quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Invencível

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Um arrepio de chuva e sabor,
torpor, adormecido em sobressalto,
não esperava ver mais um amanhã,
montando a vida para o próximo ato.

Enquanto as criaturas que nos perseguem,
medo, dor, desesperança e sofrimento
orbitam no sono profundo,
vamos até a boca do mundo
olhar para o infinito em movimento
e catar bons punhados de coragem.

Tudo dela em explosão
mas a carne amua a ferida;
somos sós? Não neste lugar:
Há ênfase no cuidar;
na camaradagem despida,
existe arder de ousadia e paixão.

Um arrepio de chuva ao sabor
é sol e sal, pelos lábios tingidos
uma manhã de ferro e desafios
num lado a lado invencível.

André Café

Caleidoscópio

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A clara tez, firmeza em luz;
furtiva ao tato, resiliente.
Ora beijo, ora nunca mais,
ora cais de porto, nau fugaz.

Intensa ao tango e vinho;
um sapateado e até breve.
Tão logo, tal longo caminho,
escondido em dose de carinho.

Enevoado em sombra e distância,
fluxo "me aperte" e "me condene".
Um passo a mais, sabor da dança,
é o pulso ardor de intemperança.

André Café

sábado, 3 de agosto de 2019

Par

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Despedaço;
cada naco, num descompasso,
se ardis, cadafalso;
se feliz, desatado, desalinho, ao avesso

Só me teço em incerteza,
cada parte é arte e fim
miro os olhos, estremeço
em todo meu corpo, falta um traçado de mim

André Café

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Um cisco

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Pngtree

Enxergar aquilo que nego,consumir, dirimir, um engodo ensejado;
tantos versos cantados, em bustos que perecem
e carregam junto o povo, numa dança de oportunidades.

Cantam ao longe: uma preciosidade encrustada no nada;
riqueza e diversidade a troco de sangue, suor, saraivadas e concreto
é tão brando meu grito, apenas cisco de outros rabiscos,
alardeando que o nada é o progresso, é o manejo de vidas, é o pacto defecto.

Pulsa, remonta, esquadrinha, do eixo ao entorno,
encastela-se o voo em corações ocos, âmago da rendição
nego, contradito: o que é dito e paz, capataz do medo,
um cisco, num areal excessivo, ao ponto de explosão.

André Café

Deserto fanático

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jorgefrancisconi.com.br

Cede ao frio forasteiro;
num abrasar de reminiscência
amuada cada nota de sonho,
cada ponto de existência.

Copo meio cheio, vento vazio,
trépido olhar em ilusão de sobriedade;
enquanto o por do sol evapora a tarde,
lânguida lágrima soluça a verdade.

Não sou eu o mentiroso,
alardearam o fim da história;
num verso, que não cabe o tempo
o rasgo num trago, por fim de memória.

André Café

terça-feira, 30 de julho de 2019

Temperança

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Supressão de tempo, pra trazer alegria,
apressar das horas pelo chegar do dia;
dois mil quilômetros aqui da esquina,
seguir a sina, no envolver de fantasia.

Saudade não é medida;  pesa os ombros a distância
no deleite de ambrosia, tem limite a temperança,
faz de agosto meu dezembro, um capricho de esperança
pois no abraço da menina, o meu peito ainda dança

André Café

Disco riscado do olhar antigo

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Turista da terra natal,
entre voos, meses e saudades ...
Sentado a beira da braça, uma cerveja sincera,
ardor daquele fim de tarde, a nostalgia em pauta.

O contraste do quase poema, encerrado no caos social,
minha cidade romantizada no precipício neoliberal,
medo, fuga, pés descalços na fonte pública, fome e solidão;
macio farpado em cada gole gélido.

Tempos que não sentia o aperto do calor,
mas sempre o desejo de ver a menina ainda sorrindo.
Cai o dia, esperanças resistem, o tráfego continua;
Um embaralhado triste, duma cidade em riste, enquanto o povo amua

Sou só mais um, no vai e volta, a ter lembrança, do passado sepultado.

André Café

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Cegueira de antevisão

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Em cada traço de chão,
tem rabisco dum desconhecido
Por onde andar? Para que seguir?
No afã de Torre de Marfim,
há prantos e enganos em segredo.

É um risco de medo,
num receio audível;
e a proa empurra ao incerto.
Maré contrária, desejo renitente,
há mais seguro no intangível.

Passo, piso marcado de fé,
pelas entranhas torcidas de zelo;
é passe, puro, desafio latente
que brota na cegueira de antevisão,
dos trilhos do eu no espelho.

André Café

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Muta





Não quero ver sentidos novos em roupas velhas
se necessário for, retalhem-se para o desconhecido
não há necessidade de agasalhos para frio
a chuva é quente, queima a língua e arde os brios

A gente existe e metamorfose,
sem porquês para inércia na história;
sem talvez para muros e fronteiras,
nem eiras para tingir de memórias

É sopro intenso e forte,
pra todo sul de um norte
Ruínas antes perdidas
são barro de base erguida
da nau que aponta à sorte.

André Café

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Poesia que outrora

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Um poeta dorme;

No papel aceso, as letras garrafais.
Ferro e fogo distorcido,
cura em ódio, pelo turno de viver
Não dá mais pra anoitecer.

No rascunho grafitado em murais,
o verso valente no coral corrido;
firme, fugaz, direto, sedento,
contra o crivo legal de silenciamento.

Com fábulas despedaçadas dos vitrais,
o corre poético que outrora esquecido,
revive no fronte, teimoso em reerguer
a força invencível, do todo querer.

André Café

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Negras tormentas agora

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Já se aperta demais o sufoco,
duma vida financeirizada;
aos holofotes, a ilusão da corte
da fuga ás estruturas, negada.

É mais que um edifício,
maior que uma lei;
mais forte que uma ideologia,
imane e imune a qualquer rei

Não nos apetece o abraço das correntes,
não nos enaltece o sacrifício do labor;
não nos interessa a pedagogia do carrasco,
não nos importa medir o terror.

A validade se esconde em cada mente,
em toda história e capacidade,
de olhar para o fato e, de fé, negá-lo,
com toda a pompa da sociedade

O fogo é transformador,
a vontade é destruição,
passo firme, com amor,
no euforia de monção.

Não haverá mais correntes;
se findará toda dominação,
seremos nós, as torrrentes
do curso da revolução

André Café

Sem pesadelos

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Rasga-se a pele para metrar o espaço de fala,
livre de julgo, e aponta sem medo,
incoerentemente justo,
humanamente intolerante.

Cada passo de diálogo,
uma pá de terra;
jogando nas valas o sangue negro e nativo,
o corre é se manter vivo, pelos desvios.

A face não oculta, no jornal familiar,
aparente é o fato, a densidade é fútil;
enquanto isso a carne sangra
ao sabor do ritual mercado

Doce amargor legal,
a morte se anuncia aos de sempre,
mas nem sempre se é criatura que não morde;
jaz o turno do silêncio

Quimera fascista, o algoz ao horizonte
cada grito findado será nossa fonte,
e nenhuma palavra será dita;
sem rendição, sem pesadelos
para nenhum caminho ser 'reandado'.


André Café

terça-feira, 7 de agosto de 2018

12

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Sempre falamos saudade,
e seguimos lembranças.
Não há erro, é presença,
que expressa nossa verdade.

Doze anos, de doses insistentes,
que enxergam a magia em letras soltas,
que percorrem a permissão por tantas rotas,
fazendo da coletividade algo presente.

Poesia, verso, canção, história contada, silêncio falante.
do pouco, do rito, da prosa e liberdade,
não se pretende ser a verdade,
mas produzir, pra fazer gerar o canto popular, adelante.

André Café

Indelével

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A gente te chamava de menina,
acreditando na dança que sempre seria eterna
e na folia que permaneceria,
fazendo você pequena pela eternidade.

Talvez até seja, mas o mundo devora idades,
o sistema se alimenta de sangue e suor,
nós seguimos, pra sobreviver, enquanto você se fez ideia
para quando sentíssemos saudades.

Passa história, vão e vem pessoas,
concreto, asfalto, cinza e calor;
nada parece convite, tudo parece granito;
que se desprende no grito da lembrança

E sempre vem; sempre gera, pra um suspiro de liberdade;
você, eu, nós, a cidade, o coreto, o passeio, o sem fim.
Mais uma vez no ligamos, mais uma vez nos abraçamos.
O sentido de finitude se esvai e permanece a convicção

Vem e vão destinos,
mas o que grudou nossas inquietudes
é indelével

André Café

12, mas 7

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Na conta de 12;
no peito de 7,
na vida de doses,
de tempos algozes

Quisera infinito,
de verso e poema
ao som de revelia,
regendo folia

Meu bem, me perdoa,
a chama de mundo grita;
reborda a cidade inteira,
sem pano, eira ou beira

Nua, pelo noturno olhar,
cada lugar no mesmo passo;
poema, cante a voz das pessoas
não se encastele à proa.

Posso viver ou sonhar,
lutar, sempre que respiro;
mesmo as batalhas sem fim,
mesmo que diste de mim.

Mas a letra fala do agora,
por hora, tem lembrança
Saudades do giro que fez,
quando foi aquela vez?

Que a gente, na sina,
encontrou a menina
e pairou sobre a liberdade do dizer:
que hoje são 12, mas no coração são 7.
conta errada, difícil de esquecer.

André Café

Volta e rente

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No fluxo, no rumo, no entremeio;
na despedida do acaso:
uma caminhada vertiginosa de mesmices;
sigamos, seguimos sequência.
e o lapso insurge, pra que olvidemos o inesquecível.

Ordeira jornada da mesma história,
empurrando o nexo para o fim,
de mim, de nós, das cores que acendemos
e ri triunfante, o domínio que se entregou.

Mas ele não espera, que nada se foi
ao passo marcado, tem piso torto,
tem memória aquecida, tem faro de verso,
tem sombra de rima, poema de esquina

Ela não se fez cinzas; amua na cabeça
e espera, mesmo que por um dia,
a gritaria desvairada solta e altiva,
na boca do mundo que fibrila

Vem e vai, volta e rente,
poesia daqui pra frente,
uma dose de fartura, pra vencer a amargura
intransigente

André Café

domingo, 13 de maio de 2018

Esse poema não é pra você


Fiz uma carta e espero que não leia,
montei uns versos e espero que não sejam pra ti,
escancarei as janelas para o fecho,
achei notas que não são tua canção, nem frenesi

Eu viajei e senti os teus não beijos
eu marquei o dia para não te ver,
eu deixei a carta em outro endereço,
eu me interesso pelo que você não quer saber

Eu queria apontar 'proutro' rumo
e deixar tua sombra na saudade
eu desejo que tu andes longe de mim
para que eu me engane com mais sobriedade

André Café


Sobreaviso

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O teu riso e minha prisão,
desde que vi então, me apaixonei
e já o não sei é resquício
daquilo que jaz, quando fito
o infinito, num instante;
é o grito errante, que murmura o silêncio
paro, penso e leve
 eu sou regojizo
do sonho qual embriaguez;
do simples olhar, talvez,
da cena, de sobreaviso

André Café

Faz tempo que poesia


Não sei quando eu perdi a explosão da vida,
e meu corpo em cada canto e extremo
ou em cada passo de silêncio
sentia, porquanto exauria, a necessidade de ser

E fui, como na centelha sem fim,
mas no fim, num apagar das sombras,
amuei, quase comedido em dizer
que aquilo era eu sendo, deixando de ser

Não sei se são as velhas rotas,
ou tortos caminhos que me despeço
ao tempo, uns amigos vão ao longe
e fazem trajetórias de ciclo,
sou eu, meu âmago e o infinito
circulando na velocidade mil
se estendendo até o reduzido sentido de humano ser

André Café