Existem
pessoas em nossas vidas que são como seres de luz: transmitem uma
paz, uma segurança, um afeto verdadeiro que faz bem a tod@s que
estão ao nosso redor. Algumas dessas, na mesma velocidade em que se
manifesta este fenômeno da natureza, entram e saem da nossa
convivência assim, num piscar de olhos. Assim aconteceu com nosso
grande amigo (grandão mesmo), Victor Marchel.
Uma
vez, numa parada de ônibus, falei pra Juliana de Andrade que Vitim
era uma das pessoas com maior sensibilidade que eu já tinha
conhecido (e como eu sinto saudade daquele abraço forte como ele me
deu quando nos despedimos nesse mesmo dia). A minha percepção sobre
ele nesse sentido foi em muito motivada por uma mística – que
realmente cumpriu seu papel de ser algo mágico, encantador – feita
por ele e Lucas Vieira num espaço de movimento estudantil na UESPI –
“Celebração da Desconfiança”, em maio de 2010.
O
evento, ao mesmo tempo em que era uma tentativa de renovação do
movimento, era um ato de companheiras e companheiros que já estavam
cansad@s de uma atuação desgastante – e sobre a qual me abstenho
de tecer maiores juízos, porque não tive a vivência que muit@s
tiveram. No último dia, tod@s num misto de “tô vendo uma
esperança!” e “agora o ME se ferrou de vez” foram
surpreendid@s por aquele momento mágico. Vitim e Lucas conduziam o
espaço, e, palavras escolhidas com sensibilidade, acessavam nossas
dores, nossas frustrações, nossas chamas de esperança. “Confio
em você”, diziam ao nosso ouvido, tod@s olhos fechados para sentir
melhor aquele ambiente. O choro incontrolável e as palavras do fundo
da nossa emoção reverberaram naquele domingo de dia das mães.
Dali
pra frente, senti que a convivência daquele grupo se fortalecia.
Passei a viver mais aquelas pessoas em grande intensidade. Eis que
combinamos uma viagem pra Barra Grande, para passar o final de ano e
começo de um novo cheio de coisas melhores. Foram dias maravilhosos
na companhia de pessoas maravilhosas. E Vitim estava lá com a gente.
Três
momentos me marcaram bastante com ele nessa passagem: na praia, era
impressionante a sintonia dele com Lucas (o “Primus”); bastava
olhar pra eles e parecia uma cena do Comédia MTV, era só esperar
que lá vinha besteira. Na noite do ano novo, ele e Sarinha se
despedindo da gente, porque iriam pra casa dela em Parnaíba
(voltaríamos a nos encontrar no ônibus de retorno pra Teresina).
Agora,
na casa, foi algo ao mesmo tempo antológico e cômico: a certa hora
da farra, Vitim pede pra parar a música e diz “Deixa eu colocar
uma música aqui”. Eu esperando uma pérola
super-cult-intelectual-indie ou coisa que o valha. Imediatamente, os
acordes e o primeiro verso “Seu corpo é um mar por onde eu quero
navegar...”. De repente, nos olhamos e, ato contínuo, começamos a
dançar “Inaraí”, numa coreografia digna da Faculdade Fagner.
Na
volta para Teresina, eu, Vitim, André Igor, Lucas e companhia
vínhamos cantando os clássicos do pagode anos 1990. E ah, se eu
soubesse que aquela seria a última vez que eu veria o velho amigo
vivo...
Várias
oportunidades eu tive de encontrá-lo em janeiro do ano passado. Mas,
pela rotina pessoal de vida (e compromissos acadêmico-profissionais)
acabei deixando de lado essas chances. Saraus, Clubes do Vinil,
filmes (ainda hoje olho o tweet em que ele chamou a mim e Álvaro
Dias para assistirmos “Mary e Max”, e vez por outra releio – e
me acabo de rir – daquela conversa homérica sobre filmes entre eu,
ele, Iúna, Larissa e Lucas) bebedeiras apenas, foram marcadas, e eu
sempre me esquivando disso. Tudo em nome do “futuro”, da
“profissão”. Era um sacrifício que entendia necessário, mas
que, por esse ponto, me causa um arrependimento bastante grande.
A
última vez que falei com ele foi por MSN, no dia 12 de fevereiro de
2011. Uma conversa fria, distante, de quem estava com a cabeça em
outra coisa. Ele falando em beber até cair, em viver a vida, em
curtir. E essa é a imagem que fica dele pra mim: um cara cheio de
vida.
No
dia 14 de fevereiro do ano passado, eu estava doente, mas não tinha
nada que me fizesse ficar em casa ao saber do que tinha acontecido.
Pulo essa parte, porque a dor e a tristeza daqueles momentos tod@s
que conheceram o Vitim passaram e sentiram à sua maneira.
2011
passou batido por mim, por vários motivos que não convém. Mas um
deles, talvez um dos mais fortes, era a dor e o pensar que um amigo,
um grande amigo, tinha nos deixado. Houve tantos dias de entorpecer,
de beber até cair pra ver se o dia chegava ao final, pra ver se o
amanhã traria uma coisa melhor, e não trazia.
Mas
esse mesmo ano me trouxe maior proximidade com a Sociedade dos Poetas
Por Vir, fundada pelas mentes férteis, adubadas, sua e do André
Café. Fazer parte dessa viagem louca de vocês é manter viva, ainda
que minimamente, uma idéia tão produtiva e fecunda, é um elo entre
você e a gente pra sempre.
Não
comparo a amizade, o companheirismo que tive com Victor, com a
relação que outr@s tiveram com ele. Sei que ele tem amig@s de longa
data, de sangue mesmo (e vocês, se estiverem lendo, sabem que o
são). Meu texto, e minha lembrança dele, é mesmo no sentido de
expressar minimamente a significação que ele teve na minha vida (e,
penso, na vida de muit@s amig@s próximos).
Dizem
que a pessoa que tira a própria vida (preferi não usar o rótulo,
logo ele que não gostava de rótulo, “suicida”, porque acho
muito forte) é um inconsequente, um egoísta, alguém que não tem
Deus no coração e na vida, um fraco. De certeza mesmo no meio desse
monte de falas levianas e mal pensadas, a única certeza que tenho é
da falta que esse grande irmão faz no nosso dia-a-dia. Descanse em
paz, velho amigo. Os dias felizes que passamos e a lembrança de você
como um cara pra cima, divertidíssimo, colo amigo e fraternal,
abraço confortante, companheiro de valor, nunca sairão das nossas
vidas.
Lindo texto jorge. Lindo mesmo.
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