terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mas se é pra falar de amor, eu falarei



Existem pessoas em nossas vidas que são como seres de luz: transmitem uma paz, uma segurança, um afeto verdadeiro que faz bem a tod@s que estão ao nosso redor. Algumas dessas, na mesma velocidade em que se manifesta este fenômeno da natureza, entram e saem da nossa convivência assim, num piscar de olhos. Assim aconteceu com nosso grande amigo (grandão mesmo), Victor Marchel.

Uma vez, numa parada de ônibus, falei pra Juliana de Andrade que Vitim era uma das pessoas com maior sensibilidade que eu já tinha conhecido (e como eu sinto saudade daquele abraço forte como ele me deu quando nos despedimos nesse mesmo dia). A minha percepção sobre ele nesse sentido foi em muito motivada por uma mística – que realmente cumpriu seu papel de ser algo mágico, encantador – feita por ele e Lucas Vieira num espaço de movimento estudantil na UESPI – “Celebração da Desconfiança”, em maio de 2010.

O evento, ao mesmo tempo em que era uma tentativa de renovação do movimento, era um ato de companheiras e companheiros que já estavam cansad@s de uma atuação desgastante – e sobre a qual me abstenho de tecer maiores juízos, porque não tive a vivência que muit@s tiveram. No último dia, tod@s num misto de “tô vendo uma esperança!” e “agora o ME se ferrou de vez” foram surpreendid@s por aquele momento mágico. Vitim e Lucas conduziam o espaço, e, palavras escolhidas com sensibilidade, acessavam nossas dores, nossas frustrações, nossas chamas de esperança. “Confio em você”, diziam ao nosso ouvido, tod@s olhos fechados para sentir melhor aquele ambiente. O choro incontrolável e as palavras do fundo da nossa emoção reverberaram naquele domingo de dia das mães.

Dali pra frente, senti que a convivência daquele grupo se fortalecia. Passei a viver mais aquelas pessoas em grande intensidade. Eis que combinamos uma viagem pra Barra Grande, para passar o final de ano e começo de um novo cheio de coisas melhores. Foram dias maravilhosos na companhia de pessoas maravilhosas. E Vitim estava lá com a gente.

Três momentos me marcaram bastante com ele nessa passagem: na praia, era impressionante a sintonia dele com Lucas (o “Primus”); bastava olhar pra eles e parecia uma cena do Comédia MTV, era só esperar que lá vinha besteira. Na noite do ano novo, ele e Sarinha se despedindo da gente, porque iriam pra casa dela em Parnaíba (voltaríamos a nos encontrar no ônibus de retorno pra Teresina).

Agora, na casa, foi algo ao mesmo tempo antológico e cômico: a certa hora da farra, Vitim pede pra parar a música e diz “Deixa eu colocar uma música aqui”. Eu esperando uma pérola super-cult-intelectual-indie ou coisa que o valha. Imediatamente, os acordes e o primeiro verso “Seu corpo é um mar por onde eu quero navegar...”. De repente, nos olhamos e, ato contínuo, começamos a dançar “Inaraí”, numa coreografia digna da Faculdade Fagner.

Na volta para Teresina, eu, Vitim, André Igor, Lucas e companhia vínhamos cantando os clássicos do pagode anos 1990. E ah, se eu soubesse que aquela seria a última vez que eu veria o velho amigo vivo...
Várias oportunidades eu tive de encontrá-lo em janeiro do ano passado. Mas, pela rotina pessoal de vida (e compromissos acadêmico-profissionais) acabei deixando de lado essas chances. Saraus, Clubes do Vinil, filmes (ainda hoje olho o tweet em que ele chamou a mim e Álvaro Dias para assistirmos “Mary e Max”, e vez por outra releio – e me acabo de rir – daquela conversa homérica sobre filmes entre eu, ele, Iúna, Larissa e Lucas) bebedeiras apenas, foram marcadas, e eu sempre me esquivando disso. Tudo em nome do “futuro”, da “profissão”. Era um sacrifício que entendia necessário, mas que, por esse ponto, me causa um arrependimento bastante grande.

A última vez que falei com ele foi por MSN, no dia 12 de fevereiro de 2011. Uma conversa fria, distante, de quem estava com a cabeça em outra coisa. Ele falando em beber até cair, em viver a vida, em curtir. E essa é a imagem que fica dele pra mim: um cara cheio de vida.

No dia 14 de fevereiro do ano passado, eu estava doente, mas não tinha nada que me fizesse ficar em casa ao saber do que tinha acontecido. Pulo essa parte, porque a dor e a tristeza daqueles momentos tod@s que conheceram o Vitim passaram e sentiram à sua maneira.

2011 passou batido por mim, por vários motivos que não convém. Mas um deles, talvez um dos mais fortes, era a dor e o pensar que um amigo, um grande amigo, tinha nos deixado. Houve tantos dias de entorpecer, de beber até cair pra ver se o dia chegava ao final, pra ver se o amanhã traria uma coisa melhor, e não trazia.

Mas esse mesmo ano me trouxe maior proximidade com a Sociedade dos Poetas Por Vir, fundada pelas mentes férteis, adubadas, sua e do André Café. Fazer parte dessa viagem louca de vocês é manter viva, ainda que minimamente, uma idéia tão produtiva e fecunda, é um elo entre você e a gente pra sempre.

Não comparo a amizade, o companheirismo que tive com Victor, com a relação que outr@s tiveram com ele. Sei que ele tem amig@s de longa data, de sangue mesmo (e vocês, se estiverem lendo, sabem que o são). Meu texto, e minha lembrança dele, é mesmo no sentido de expressar minimamente a significação que ele teve na minha vida (e, penso, na vida de muit@s amig@s próximos).

Dizem que a pessoa que tira a própria vida (preferi não usar o rótulo, logo ele que não gostava de rótulo, “suicida”, porque acho muito forte) é um inconsequente, um egoísta, alguém que não tem Deus no coração e na vida, um fraco. De certeza mesmo no meio desse monte de falas levianas e mal pensadas, a única certeza que tenho é da falta que esse grande irmão faz no nosso dia-a-dia. Descanse em paz, velho amigo. Os dias felizes que passamos e a lembrança de você como um cara pra cima, divertidíssimo, colo amigo e fraternal, abraço confortante, companheiro de valor, nunca sairão das nossas vidas.

Um comentário: