvido. A condição humana de existência não pode ser estabelecida e vinculada com a própria auto-destruição. De certo que existem castas grupos que assim tocam os destinos. Consideravelmente quem está acima de um sistema hierarquizado. Onde morrem e sofrem gerações de pobres almas; muitas vezes sem pestanejar na caminhada burra;  muitas vezes guerreando e se destruindo entre si. Tudo isso mantendo um grande Leviatã, o mesmo culpado maior de toda estrutura opressora estabelecida. Mas a condição humana não se apregoa, nem genericamente, nem especificamente a isso. A grande história está retalhada de resistência e de vontade de viver em harmonia. Em nenhum momento, infelizmente, todo sistema foi abarcado de tal forma que caísse em escombros irreversíveis. Mas não distante esse caminho parecia-me. E de fato, lá estava eu testemunhando o que observara. Por muito tempo a misantropia era pra mim uma certeza irresoluta. Conceito refletido a partir da solidariedade e vontade de viver em um outro mundo verdadeiramente justo. Acabava minha estadia no Inferno. Os soldados já passavam sobre as escadarias de Giudecca. Sentei na velha cadeira que tantas vezes me provocou esperas homéricas. Um gole de chá, um suspiro profundo e uma certeza. Há outros mundos e minha sede de saber nunca se cessará. (...)

Uma semana? Uma hora havia se passado? Ou quem sabe 100 anos? O sistema ruirá, conselhos se formaram, para todos os lados ajuda e coletividade. Caminhei para o adro de Cocytus. E lá mergulhei para o infinito.

Sócrates

8


Vejo-me melhor em poemas do que
em fotografias alegres de domingos
falsos quando palavras fáceis soam
como a magia da flauta de Mársias.
Talvez sejam as lentes frágeis destes
velhos óculos quadrados que já não
servem para demonstrar minha face
mas apenas meus dizeres em versos.
Observo-te solitária e ofuscada pelo
tempo de parasselênio da saudade
azul daquele antigo amado bardo
que te escreveu em uma folha em
branco e que te queimou com uma
vela branca sem guardar tuas cinzas
em um pote ou jogá-las em um lago.
Reescrevo-me todas as noites antes
de me recolher aos meus aposentos
e costuro este coração com pedaços
de nomes de gente ou com linhas de
estrofes mudas de uma poesia escrita
por Rimbaud antes de sua partida.
Recordo-te pequena sobre a cama
sem ter o que falar nem o que ouvir
e lembro-me que compartir o silêncio
é o método mais sincero de se declarar
o amor conservado entre duas pessoas.
Beijo-te sem movimentar meus olhos
melancólicos como naquela tarde fria
de junho quando dormi no teu sofá duro
somente para te acompanhar ao teatro.
Estaremos dormindo quando ocorrer
o fim do Cosmos e apenas teremos
nossos membros por dentro da gente.
Morreremos em todas as frases escritas
e em todas as fotos guardadas em álbuns.
Seremos poeiras restantes do nosso universo.

(Laís Grass Possebon)

Arrebate


Repentinamente: um impulso.
Fim: recomeço.

Laìs Ha

Regresso: paradoxo temporal


J. disse precisar de um espaço subterrâneo. H. precisava de mais tempo. J. desceu os degraus até o sul. H. comprou duas caixas de medicamentos. Nos primeiros dias de outubro, as cores não surgiram como de costume no hemisfério sul. Nos dias seguintes, a cidade dormia em preto e branco. J. ainda estava no porão. H. quebrou todos os relógios que havia em casa. As calçadas do bairro eram cinzas. As árvores estavam secas. Ninguém compareceu ao funeral do prefeito. Alguns anos depois, sem marcadores de tempo, J. subiu os mesmos degraus, que o levaram ao sul, e saiu do recinto familiar sem dirigir suas pupilas a H. Ainda era outubro. Ainda não havia cor. H., que estava mergulhado em água com analgésico, se perguntava o horário. J. sentou-se em um banco cinza da praça negra. H. contava as facas e os garfos na cozinha. Alguns anos se passaram e não contaram o tempo. Outubro ainda doía. H. já tinha um filho. J. respondia por tentativa de homicídio. Numa tarde cinza, a cidade sem cor se viu coberta por um céu anil: J. foi absolvido. H. não precisava de remédios. D. completou onze meses de vida. Era setembro.

Laìs Ha

Amor: apocalipse redentor


O apocalipse havia começado e J. disse precisar novamente de um espaço subterrâneo. H. se cansara de subterfúgios. O diálogo foi contido. O sentimento estava tíbio. Não havia humanos vivos na cidade cinza. O vento chegara sem timidez. J. deixou Flaubert de lado. H. intentou uma farsa para afagar seu ego aborrecido pelo desamor de J. O abatimento se misturou com as rachaduras do chão nos dias apocalípticos. J. arranjara um sexo melhor para terminar sua existência terrena. H. não se conformava. J. poderia dividir seu corpo em dois e agradar H. e V. Um entenderia. Outro queria ser único. H. engendrou palavras de amor maquiavélico. J. ouvi-as em uma frase tragicômica. Negou-as. Deitou-se com V. No interior do tornado escatológico, H. cuspia seu amor em ódio. Amava até odiar, odiava até amar e não se perdoava por não deixar de amar. H. telefonou nos minutos finais com a intenção de humilhar J. H. não percebia que J. já sobrevivia entre uma cortina transparente de humilhação: J. não sabia amar por muito tempo. J. esperava encontrar seu amor redentor antes do final dos tempos. O tempo andava apressado demais para esperar pela redenção de J. H. perdia seu tempo tentando ferir seus amores criados. V. vivia sua leveza psicodélica fazendo cálculos e sujando suas mãos. Formou-se no céu um escrito em inglês (para ninguém ficar de fora): the end! J. correu oito quilômetros sem parar e, quando atingiu uma rua referta de árvores cinzas, avistou A. lendo Flaubert sob as folhas pretas. Escureceu.

Laìs Ha

Quando o vento sopra, é porque tá na hora


Olá, queridos e queridas!

Farei deste espaço um baú nostálgico onde a linha entre o real e o imaginário seja tão tênue quanto a que separa amor e ódio.

Não tenho objetivo nenhum senão o de compartilhar com vocês as coisas que se passam na minha cabeça, algumas fruto de minha vivência, outras de meu pensar. Espero que gostem e que também desgostem. O importante é não ficar parado e se expressar do jeito que desejar.

Bem, sem mais delongas, boa leitura!



Era por volta de quatro da tarde e o sol já começava a baixar de modo que vários pontos de sombra iam surgindo por detrás das casas, muros e construções inacabadas. Já dava para sentir o vento soprar e quando o vento sopra, é porque tá na hora.

– Hoje eu vou cortar e ainda vou arrastar! – pensei ambicioso. Minha mãe tinha saído para trabalhar e só voltaria à noite: tudo o que eu tinha de fazer era empinar no quintal de casa mesmo e entrar antes dela voltar.

Da sala de casa dava para ouvir os primeiros movimentos lá fora. Dava para reconhecer o som de pés descalços ou mal calçados caminhando e depois parando num ponto fixo. Estavam combinando algo…

– Estica a linha até o fim do campo. – alguém falou.

– Hey, deixa cerol pra mim também, o meu tá fraco! – resmungou o outro. Mal ouvi aquilo e já senti meu corpo tremer de excitação e ansiedade. Os adversários já se preparavam para a batalha de uma guerra que duraria por toda a minha juventude.

Corri para o quarto e peguei a minha pipa que estava escondida debaixo da cama. Era feita de seda em formato de “X” com as cores preto, amarelo e verde (lembrava um pouco a bandeira da Jamaica) e com um rabo de fita azul, feito de saco de lixo. O rabo estava meio embaraçado e eu até pensei em desembaraçar, mas mudei de ideia. “Melhor fazer isso só na hora de amarrar a linha”, pensei comigo mesmo. De dentro do cesto de roupa suja, tirei o meu tubo de linha. Era um tubo misto de linha nova e velha, todo sujo, mas que dava para o gasto (quando o tubo de alguém era misturado, a gente costumava implicar com essa pessoa trocando a palavra “Metros” por “Nó”. Se o tubo era de 400m, por exemplo, a gente chamava de “tubo de 400 nó”).

Voltei para a sala com a pipa e a linha e deixei-as sobre o sofá. Coloquei a chave na porta, mas minha mão tremia de ansiedade e quase não consegui abrir. E quando pensei que já tinha acabado, o abrir da porta revelou a grade externa, cujos dois cadeados eu também teria de abrir.

Ao passar pela porta, senti o mundo à minha volta: capim para quase todo lado intercalado por pistas e calçamentos. Sons distantes de carros e motos misturados ao de alguma casa tocando reggae faziam a trilha sonora daquela tarde. Era o mundo me dizendo “e aí, muleke, tá pronto?”… E aquele mundo se chama Santa Maria.

Eufórico, eu já conseguia sentir o cheiro da disputa pairando pelo ar. Era um cheiro singular que misturava capim, cola branca e de madeira (essa última fede pra caramba), papel de seda amassado e tala de coco (madeira que se usa para construir o esqueleto da pipa).

Corri vuado pro quintal para pegar o potinho de cerol, o qual eu escondia numa fenda da pia que ficava lá fora. Balancei o potinho e senti que o pó do vidro estava muito grosso, concentrado. Adicionei, então, um pouco de água à poção mágica para diluir melhor o pó do vidro até sentir que a concentração estivesse equilibrada, então entrei em casa para pegar o tubo.

  Como o quintal de casa era pequeno, tive de esticar a linha dando várias voltas, prendendo cada volta em alguma ponta de cimento que ia encontrando por entre os tijolos do muro. Alguns pontos iam quebrando e derrubando a linha no chão. Então eu ia amarrando em pontos mais firmes e tomando cuidado para não deixar cair novamente, pois se isso ocorresse com a linha encerada, ia sujar toda de terra… E qualquer empinador que se preze sabe bem que cerol sujo de terra só dá numa coisa: pipa indo embora.

Linha esticada, comecei a passar o cerol. Com cuidado, fui passando a poção e observando bem para não deixar ficar grossa. Se o cerol for grosso demais, a linha pesa e dificulta as empinadas; se ficar muito fino, o cerol não aguenta mais do que um corte. Tem de estar no meio termo, bem passado e bem seco. É o que a gente chama de “linha de faca”.

Mal acabei de passar o cerol, meus olhos se encheram de brilho ao ver a primeira pipa subir. Não devia ter nem uns 3 palmos de tamanho, mas era de seda e tinha um formato legal, uma cruz vermelha de fundo branco. Perguntei-me se quem encobriu aquela pipa quis homenagear a Inglaterra ou se foi somente por fazer mesmo (era ano de copa do mundo e nessa época a gente costumava fazer pipas de acordo com a bandeira da seleção dos jogadores preferidos).

Mal subiu a primeira pipa, a segunda alçou voo. Devia ter uns 3 palmos de tamanho, feita de seda num formato “bandeira da Austrália” e tinha um rabo enorme. “Aí sim, rapaz! Isso é que é, máquina”, xavequei. Era tão grande e robusta que quando o seu dono a empinava, dava para ouvir o som do atrito da seda e das fitas do rabo com o ar. Era uma bicha lindona, óh!

Mais pipas começaram a subir e aos poucos o azul do céu foi ficando colorido, o que me fez lembrar de me apressar para subir a minha também e cortar geral (nisso eu já tinha abandonado a meta de entrar pra casa antes da minha mãe chegar, queria apenas empinar e aproveitar aquele momento, mesmo que me custasse uma surra, um castigo ou os dois). Corri à pia para lavar o cerol restante das minhas mãos, pois a cola já estava começando a secar na minha pele.

Lavei-me às pressas de modo que ainda dava para sentir vestígios de cola por entre meus dedos e unhas, mas a batalha já havia começado e isso já não importava. Naquele momento, eu não era mais uma simples criança: era um guerreiro duro o suficiente para suportar os cortes nos dedos causados pelo cerol, machucados nos pés causados pelas topadas e até o sol escaldante sobre a pele nua das costas magras (essa dureza toda só resistia até a hora do banho, porque quando a água batia na ferida, doía pra caramba!).

Olhando pro céu, comecei a pensar que cada pipa era como um dragão e o meu estava prestes a subir também. Éramos cavalheiros templários em busca de uma emoção que fizesse tudo aquilo valer à pena. E como fazia… Éramos garotos e garotas sem passado e sem futuro, filhos diletos do presente e da infinidade criativa de um mundo infantil.

Voltei para checar a linha, passando os dedos em formato de pinça para ver se o cerol já tinha secado. Não somente já estava seco como tinha ficado bacana!

O grande momento havia chegado.

Na batalha das pipas você tem de ser bom empinando, mas tem de ser melhor ainda correndo, porque caso a sua seja cortada, dependendo do vento e da distancia que a pipa está, dá para correr atrás dela e pegar de volta.

No céu, mais pipas começavam a aparecer e os primeiros cortes a ser colocados. A cada vez que uma pipa ia embora, alguém gritava lá fora “ow, trisca!!!”, “Dian, nem sentiu!”, “Toma, tisga véia”. Dava para ouvir os gritos e sons de varas de bambu se chocando na luta acirrada para pegar as pipas antes mesmo delas caírem no chão.

Uma pipa é muito mais do que uma pipa. É um depósito voador de esperança.

Correr atrás de uma pipa é uma loucura. São frações de segundos onde nada mais importa senão ter aquela pipa em mãos. Você dá tudo de si e no fim, mesmo sem a pipa, resta o coração acelerado, o corpo suado e o calor no peito. É rajada de morfina no sangue de quem nem começou a estudar ciências ou biologia (e que talvez nunca venha a estudar, no caso daqueles que conheceram o trabalho antes dos livros, quando não o crime).

À beira de uma explosão de ansiedade, voltei correndo para dentro de casa e peguei a pipa. Segurei-a pelo cabresto e já ia me preparando para correr novamente para o quintal, quando tropecei no rabo embaraçado da pipa e desabei por cima dela.

Houve um estalo, depois apenas silêncio.

Marcus Sousa

Ver também em: Quando o vento sopra, é porque tá na hora

Como fazer pipas

Os olhos do autor


Apreciar a obra prima
 Sentir a sua arte, saboreá-la
 Depois de contemplar os olhos do autor
 Não decifrá-la, não questioná-la
 Sofrer, chorar, amar, gritar
 Depois de contemplar os olhos do autor
 Será possível?
 Não desabar, manter o equilíbrio
 Depois de contemplar os olhos do autor
 Degustar as palavras declamadas
 Sentir o gosto escorrendo na garganta
 Depois de contemplar os olhos do autor
 Contando-me todas as mentiras
 Ao pronunciar somente verdades
 Depois de contemplar os olhos do autor
 Eis o maior desafio
 Os olhos do autor

 Amanda Vaz

Se não for viagem não vale a pena


A pé, de carro, caminhão, ônibus ou avião
 Seja a carona na calda de um cometa
 Na velocidade do pensamento
 Seja um livro
 Uma pessoa
 Um amor
 Uma amizade
 Um pensamento, uma ideia
 Sexo
 ou Goiaba
 Seja viajar no azul, na praia de Boa Viagem
Se não for viagem não vale a pena!!!

Amanda Vaz

A gente se apaixona pelo oceano
 Sem medir as consequências
 Nos esquecemos que
 Todos os rios deságuam lá
 Mas é que essa história de ser lago
 Simplesmente não dá pra encarar
Eu às vezes sinto que estou desbotando, mas se eu virar parede branca, poderei servir de tela, para o florescimento de novas artes!
O problema com o vício
 É que as pequenas doses
 Que antes te satisfaziam
 Passam a não satisfazer mais
 A vontade aumenta
 O desejo te consome
 Até que você por fim resolve
 Ir morar junto!

 Amanda Vaz

Ciclo da vida

Arte, menina, ônibus, solidão Vetor

Estava eu voltando da universidade mal aconchegado na janela de um 365 – vulgo Amarelão ou Circular II – e pensando nas coisas que a gente só pensa quando está na janela de um bus ou sentado na privada do banheiro de casa. Os pensamentos iam e vinham bem como os cheiros e sons dentro daquele ônibus lotado de gente lotada de gente e lutando para ser gente…

Pensava na vida e na morte, nos excessos e nas carências.

Pensava nos porquês da vida: porque, por que, porquê e por quê – nossa língua não é para amadores.

No meu celular estreava o disco “O milagre dos peixes”, do Milton Nascimento com a participação da divindade Naná Vasconcelos.

Álbum visceral, cheio de sonoplastia e de efeitos de mixagem, como o fato dos sons ficarem variando entre um fone e o outro, dando a sensação de que a música atravessa a cabeça. Ecos, gritos, queixas, assobios, gemidos… É uma mistura de contemplação com angústia e melancolia.

Cada faixa era – e ainda é – uma liga metálica conduzindo as infindas energias presentes na obra até a carne do meu espírito.

Então me veio a ideia de escrever, ainda dentro do ônibus, alguma coisa. Qualquer coisa que fosse, porém, imaginando o próprio Milton cantando e Naná musicando…

E deu nisso que agora compartilho com vocês.

PS: logo abaixo do texto está o link de uma música em especial desse álbum, “A chamada”. Recomendo ouvi-la enquanto estiver lendo.



“A gente morre o tempo todo

Enquanto tenta matar o tempo

A todo instante, todo momento

Quando percebe, já está morto



E todo dia, morre um sonho

Um sentimento, matam a fome

Morre a saudade no aperto

De um abraço



Morre o jovem no aperto de um gatilho

Vão-se os trens, ficam os trilhos

Todo dia é dia de morrer



A gente nasce o tempo todo

Enquanto tenta morrer pra sempre

A todo instante, todo momento

Quando percebe, nasceu



E todo dia, nasce um sonho

Um sentimento, nasce uma fome

Nasce a saudade na falta

De um abraço



Nasce o jovem no aperto do gatilho

Voltam os trens por outros trilhos

Todo dia é dia de nascer

A gente morre o tempo todo

Enquanto tenta nascer pra sempre

A todo instante, todo momento

Quando percebe, já morreu



E todo dia, nasce um sonho

Um sentimento, matam a fome

Nasce a saudade no aperto

De um abraço



Morre o jovem no aperto de um gatilho

Ficam-se os trens, se vão os trilhos

Toda morte é feita para nascer”


Todo mundo é assassino por conveniência, matando o tempo por sobrevivência.


Marcus Sousa

Ver também em: Ciclo da vida



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sagrado: jornada de luz


A. escrevia centenas de artigos para atingir um antigo anseio. J. lia diversos livros ao mesmo tempo e se via no meio de uma multidão de seres escritos. A. e J. navegavam juntos. No interior de um barco furado, sonhavam imagens matizadas e engendravam uma nova terra para chamarem de lar. Enquanto a água atulhava o pequeno barco, os dois se amavam nos detalhes. A. cobria seus olhos claros com lentes embaçadas. J. mostrava seu olhar castanho através de lentes limpas e grossas. Sem toques. Sem vozes. Só vistas. Olhares se confundiam. J. e A. deixavam suas portas abertas e trocavam seus desejos por acordes de luz. Meditavam: amados. Descobriram o caminho e iniciaram a jornada de redenção. Dormiram anjos. Repousaram cosmos. Despertaram sagrados.

Laìs Ha

Visão púrpura: quando Orfeu reencontrou
Eurídice nos Campos Elísios;
quando Eurídice devolveu a
Orfeu o olhar que ele havia perdido

Laís Grass Possebon

White Curd


This is the green horizon
This is the gray sky
This is my sad song
But it’s a perfect afternoon
Just this horizon
Just this sky
Just the white bird
And the white curd
Just me
My last sad song
This is the green horizon
This is the gray sky
This is my sad song
This song is for the lonely boys
For the lonely girls
For the single mother
No father
This is the green horizon
This is the gray sky
This is my sad song
This is my song for my strangers
My loved ones
My poet
Who died for poetry
My last sad song
To my mother
Mother Earth and to the Universe
And more, and more, more
Just this sky
Just the white bird
And the white curd
So sad

Laís Grass Possebon

White curd