sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ato I da Separação



No interior do automóvel era possível ouvir-se duas respirações bem preocupadas com os próximos minutos a seguirem. A única visão era a de um vidro confuso cheio de falhas, que estava cinza e acho que era por causa do resto de chuva.
Na initerrupta pausa do silêncio, através do vidro, via-se uma rua suja, quieta. O único som que havia parecia vindo de gatos procurando comida entre as inúmeras latas de lixo. E num instante desesperador aconteceu: Com a mão sobre o antebraço de Júlia, Pedro força a voz no que parecia um apelo e diz:
- Vamos tentar novamente. Eu juro, eu juro que... Ju-ro que jamais te deixarei sozinha depois que me esperar. Não recusarei relógios nem suas camisas de rock britânico. Eu juro, meu amor, que eu sempre irei ficar se você nunca mais se for.
Naquele instante um movimento parecido com o de mãos inquietas tapando nos olhos a voz que queria se atencipar, e ainda bem, parou! Agora era Júlia que respondia sem ao menos ter perguntado sobre a saudade, a tristeza, sobre aquele inteiro corpo moreno.
- Você não sabe, mas não era disso que eu estava falando; Do que eu estava precisando. Já desisti de esquecer todo o mal que me fez. Faço questão de lembrar o porquê de ter me perdido tanto querendo ser só de você.
- O tempo passsou. Interrompeu Pedro.
- E não remediou dores para que eu pudesse continuar sendo quebrada em pequenos pedaços por você. Repudiou Júlia.
Pedro, desolado, sentindo seus membros perderem as forças, parece não acreditar. Mas ainda ficou a ouvir algumas palavras que penetraram sua audição ferindo sua esperança.
- Eu quero que você saiba beijar a boca com o pensamento vazio; Eu quero que você saiba sorrir das besteiras ditas e dizê-las também; Que saibas ficar esperando o tempo que precisar quando do trabalho o seu amor chegar e dar-lhe uma dose de carinho; Que saibas salvar o seu coração do perigo talvez tenha medo; Que saibas renunciar um corpo antes do amanhecer e ficar do lado dele sem esquecer que amar não pode ser sinal de sobrevivência;
- Claro, Júlia. Você têm toda razão. Eu aceito, eu acho justo. Eu faço isso por você, o que quiser. Disse Pedro, apavorado com a face fria da sua amada.
Nesse instante Júlia abre a porta do carro, levanta-se e antes de fechá-la olha incandescentemente com uma lágrima escorrendo pela face e diz, sem qualquer resquício de dor ou arrependimento:
- Não, Pedro! Não é pra mim, é por você e outro alguém. É que agora outra pessoa me mostrou que isso tudo o que eu não tinha é bom demais.
Num estalo a porta do carro bate, o coração dela se fecha e o dele desmorona. Deve agora pegar carona com a solidão. E ele olha ela indo tão linda, inteligente,educada. A mulher perfeita, que talvez ele não encontre mais.

(Rosseane Ribeiro)

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