sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Monstro
Abro a geladeira
O Martini me olha e brilha.
A luz da geladeira fria branca cabra cega, cessa em mim. Acesa.
Pela sala até a outra sala, vou
Chão frio, pés descalços, nenhum calafrio.
Boca sem sede, nenhum frio me cala
E em Teresina
Não tão longe do rio
Sinto frio e um santo brio.
Saciado, sento no chão. O frio faz bem.
A novela está nos últimos capítulos.
Meu vício está no primeiro.
Uma lesma está no canto úmido da parede branca.
Ela ecoa, dobrada, chupa a cor amarelada do branco da parede branca:
Um suco âmago de sujeira e musgo susto.
Entro no quarto, a luz acende sozinha. Só.
Só pode ser alguém que não vejo. Beijo.
Vejo uma barata com a barriga pra cima.
Ela diz doidona convicta:
_Cara, que viagem essa luz...
Eu redigo invicto:
_Porra, você vai para cruz.
A barata brilha para mim
E me faz lembrar o Martini
Com o papel higiênico, tampo a boca da barata agoniada e digo:
_De vitrine, barata aqui não. Só Martini e minha absolvição.
Com o papel higiênico em mãos
Assassino-a sem dó no coração, esmago-a.
Ela não diz nada, nem me chama: ‘poeta chulo’
Não afirma
Não agita
Não aflita
Nem geme.
Lixo pra ela
Luxo pra mim
E biquíni nas meninas.
Na sala, a TV me hipnotiza
Meu lugar é aqui sentado
Descarado
Ouvindo grilo
Respirando, enfim, normal.
Sem moral, pervertido convicto.
Ainda na parede, a lesma de forma atual
Está lá grudada e brilha
Ela ilha
Eu idílio.
Ela me lembra o Martini.
Pego-a.
Ela calada fria na ponta do meu dedo.
Eu calado na parte de dentro
Frio e medo.
Ela ainda calada, silenciosa, monstra, jega, Lesma
Levo-a
No papel higiênico.
Eu cheio de respeito assassino convicto intento
Não a esmago, nem a deixo de reparo. Torturo.
Subjugo. Amasso o papel higiênico com o gozo da palma da mão.
Lixo pra ela
E frio, nojo, riso
Luxo pra nós
E uma dose atroz.
Do poeta José Augusto Sampaio
Publicado no livro O outro lado do olho, em 2010
Está à venda no www.agbook.com.br
Mais informações em joseaugustosampaio.blogspot.com
Contato: guto.sampaio83@gmail.com
Facebook: josé Augusto Sampaio
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